Mão na cumbuca
Há 14 milhões de famílias brasileiras
que recebem, e realço que devem continuar a receber, o Bolsa Família. É
distribuição de renda, discutir sua importância deixou de ser passional, pois o
consenso chegou. Triste é saber que a correção do valor do benefício não é
efetivada porque iria aumentar os beneficiários. Mesmo assim, palmas a quem deliberou
pagar o 13º do Bolsa, porque os pobres vão gastá-lo por necessidade e,
certamente, com gosto, traduzindo R$ 2,58 bilhões em utilidades e serviços.
As pessoas têm este lado solar.
Mas a minha passividade diante das
contradições do mundo me faz condescender com aquelas gentes que pegam pesado
comigo, e fazem-no para extrair o mel que trago escondido no fundo da cumbuca.
Quem me põe contra o muro bem sabe que tenho muito a entregar à sociedade, só
que o camaleão é-me estado natural de adaptação. Sobrevivo sem maiores dores de
estômago, busco a convivência pacífica, longe dos extremos.
Reconheço que há pessoas modernas,
atuais, humanitárias, que muito se ocupam de indivíduos com esta minha índole;
são seres iluminados pela compreensão. A mim me parece que tais cidadãs e
cidadãos têm a determinação de caráter que faz com que tomem, com agilidade de
raciocínio e facilidade de partilha, o partido dos direitos, porque ligam para
as circunstâncias em que é preciso exercê-los ou exigi-los.
Se a menina veste-se com roupas de
menino, precisamos respeitá-la na sua vontade, facilitar os hormônios
masculinos e prepará-la psicologicamente para a mudança física do corpo. Principalmente,
por ela ter sete anos.
Não há exagero, há cuidado. Uma
criança é uma criança é uma criança? O homem saudável está na menina amparada.
E quem tem idade para separar o joio do trigo não pode abraçar qualquer infantilização
ideológica que não respeite a diferença. Se não existe o respeito, o preconceito
prepondera. E quem se gaba de não ter pré-conceitos faz estúpido o seu
humanismo.
Convenhamos, contudo, que o manejo do
fogo ou o uso da roda são úteis e necessários para a civilização. A enfermidade,
assim, está na demasiada fraternidade.
Radicalismos, fundamentalismos,
extremismos, não importa a postura nos campos moral, político ou social, se têm
raízes à direita ou à esquerda. Toda leitura exacerbada do mundo leva a uma
hiperbólica atuação. Parece-me desperdício de revolta, sem, de fato, ir contra o quê e quem oprime e reprime.
No afã de ocupar um papel relevante, a
destacá-las como pessoas compreensivas, antenadas com mudanças, propensas a
revisões culturais, certas lideranças legítimas e legitimadas, e me refiro a líderes
religiosos, comunitários, professores, pais e mães inclusive, nem sempre estão capacitadas
para enfrentar os desafios da nova ordem psíquica.
Assumir tais postos com tal entrega de
paixão? Sem que se retratem autoritários, casuísticos e preconceituosos, e não
por falta de seriedade, estudo, aprofundamento, análise de dados e comprometimento
com ideias das áreas de saúde, psicologia, psicanálise, filosofia e ética, que
isso, o perfil desmesurado, se dá. Estas lideranças, ao adotar esta visão
política da tolerância absoluta, tornam-se: menos gentis porque onipresentes; menos
eficazes, por oniscientes; pela onipotência, menos razoáveis.
Daí, diante destes luminares, pessoas
de carne e osso que lutam por vaga na creche, batalham pelo emprego na padaria
da esquina, guerreiam pela sobrevivência no mundo de robôs, elas acabam
desenvolvendo repulsa, ojeriza, ódio.
Todas as pessoas precisamos aprender a
escutar. Sem nos afobarmos a ouvir o que não diz quem fala. Precisamos pesar o
que alguém faz sem adiantarmos os efeitos. Precisamos ter que outrem é outra
pessoa, que até age e pensa como nós.
Diferenças devem ser valorizadas e não
padronizadas pela régua da nossa alma. Ou seja, o bem-estar social começa pelo
respeito ao outro, passa pela sensatez no convívio com quem discorda da gente,
entra pela lucidez ao expressar o que nos comove. E antes da opinião vem a
escuta; da organização das ideias, a escolha das palavras; a argumentação pró e
contra o que quer que seja. Sem tabus, mimimis, vitimização.
Aliás, com a barba de quatro dias para
mais ficar parecido comigo, não fico down
quando tomam meus olhinhos miúdos como dica do cromossoma encantado. No entanto,
não aprovo infantilizar quem porta a Síndrome. O excesso de amor impede pessoas
com trissomia de desenvolver-se, divertir-se, estudar, trabalhar, passear. Sem
a proteção castradora dos virtuosos, o Down poderia viver menos angustiado, e mais
feliz?
Distraído do lugar onde fui nascido, quero
o Nansen em cuja foto reconheça a minha identidade, sem ficar bradando contra
os muros a dividir troianos de gregos, taturanas de lacraias, as begônias dos crisântemos,
os diamantes das cassiteritas.
Os fatos não mentem? Talvez. Ou muito
me engano.
Todavia, procuro não agir feito um imbecil,
nefasto e nocivo. Nem pondo um dedo a mais de bom-mocismo no que faço.
Por acordos semânticos, fico de olho na
semântica. Pois só entendendo o que se diz é que monólogos são rompidos. Por
conseguinte, dialogam uma pessoa com outra?
Se o modesto faz pouco do muito que pode,
apenas farelos, sob a mesa, restam aos humildes. Como é?
O mel, pelo que capturo da vida ao meu
redor, não o fabrico por hábito, mas pelo desejo de fabricá-lo. Às vezes, por
prazer, nego-me a compartilhá-lo; às vezes, por descuido, sei ofertá-lo. Pessoa,
se lambo o mundo com todos os sentimentos, colho o imperdoável ao não-esquecimento.
Sou de me melecar.
Pois, riso ou lágrima? Ambos, que chego
a adorá-los.
E é em nome da liberdade de pensamento
e da liberdade de expressão que... nada tenho a dizer à vida. Digo aos vivos.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 21 de abril de 2019.