terça-feira, 31 de julho de 2018


corja de campeões


internacionalista?
nacionalista?
acionista!

(rodrigues da silveira, 2017)

segunda-feira, 30 de julho de 2018


a caminhada


vim ao mundo sem saber andar
            e longa tem sido a caminhada
                         pra nem mesmo chegar a nada

vim ao mundo sem saber falar
            e breve tem sido a audiência
                         que nem anda lá muito interessada

vim ao mundo sem saber contar
            e é pra já ter ligeira a consciência
                            que toma por fim a própria estrada

(rodrigues da silveira, 2014)

domingo, 29 de julho de 2018


luta amada


lutarei por você, minha amada,
lutarei com todos os dentes que me sobrarem;
o muro é alto, o chão de vidros.
lutarei com todos os dedos que me restarem.
lutarei com todos os vícios,
os meus, os seus, os nossos.

lutarei por você, minha querida,
farei minha a sua luta contra a fome,
apesar do prato em cacos.
farei minha a sua luta contra o frio, cobertor em trapos.
farei minha a sua luta contra o medo,
nem meu nem seu, o deles.

lutarei por você, minha paixão.
torne distante, a luta, a lua do inverno.
labareda inquieta, breve temporada no chão.
amena e rósea, é tão próxima a manhã.

flor da discórdia, meu amor, haverei de cantá-la.
porque luta é semente, germinaremos.

(rodrigues da silveira, 2017)

sábado, 28 de julho de 2018


a ampulheta de moebius


um tardio sol tatuado como estaca
no coração põe-se outra ferida
raio a raio cristalizada
à miragem escapulida do sombrio
no refletido desse fado mais do que necessário
o sifilítico no desocupado
no opaco o invisível é espelho enegrecido

vem e passa esse ontem interminável
a cravar suas águas efluviais na jugular do rio
como se à areia que vive esse amanhã vivido
passasse o esquálido do morrido
mas o verde incomunicável passa e vai

é a mocinha distraída pela manhã
submersa em suas águas
tão saída no terra a terra da vida
tão distante do que seja uma fada
o imprevisível latente no peito
como uma lua em chamas na mata
o beijo permanece aberto
singelamente

(rodrigues da silveira, 2015)


tranquilissíssimo


inteirado para poder.
atirado no poder.
aturado a poder.

pelo pundonor do riso.
consume-se a remissão?
acostume-se ao cenário?

intrépido, mestre das cartas,
intrêmulo, porto dos ouros,
vá!
e açoitado pra fora da gaiola,
desencante-se.

descansar-nos-á dos filhos da pátria,
ó grandíssimo?

o pardal tem necessidade do voo.
a andorinha tem precisão do pouso.
o rasante tem ponderativo o canário.

(rodrigues da silveira, 2017)


sexta-feira, 27 de julho de 2018


a face do besta


o poema, voz que corre
as portas, fabrica escadas,
não espera a palavra ganhar
peso, perdida dos trilhos.

o ruído, a falha, o que descarrila.

à falta de folhas novas,
o tormento de um horizonte
menos azul, já gasto, oxidado.
é tamanha a necessidade
de um abraço, dos afagos,
em reconhecimento.

no pátio, visto o que sobra.
quem usa o silêncio como um ímã?

a locomotiva incendiada,
as vidraças perfuradas dos carros,
os bilhetes amassados,
a estação imersa nas neblinas.
a página decifrada, avolumado mistério.
tal a composição revelada.

sorri, o incapaz do riso.
palavras mudam um verso; o verso, nada.
um não sei quê que quebra
a fala pelo que não diz,
se, por suposto, supõe ter dito,
pondo em suspeita o que se pensa,
já no pensado, já no dispensado.
quem mais lê as limalhas como paralelas?
quem amealha em paz?
alguém que ama, por amar-se; por amá-lo, atém-se
a esse, feito outro, como a ninguém.

desconfiado do eco, filtra o dom
nos mesmos ossos; noutro sono, esqueleto
já feito ninguém.

fecal, a voz do banal foca o bocal:
esse espécime, um indivíduo, o pobre.

à toa, à toa, fracassamos, essa é a trilha
─ outro dos nossos fracassinhos bestas, né?

