De episódio em episódio, me escapou a
madrugada. Os bem-te-vis armaram a sua rede desde o sopé do Morro da Figueira,
de árvore em árvore, até a parabólica de casa.
Abri a janela.
A aurora lambeu meu rosto com os dez
graus previsíveis do outono. Não me apoquentei por nem lembrar qual o seriado
que achei ter visto. Eu também me evadi da madrugada.
Não dá trabalho algum cochilar no sofá,
basta manter o som da tevê naquela altura narcotizante — nem muito alta para
injuriar os parentes fantasmas nem baixinha o bastante que mal dê pra ratificar
as idiotices que saltam de uma personagem a outra.
Com o mal jeito de uma noitada inútil, vim
pro computador decidido a trabalhar.
Achei o arquivo. Quero terminar de
revisá-lo antes do almoço.
De ajuste em ajuste, a manhã me
escapole. São onze horas e vinte e sete minutos. Com regências pronominais bem
calibradas e adjetivos cortados, o texto de medíocre passou a razoável.
Quando o estômago ronca, é hora de
parar.
Aprendi com tonturas que o chão fica sob
os pés quando a barriga digere o que se come. O corpo prevalece.
Nesta luta contra a dispersão, eu perco.
E uma vírgula se aproveita da garfada de arroz para se intrometer nos processos
químicos do meu estômago.
E a mente concentra seus dendritos na
tarefa de disseminar voltas e mais voltas ao redor de uma elipse.
Se eu percebesse o que está eclipsado,
haveria contradição.
Volto ao texto. Nem cheguei a largá-lo
fora do prato, e o pego frio. Como quem quis urinar sem nem água ter bebido,
retomo-o a seco.
Corto uma frase. E outra.
Releio o parágrafo. Reescrevo a frase
suprimida. Consigo fazer isso porque estou concentrado. As palavras não usaram
as sinapses para voarem, se esconderem.
A consequência, desloco-a. Antecipo-a à
causa, e acho outra coisa, o sorriso. O sorrisinho, esse sim sabe o quanto é
divertido me confundir quando a coisa aperta.
Nem sinto se afrouxo. Só sei que sentado
eu fico.
Me diverte brincar enquanto trabalho.
Jogo, porque aprendo a jogar durante a peleja. E a brincadeira me faz esquecer
que estou distraído para o mundo.
O rapaz que registra o consumo de
energia elétrica teve que tocar mais de uma vez. Nem sei quantas foram.
Ruborizo, a ele relato o que fazia:
— Estava lá nos fundos. Sabe, estava com
a máquina ligada. Hoje é dia de lavar roupa. Me desculpe se demorei.
O meu rosto delata o que acontece comigo
quando não lavo roupa coisíssima nenhuma: eu só escrevia.
Coisíssima alguma que é só escrever. A
vírgula que não se deixa digerir nas minhas entranhas me faz respirar de boca
aberta. E a boca seca me leva ao copo d’água. E não é a água que me devolve ao
texto, é a sensação de ter voltado a salivar.
Leio novamente o que tenho que ler.
Se aprovado, salvo o arquivo. Se
pressinto que falta algo, vou voltar a ele. Se voltarei, desligo o computador
sem lamento algum.
E a janela precisa ser fechada. E os
bem-te-vis já estão fugindo do frio da noite que vai subindo pelo sopé do Morro
da Figueira.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 02 de junho de 2026.
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