Juro por deus que não é mentira, juro
que não vou inventar alguma lambança, juro que não quero desviar o foco, porque
a vida é sonho e não preciso forçar a barra para acordar, nem mesmo acordarei quem
não tem pesadelo do qual precise ser despertado.
Se eu pretendesse desviar a atenção da
minha vida prosaica, reles e enfadonha, poderia mostrar o quanto me falta
imaginação, ainda que suponha estar dando conta, eu erro feio na autoavaliação.
Eu poderia dizer que Flamarion e
Arinelson são irmãos, e primos de Asclépio, diria também que Atanagildo e
Claudiomiro são amigos, sem parentesco com Mariazinha, que entrou na história
porque emprestou quatrocentos reais pro Arinelson, que foi roubado pelo caolho
chamado Francinildo, que por sua vez foi roubado por um rapaz que passava de
bicicleta e foi-se embora levando a grana que seria usada por Arinelson pra
quitar a dívida que tem com Claudiomiro, que tinha dito ao devedor que a dívida
tinha que ser paga antes do dia cinco porque o pagamento da dívida estava
atrasado e quem virá resolver a questão (do jeito que tiver de ser) será um sujeito
ruim como o diabo, chamado Francinildo, que, enquanto mina a resistência da gente
dando socos no abdômen, sabe fumar o seu cigarrinho sem jogar a fumaça na fuça
de quem ele precisa socar no abdômen.
Até agora, fizemos bem em deixar
Asclépio de fora desse imbróglio, pois há décadas não se tem notícia desse
primo do Arinelson, embora tenha gente que diga que ele vive em Minas, nalguma
vila, num rincão que fica perto de Mariana, mas não damos como precisa a
informação, embora vinda de terceiros que gostam de galinha à cabidela.
Aceitamos a verdade que uma fofoca finge
não trazer na superfície, como não torço pescoços nem coleto sangue, conto o
que sei sobre o que vou contando, conto o que acredito saber sobre o que acho
que estou contando, posso agir como um terceiro nesse causo em que não entram
Flamarions, Arinelsons, Atanagildos, Claudiomiros e Mariinhas, permitindo a entrada
do Francinildo, pois a sua presença dá essa paúra de questionar se conseguirei aflorar
em mim o astucioso, esse farsante que mostra a cara quando estou boquiaberto,
certo de que não saberei trazer à tona o que minha cara sonha que eu não veja, eu
não perceba e não sinta que as identifico, essa paúra e essa cara de cobarde,
pois, ao identificar-me com esse sujeito no espelho, então, sou esse crápula, viro
esse Francinildo avexado de ver-se em mim.
De soslaio, dou uma olhadinha. Olho
fingindo que não quero olhar, espio. Dou outra espiada, apenas pra me certificar
do que vejo, apenas pelo desejo de ver-me, embora eu tenha vergonha, tenha medo.
Posto ser desagradável haver-me
caviloso, o que preciso fazer para não me estarrecer é raspar a cabeça.
Pro espelho não criar desdita alguma, caracoles!,
vou comprar um aparelho de barbear.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de maio de 2025.