quarta-feira, 29 de abril de 2026

A sabatinagem

 

A sabatinagem

 

O sabatinista de gravata amarela:

— O cidadão afirma que acordou às 4:00.

O cidadão:

— Às quatro horas eu fui acordado, senhor.

O sabatinista de gravata verde:

— O cidadão confirma que perdeu o ônibus das 6h45.

O cidadão:

— Às seis e quarenta e cinco o ônibus já tinha passado.

O sabatinista de gravata-borboleta:

— O cidadão confirma que o horário de entrada é 8:00.

O cidadão:

— O alarme disparou às quatro horas.

O sabatinista de gravata cinza:

— O cidadão garante que o telefone tocou 2:45 antes da hora.

O cidadão:

— Não programei o alarme para disparar quando ele quis.

O sabatinista de gravata azul:

— O cidadão assegura que o telefone é culpado pelo atraso.

O cidadão:

— Fiquei com medo de perder a hora.

O sabatinista de gravata marrom:

— O cidadão assevera que o telefone é mesmo culpado pelo atraso.

O cidadão:

— Para compensar o atraso, pedi para sair mais tarde.

O sabatinista da gravata vermelha:

— O cidadão exigiu o direito da compensação pelo atraso.

O cidadão:

— Me ofereci para trabalhar no sábado.

O sabatinista de gravata amarela:

— Ao começar com pronome oblíquo o cidadão ofende-nos.

O cidadão:

— Me ofereci mesmo, senhor.

O sabatinista de gravata verde:

— O cidadão insiste em ignorar o regimento da Língua.

O cidadão:

— Aperfeiçoo o regramento da colocação pronominal.

O sabatinista de gravata borboleta:

— O cidadão avacalha o patrimônio de Camões.

O cidadão:

— Camões deu o verso: “me fez que seus efeitos escrevesse”.

O sabatinista de gravata cinza:

— O cidadão não ignora o enjambement com pronome exposto?

O cidadão:

— Para que haja conexão com o dito anterior: acordei às quatro!

O sabatinista da gravata vermelha:

— Quebro o maldito telefone com o martelo que é meu!

O cidadão:

— Data vênia, sei da próclise por encadeamento, eis que lhes dou a quadra camoniana: “Enquanto quis Fortuna que tivesse / esperança de algum contentamento, / o gosto de um suave pensamento / me fez que seus efeitos escrevesse.”

Ao entregar outro telefone ao cidadão, Sua Excelência:

— Como notável expressão da intransigente amizade desta Casa, declaro encerrada a presente sessão solene deste justíssimo processo de admissão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de abril de 2026.


domingo, 26 de abril de 2026

O demônio do lampião

 

O demônio do lampião

 

Vim com a alma que estava no corpo. Para evitar que imbecil viesse me falar o que nem ele quer ouvir, vesti uma camiseta branca. Com a Mafalda dizendo: “O problema da grande família humana é que todos querem ser o pai”.

Ou o sujeito é analfabeto ou é um filho problemático. Ele se iluminou com aqueles olhinhos me sorrindo:

— Mamãe, me permita uma palavrinha...

Se um cão se revelaria, foi um chihuahua que abanou o rabinho.

E o balanço do rabicho acertou a cadência, falando a mim. Logo a mim que não tinha para onde correr, já que estava na fila e na fila teria de permanecer, por compromisso cívico.

Não ria de mim pelo que eu vou lhe contar.

Foi da boca da própria pessoa que eu ouvi que ela era a mulher que ouviu que o mundo podia ser um lugar gostoso para se viver.

Ela disse que um andarilho tinha uma história que a faria rir. Daí ele disse que a gente pode ser feliz sem acabrunhamentos. Desde que se faça o possível para não ficar exposto, o tempo todo, à alegria nem às chacotas.

Sim, foi-lhe dito que a alegria é uma arma poderosa — deixa a gente se sentindo leve quando a alegria do outro não machuca.

Não vou lhe ferir o ouvido caso queira ir em frente, só que o esforço pra rir será recompensado. E essa promessa que fizeram a mim, eu a repasso a você.

