terça-feira, 2 de junho de 2026

Os bem-te-vis

 

Os bem-te-vis

 

De episódio em episódio, me escapou a madrugada. Os bem-te-vis armaram a sua rede desde o sopé do Morro da Figueira, de árvore em árvore, até a parabólica de casa.

Abri a janela.

A aurora lambeu meu rosto com os dez graus previsíveis do outono. Não me apoquentei por nem lembrar qual o seriado que achei ter visto. Eu também me evadi da madrugada.

Não dá trabalho algum cochilar no sofá, basta manter o som da tevê naquela altura narcotizante — nem muito alta para injuriar os parentes fantasmas nem baixinha o bastante que mal dê pra ratificar as idiotices que saltam de uma personagem a outra.

Com o mal jeito de uma noitada inútil, vim pro computador decidido a trabalhar.

Achei o arquivo. Quero terminar de revisá-lo antes do almoço.

De ajuste em ajuste, a manhã me escapole. São onze horas e vinte e sete minutos. Com regências pronominais bem calibradas e adjetivos cortados, o texto de medíocre passou a razoável.

Quando o estômago ronca, é hora de parar.

Aprendi com tonturas que o chão fica sob os pés quando a barriga digere o que se come. O corpo prevalece.

Nesta luta contra a dispersão, eu perco. E uma vírgula se aproveita da garfada de arroz para se intrometer nos processos químicos do meu estômago.

E a mente concentra seus dendritos na tarefa de disseminar voltas e mais voltas ao redor de uma elipse.

Se eu percebesse o que está eclipsado, haveria contradição.

Volto ao texto. Nem cheguei a largá-lo fora do prato, e o pego frio. Como quem quis urinar sem nem água ter bebido, retomo-o a seco.

Corto uma frase. E outra.

Releio o parágrafo. Reescrevo a frase suprimida. Consigo fazer isso porque estou concentrado. As palavras não usaram as sinapses para voarem, se esconderem.

A consequência, desloco-a. Antecipo-a à causa, e acho outra coisa, o sorriso. O sorrisinho, esse sim sabe o quanto é divertido me confundir quando a coisa aperta.

Nem sinto se afrouxo. Só sei que sentado eu fico.

Me diverte brincar enquanto trabalho. Jogo, porque aprendo a jogar durante a peleja. E a brincadeira me faz esquecer que estou distraído para o mundo.

O rapaz que registra o consumo de energia elétrica teve que tocar mais de uma vez. Nem sei quantas foram.

Ruborizo, a ele relato o que fazia:

— Estava lá nos fundos. Sabe, estava com a máquina ligada. Hoje é dia de lavar roupa. Me desculpe se demorei.

O meu rosto delata o que acontece comigo quando não lavo roupa coisíssima nenhuma: eu só escrevia.

Coisíssima alguma que é só escrever. A vírgula que não se deixa digerir nas minhas entranhas me faz respirar de boca aberta. E a boca seca me leva ao copo d’água. E não é a água que me devolve ao texto, é a sensação de ter voltado a salivar.

Leio novamente o que tenho que ler.

Se aprovado, salvo o arquivo. Se pressinto que falta algo, vou voltar a ele. Se voltarei, desligo o computador sem lamento algum.

E a janela precisa ser fechada. E os bem-te-vis já estão fugindo do frio da noite que vai subindo pelo sopé do Morro da Figueira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de junho de 2026.

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