O doutor Baptista e eu conversávamos à
mesa. Comíamos do bolo de cenoura que Marcelina, sua filha, assara pela manhã.
O clínico depôs a xícara de café.
Olhou-me. E disse:
— Há circunstâncias que voltam até mim
quando os meus tímpanos nem se dão conta de que um curto-circuito irá se formar
na cachola. E sem que o senso consiga erguer — a tempo — alguma contenção, me
emociono. Ontem houve isso.
E o velho continuou:
— Na fila da lotérica, pessoas
conversavam. Falavam da barra de uma calça. Falavam do tempo que não limpava. E
não foram delicadas com esse, aquele e uns terceiros, pois eles todos eram políticos.
Sem que eu atinasse por qual fio puxaram aquele nome, foi dito: Tia Zefinha.
Eu bebi outro gole de café; o doutor
ignorou:
— Disseram que ela ficara doente.
Tossira por meses até manchas ficarem registradas nas chapas. E a pneumonia foi
diagnosticada. Sem que eu me virasse, disseram que esse doutor Baptista
prescrevera os remédios e pedira repouso. Este doutor Baptista teria sido
terminante: repouso absoluto e sopas quentes.
O médico bebeu um gole de café.
— Zefinha ficou em casa por semanas. E apenas
para garantir que estivesse mesmo curada, enfrentou quinze dias a mais de
reclusão. No cômodo onde estivesse, as janelas permaneciam fechadas; menos as
cortinas, pois ela ficava mais ainda borocoxô quando não dava uma espiadinha no
movimento.
O doutor Baptista nunca deixou de chamar
“derrame” o que hoje é conhecido como AVC, o tal do “acidente vascular
cerebral”. Isso talvez não tenha influência alguma, mas o doutor sabe prender a
gente com as suas histórias. E ele prosseguiu:
— Antes do derrame, Josefa foi parteira.
Foram anos e anos, mas o corpo estragou-se. Da pneumonia... Disso a Josefina
sarou.
O médico acendeu um cigarro.
— O homem e a mulher falaram que os
filhos deviam ter impedido a Josefina de fazer a tal tatuagem. Se bem que os
cabelos escondiam a marca, ela disse. E o frio a fazia usar cachecol, ele
acrescentou.
Como se eu estivesse inteirado sobre as
tramas daquela família, o meu amigo continuou o seu relato:
— Quando Marco Aurélio foi conferir se
havia uma tatuagem no seu pescoço, Josefina disse ao filho mais velho do seu
marido que ele não tinha que dar palpite.
O doutor Baptista tragou, tossiu e
prosseguiu:
— Ísis Maria foi mais feliz, pois
Josefina mostrou-lhe a tatuagem. E a filha caçula do seu marido confidenciou à
madrasta que também faria uma — não poria um nome na nuca, ela tatuaria um
golfinho na coxa.
O doutor pigarreou e disse:
— Como todo mundo sabe, ela traz um
golfinho na panturrilha. Já que todo mundo reparou, Ísis Maria anda de marido
novo.
Josefina e o seu segundo marido
convidaram para o aniversário de vinte e cinco anos de união, o doutor dirigiu
esse aparte a mim. E voltou ao relato do que ouvira na fila:
— Disse ele: Josefina me chamou! Disse
ela: Foi a própria Josefina que também me chamou!
O doutor Baptista apagou o cigarro no
cinzeiro, e concluiu:
— Como a Josefina sempre foi dona de um
espírito raro, convidado algum gastará um vintém. Meu rapaz, ela gosta de ser rara.
Levantei-me. Saí. Só no táxi, lembrei-me
da Marcelina.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 16 de junho de 2026.
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