Por gentileza, confie em mim — disse o mendigo à mulher —, agora pense na pessoa que dorme de janela aberta. Ela não dá motivos para fazerem vídeos. Nem quando são comprobatórios de que a felicidade sem fim retrata alguém cujo comportamento é esquizoide.

Upa-lelê!

Só que o maluco não sou eu.

Eu sei que, usada sem moderação, a alegria que fere vira pedrada. Essa pedra lhe acertará a testa quando estiver tirando uma pestana ou assustará quando o espelho for feito em cacos.

Quando a alegria vira um problema, é preciso encontrar a piada que faça rir sem necessidade de explicações.

Foi aí que a mulher parou de sorrir. Olhou-me nos olhos e falou que o andarilho que vendia mel disse o que tinha pra contar.

Ele ainda disse que o causo era pra parecer verdadeiro. Tinha que passar uma verdade que tivesse a força de um pito. Quando precisam tomar bronca, adultos têm que ser sacudidos.

E a mulher disse que o cara chapado de mel contou direitinho...

Só que ele não disse em que cidade aconteceu. Se foi no meio do mato ou na beira da piscina. O sentido muda quando se tem um casal comendo pizza ou há uma família indo pro litoral.

Ô historinha cheia de furos! — eis você, ressabiado comigo e com a crônica. Sem chalaça, ambos lhe damos razão. Sigamos.

A mulher tinha que pular para os finalmentes. Daí que sorri, já com vontade de ir cuidar da vida. E você me interpela:

— O que a historieta dizia?

Era isso: um andarilho achou um lampião. Aberto o registro, em vez de gás pra manga, a luz não se fez. E no ar, cresceu uma sombra. E a fumaça tinha um cheiro doce, de chocolate. O fantasma flutuava. Como não roubou nem comprou, já que o caminho o fez ser o novo dono, ele não duvidou: tinha três desejos pra fazer à aparição.

Como tinha a sensação de que era senhor de um demônio do bem, o homem matutava. E o seu primeiro pedido fora aceito: ele perdeu o medo de falar em público.

Temendo virar uma besta ridícula que nem sabe como controlar a matraca, o segundo pedido veio socorrê-lo: ele não terá dificuldade de posar de gente segura que domina o brilho da lucidez.

Desaparecido o pânico pela verborragia, ele nem precisou formular o pedido derradeiro: na sua gargalhada, reluziam todos os dentes.

Agora, chegamos. Sem lhe cobrar um sorriso, digo que a tal mulher me falou que abriu os olhos e, dando com a ponta do dedo no relógio, ela viu que segurou a fila só por cinco segundos.

Eis a belezura desta história: saindo da cabine indevassável com a leveza de um sorrisão, apenas os mesários que apostaram em todas as possibilidades acertariam em quem foi que ela votou.

Sem chacota! Não cabe a mim dizer se o eleito do seu coração foi o mendigo, o homem do mel ou o demônio do andarilho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de abril de 2026.


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Melhor um textão que bancar idiota

 

Melhor um textão que bancar idiota

 

Uma pessoa que nem eu sabe que é preciso de coragem para dizer que estão escondendo a verdade pra gente. Mas eu vim falar!

Pois é vendo que se aprende a amarrar o cadarço dos sapatos. É vendo que se aprende a escovar os dentes. Também é vendo que se aprende a dormir sentado. Já cochilar em pé, isso se aprende sozinho.

Copiar quem sabe não tem nada de admirável. Ganha-se tempo. E, sem notar que a vida é insatisfatória, vai-se vivendo.

Juízo, porque o ônibus acaba de virar a esquina, não invente de sair correndo com tênis desamarrado. Para não ser chamado de bobo, não veja problema onde não existe: em tênis sem cadarço, basta enfiar os pés. E busão atrasado também pega gente atrasada.

Você chegou aqui. Então, já percebeu que posso ter argumentos e sei organizá-los para dizer dos meus sentimentos.

Como eu compartilho apenas o que acho importante, não entendo por que tem gente que reclama que posto textão. Se tenho tanta coisa para dizer, direi tudo sem abrir mão de usar as palavras necessárias.

