terça-feira, 16 de junho de 2026

Espírito nobre

 

Espírito nobre

 

O doutor Baptista e eu conversávamos à mesa. Comíamos do bolo de cenoura que Marcelina, sua filha, assara pela manhã.

O clínico depôs a xícara de café. Olhou-me. E disse:

— Há circunstâncias que voltam até mim quando os meus tímpanos nem se dão conta de que um curto-circuito irá se formar na cachola. E sem que o senso consiga erguer — a tempo — alguma contenção, me emociono. Ontem houve isso.

E o velho continuou:

— Na fila da lotérica, pessoas conversavam. Falavam da barra de uma calça. Falavam do tempo que não limpava. E não foram delicadas com esse, aquele e uns terceiros, pois eles todos eram políticos. Sem que eu atinasse por qual fio puxaram aquele nome, foi dito: Tia Zefinha.

Eu bebi outro gole de café; o doutor ignorou:

— Disseram que ela ficara doente. Tossira por meses até manchas ficarem registradas nas chapas. E a pneumonia foi diagnosticada. Sem que eu me virasse, disseram que esse doutor Baptista prescrevera os remédios e pedira repouso. Este doutor Baptista teria sido terminante: repouso absoluto e sopas quentes.

O médico bebeu um gole de café.

— Zefinha ficou em casa por semanas. E apenas para garantir que estivesse mesmo curada, enfrentou quinze dias a mais de reclusão. No cômodo onde estivesse, as janelas permaneciam fechadas; menos as cortinas, pois ela ficava mais ainda borocoxô quando não dava uma espiadinha no movimento.

O doutor Baptista nunca deixou de chamar “derrame” o que hoje é conhecido como AVC, o tal do “acidente vascular cerebral”. Isso talvez não tenha influência alguma, mas o doutor sabe prender a gente com as suas histórias. E ele prosseguiu:

— Antes do derrame, Josefa foi parteira. Foram anos e anos, mas o corpo estragou-se. Da pneumonia... Disso a Josefina sarou.

O médico acendeu um cigarro.

— O homem e a mulher falaram que os filhos deviam ter impedido a Josefina de fazer a tal tatuagem. Se bem que os cabelos escondiam a marca, ela disse. E o frio a fazia usar cachecol, ele acrescentou.

Como se eu estivesse inteirado sobre as tramas daquela família, o meu amigo continuou o seu relato:

— Quando Marco Aurélio foi conferir se havia uma tatuagem no seu pescoço, Josefina disse ao filho mais velho do seu marido que ele não tinha que dar palpite.

O doutor Baptista tragou, tossiu e prosseguiu:

— Ísis Maria foi mais feliz, pois Josefina mostrou-lhe a tatuagem. E a filha caçula do seu marido confidenciou à madrasta que também faria uma — não poria um nome na nuca, ela tatuaria um golfinho na coxa.

O doutor pigarreou e disse:

— Como todo mundo sabe, ela traz um golfinho na panturrilha. Já que todo mundo reparou, Ísis Maria anda de marido novo.

Josefina e o seu segundo marido convidaram para o aniversário de vinte e cinco anos de união, o doutor dirigiu esse aparte a mim. E voltou ao relato do que ouvira na fila:

— Disse ele: Josefina me chamou! Disse ela: Foi a própria Josefina que também me chamou!

O doutor Baptista apagou o cigarro no cinzeiro, e concluiu:

— Como a Josefina sempre foi dona de um espírito raro, convidado algum gastará um vintém. Meu rapaz, ela gosta de ser rara.

Levantei-me. Saí. Só no táxi, lembrei-me da Marcelina.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de junho de 2026.

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