(rodrigues da silveira, 2014)

quinta-feira, 26 de julho de 2018


a porta de satanás


a cidade está maravilhada,
dadivosa que só, a danadinha,
antes atordoada, agora maravilhada,
crescente no verde de suas ramagens,
cordel de cimento no aço dos fumados,
calçada de vanidades fumadas, temporais,
cresce pelos vãos da calçada, fotos comportadas,
nos braços nus, sem pulseiras e relógios,
nos colos límpidos, puros, sem colares,
nos tornozelos, só as fitinhas crônicas,
não há coleiras de ouro, ou prata, é pelo couro
que acalanta qualquer cantinho,
silenciosa, no escurinho, no cativante,
toda certinha no ápice que esgota, pra baía toda,
ó guanabara da gema.

não gema o prazer com orgulho,
ó abstinente no calçadão, ó tunga do bagulho,
ai o absorvido da turba, ai o querido das marcas de tênis,
deixe para a areia a destreza dos pés, as mãos ligeiras,
ó coração atingido. de tanto amor, carioca.

(rodrigues da silveira, 2017)

quarta-feira, 25 de julho de 2018


o tálamo


só no escuro,
o louco escuta

a chuva
a mata
o lobo

enquanto houver boca,
haverá fome

cobre os olhos com o cobertor,
e escuta

o cérebro
os dentes
a boca

enquanto houver fome,
terão reféns

o louco ouve,
sabe que escuta

a noite
o choro
o tiro

enquanto construírem cadeias,
darão mais verba

cobrem-no com terra,
sem escuta

é ele
é o louco
só mesmo ele pra ser louco

enquanto a grana deles crescer,
falaremos verde

ó louco,
se não escutasse,
seria outro

(rodrigues da silveira, 2015)

terça-feira, 24 de julho de 2018


o inoxidável da verdade


só nos salvaremos se você parar de sorrir
o resto de nossas vidas depende de você parar de sorrir
faça-nos o mister de ceder a pensar em parar
de sorrir

juramos de pés juntos, por deus que juramos,
falamos sério, muito seríssimos,
compramos, retido o teclado, compramos
a bendita daquela dentadura

(rodrigues da silveira, 2017)

segunda-feira, 23 de julho de 2018


estrela da manhã


ó comovente utopia;
ó gema infalível do mais translúcido barroco;
tocante esplendor; ei-la, a rocada:
com os lábios afilados de pessoa mais amada,
faz corrente a paz da tolerância, a renomada;
faz fluente o amor da aceitação, o prendado,
com os cobres malhados de maior amigo do jeito.

(rodrigues da silveira, 2017)

domingo, 22 de julho de 2018


o caminho do amor

pessoas temem o covarde em mim.
o medo olha o punho, o aço de sua lâmina.
carregadas no punhal, têm contas imperdoáveis.

pessoas temem o cordato em mim.
e socam mordaças de gasolina,
sorvidas em provas espirituais inflamáveis.

as pessoas temem em mim o hipócrita,
urram pelo fogo que tocarão,
posso, porém, lhes oferecer a outra face, a minha.

(rodrigues da silveira, 2017)

sábado, 21 de julho de 2018


o caminho do meio


dama dada a sussurros lamacentos, e custosos;
romãs tamborilam muros sedentos, fantasmagóricos;
frestas pro amor dedilham em arengas, música memorável.

(rodrigues da silveira, 2014)

sexta-feira, 20 de julho de 2018


o caminho do ódio


tenha o olho no olho, agredindo,
pondo-se a modos de aprender.

não murmure nem urre, meta o murro,
força no certeiro, rápido,
no meio da fuça, prático,
flecha a toda, como sói.

sinta a farpa, sangre,
farrapo de arame,
tire-se incisivo.
afim ao pacífico?
borboleta acídia.

aceite-se ao perfurar-se;
ao cortar-se, deleite-se.

acometido a ferimentos;
na mutilação, a presença
do dedo, num instante, falto.
toleima reclamá-lo íntegro,
por repleto no inteiro, em todos,
nos outros, pelos dezenove.

 sinta-se, escorre-lhe o sangue,
aberto no baixo ventre.
sinta que pulsa o impulso,
já caído na pressão,
já ruída escuridão.

como um poema, afeito às regras,
por justificado no rescrevido,
mais que um atrevido.

aos homens do povo,
que, na feira de sempre, conferem explicações,
que, metáforas a postos, remontam artesãos,
que, de praxe ordinários, conversam suas dívidas,
tiram seus extratos da dúvida ainda não pega.

já ao depois, logo ali a padaria,
amanhecido como pão quentinho,
diante de trabalhadores indo pro ponto,
pro bem geral, do frêmito ao sentido:
vomite-se.

(rodrigues da silveira, 2014)