Ontem, estive numa farmácia. Precisava de B12. Mas tem que ser a versão “metilcobalamina”. A médica disse que não era para comprar a versão “cobalamina”, pois o metabolismo é diferente. Acreditei.

Então, lá na minha vez de ser atendido, continuei atento.

O homem que olhava o celular fez que ignorou a grávida que trazia na mão um pacote de fraldas. Era direito dele de ocupar-se com a sua leitura.

Eu sei que a cestinha cheia de vitaminas e whey de baunilha não ficaria mais leve, só não precisava sorrir daquele jeito, porque o sorriso que ele fez sinalizou: nesta fila, ninguém terá a preferência.

É claro que gentileza não implica em fazer-se de palhaço, porque a decisão de comportar-se assim ou assado não é dever, é direito.

Nestas horas, converso comigo mesmo. E eu digo pro gato que me olha achando que vou dar petisco: prudência, sem mais ninguém para servir de exemplo, tomo a iniciativa de agir como sempre: quero sentir alegrias. Sabe aquelas alegrias que põem a gente no lugar da grávida que segura um pacote de fraldas? Preciso dessa alegria.

Dá para fazer do mundo um lugar mais luminoso mesmo sem ficar dizendo amém a todo instante, mas não tem janela aberta que impeça a chuva de molhar o chão do quarto.

Se está molhado, enxugue-se o chão. Depois do tombaço, repare: tem luz acesa com sol brilhando... Se lâmpada é desperdício, apague-se. Se o banho vai durar dez minutos, não pense na represa por dez minutos, banhe-se!

Porém, olhe o alerta! Não seja enganado: você paga a conta da luz que o governo cobra caro!

E a gente tem que compartilhar as nossas boas ações, assim quem é da turma de quem não cumprimenta quem chega sem cumprimentar vai ficar encabulada. Daí a gente olha o celular. Entendeu?

Agora, se a pessoa começa a falar o que pensa mesmo sem pedir licença, é preciso pegar o telefone. Se for o caso de falar mais alto, que se fale! Se é pra gritar, a gente grita até a babaca falar baixo.

Só não tem graça acreditar que a pessoa que não enruga a testa é paciente. Quando ela não responde a ofensas, mais do que palerma, ela é complacente. Deve achar que o seu coração pulsa por amor.

Quem ama sente o quanto a instabilidade que o amor provoca. Só que manter no tornozelo uma correntinha de prata não equivale a exibir coleira de ouro no pescoço.

Daí eu olho a minha cara no espelho. Estou de testa franzida, sim. E tenho que falar o que penso, mesmo que só eu esteja ouvindo.

Daí eu penso: sensatez, quando a franja no olho incomoda, ela seja aparada. Se as entradas vão ficando indisfarçáveis, raspe-se a cabeça. Esta pessoa que usa barbeador elétrico não está dispensada de saber como não se cortar com uma lâmina de barbear. Raspo-me.

Já de cabeça raspada, sentei a bunda diante da tevê.

Estavam dizendo que três ou mais pessoas que se juntarem para praticar um crime formarão uma quadrilha. Disseram qual o número do artigo e tal, só que não gravei. Estava pensando. Corri descobrir onde a internet costuma esconder esse tipo de informação. Porque civismo tem que ser prático, achei e copiei: Artigo 288.

Se vim aqui e postei o que estava pensando, cometi crime?

Não sei se excesso de vitamina faz mal e não disse para magoar a moça. A grávida é que devia ter exigido para passar na frente. Daí não deixaria ela passar, pois é meu direito garantir o meu lugar!

A minha cabeça começou a arder. Fui ver o que era. A gilete cortou bem no cocuruto. Joguei fora a maldita!

Há quem cuspa na mão pra que a saliva ajude a limpar o corte, mas isso não serve se estiver chupando bala. Eu chupava bala de morango. Então, pra não acabar com a careca melada, dispensei a saliva.

Como a água estava gelada, os pelos da nuca arrepiaram. Bravo comigo por ter me cortado, resolvi terminar esta postagem com a frieza do meu intelecto afiando a frase para soar cirúrgica a mensagem que você vai ter que pensar para não perder o significado oculto:

Só babaca entra em banheira cheia de leite longa vida.

