Fantasia de fantasma
Memória é coisa recente,
já dizia o Paulo Leminski. Todavia, chega de ficar com graça. Os fatos
atropelam o papo furado da lua. O negócio é tirar a viola do saco pra cantar a
verdade, nua e crua. O mais são águas que vão e não voltam.
E não voltam mesmo.
Mesmo agorinha, pensei
na minha mãe, “vê se para de enfiar palavrão no que escreve”, e pensei quando chutei
com o dedinho do pé esquerdo o pé do sofá, “puta merda, quebrei essa joça”,
pena que só fui lembrar depois de ter dito, mas só disse depois de ter provado,
por xis mais ípsilon, que o ossinho do mindinho é mais frágil que a madeira do
móvel, que, aliás, nem tchum pra minha dor, ficou no mesmo lugar de sempre.
Sempre acabo me
lembrando do meu pai, “filho, quando for preciso mentir, minta pra quem não vai
mesmo acreditar que você seja capaz de dizer uma mentira”, e lembro bem na hora
que pego a fila errada no supermercado, “tem dez itens, nem precisa conferir,
eu sei contar, não sou nenhum imbecil”, não, a funcionária do caixa não me
chamou de imbecil, mas os meus poderes extrassensoriais permitem prever sem que
ela saiba que a estou ouvindo no texto aqui.
Aqui, bem aqui neste
ponto da história, é que entra a minha irmã, “lá vem você com as suas capivaras
de beira de rio”, não me perguntem, amável leitora e afável leitor, o que isso
quer dizer porque ela nunca usou tal expressão, por isso, e pra deixar de lado
o nonsense, abrevio o parágrafo e agradeço a ela pela sua contribuição
involuntária, e vou em frente.
E vou em frente porque o
Brasil não para, mesmo que ande meio zureta das ideias, “não estou me referindo
ao Janot, que sempre foi o gatilho mais rápido do Centro-Oeste”, corrijo-me a
tempo, antes que me acusem de biruta ou coisa que o valha, é que sei melhor do
que ninguém como a minha cabeça vive cheia de demônios que a querem vazia pra fazer
a festa com umas ideias de comunista que não tem mais aonde ir.
Se não tem mais aonde
ir, então, “feche a droga da porta da geladeira pra não escapar o barulhão do
arrasta-pé, seu energúmeno”, sóbrio esse demônio, e vou na dele, deixo a
geladeira em paz, abro um livro, Distraídos
venceremos, leio que fica “extinto por lei todo remorso”, daí que volto pra
pegar a maçã que estava querendo comer, e até arrisco uns passinhos no embalo do
jegue do Genival Lacerda.
Só mesmo o danado do
jegue do Lacerda pra liberar na crônica um “freio de arrumação”, e acabo sem
enfiar nenhum palavrão, sem gritar que tem lobo na área, sem tirar palavras da
boca de ninguém e, finalmente, indo tratar da vida que já está na hora de pegar
uma onça pra ir beber um galão de água que passarinho não bebe.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de setembro de
2019.
PS – Depois de terminada
a crônica, digo que concordo com o poeta da primeira linha, “maldito seja quem
olhar pra trás, lá pra trás não há nada e nada mais”, a história é mesmo
recente. E já que estamos aqui, aproveito: a que ponto chegamos?