Entendeu, né? Está bem na nossa cara: eles não param de falar só pra gente não acreditar no que eles não estão dizendo.

Que bom que não precisei desenhar que somos do bem!

Agora: trate de copiar e compartilhar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de abril de 2026.

terça-feira, 21 de abril de 2026

O time dos sonhos

 

O time dos sonhos

 

Sábado passado houve temporal. Nuvens escuras fizeram o cerco. Raios sobre raios retumbavam: as portas do inferno serão o aguaceiro tremendo. Choveu granizo, e isso durou uns dez minutos.

O sol voltou. O cheiro da chuva desapareceu. As pessoas voltaram às ruas. As maritacas eram o sinal de que o fim do mundo ficou para a próxima.

O problema é que, de vez em quando, pedras e telhas têm um papo simplório: pro chão coberto de gelo virar vídeos nas mãos de quem se extasia com eventos naturais, é preciso que, deitado na cama, a noite seja vista como um monstro de milhões de olhinhos a tremeluzir.

— Lindo, mas dispendioso — asseverou-se o prejudicado.

A carteira foi aberta. O dinheiro dava para duas cervejas. Convinha que fosse bebê-las onde houvesse gente bem-relacionada. Precisava de indicação de quem é bom como reparador de telhado.

— Albertino. Porque ele vai pedindo o material já prevendo o quanto ainda vai precisar pro serviço ficar pronto.

— Claro. O Albertino é econômico.

— E o telhado vai ficar tinindo em quinze dias.

— No máximo!

— Então, sabendo que o gasto vai ser menor, você não precisa ficar encabulado de querer nos pagar outra cerveja.

— A gente vai beber com você, porque agora todo mundo sabe que não há malícia alguma da sua parte.

O camarada pagou. E foi bebendo tanto que a sua carteira tomou a iniciativa de ser pragmática: o cofre do banco se sujeitou a arreganhar-se com o “abre-te, sésamo” dito em língua de pau d’água.

Por volta das sete e meia do dia seguinte, bateram palmas.

— Meu amigo, vim fazer a medição do telhado.

A confirmar que era mesmo o homem certo para fazer o trabalho, o Albertino nem fez mesuras com o boné.

Ele subiu. Olhou as telhas esburacadas.

— Você reparou que nem tirei a trena do bolso?

O camarada nem respondeu.

— Você está com um problemão. Tem cupim na estrutura. As vigas vão ter de ser trocadas. Os caibros também. As ripas já deviam de ter sido queimadas.

Albertino coçou a cabeça. O boné fez o bailado que, sem papas na língua, o coração traduziu como inevitável o “abre-te, sésamo”.

— Preciso que você faça o serviço, Albertino.

E os sete dias viraram quinze. E a quinzena tornou-se um mês. E a turma do bar assegurava que o Albertino não desperdiçava material e sempre fazia o melhor.

— Não tem obra do Albertino que mereça reclamação.

— Se o Albertino fosse problemático, ele estaria aqui, bebendo com a gente. Mas não! Ele sabe das suas prioridades.

Foi aí que aquela foto foi mostrada: em pé, atrás das três crianças agachadas, Albertino abraçava uma mulher.

— Meu amigo, não pense que eu falar com sinceridade é papo de bêbado. O Albertino é o marido que minha irmã nem podia sonhar que o céu colocaria no caminho dela. E eu, meu bom amigo, nunca tive de ficar chateado com a Doralice, porque ela nunca mais teve de me negar uma cervejinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de abril de 2026.

domingo, 19 de abril de 2026

Bala certeira

 

Bala certeira

 

Pediram a minha opinião sobre o que a Maricota teria feito. Falaram que ela teria sido vista conversando com um pastor. Criticavam-na pelo despudorado flerte com o Esdras, sobrinho do pastor Samuel. Juravam que, à vista do povo, na fila de pesar banana e batata, a cinquentona estava aos muxoxos com um rapazote de trinta anos.

Não faço questão de saber o que a tia Maricota faz com a banana que ela compra, com quem ela toma sopa de batata, não ligo que me contem, bem como pouco me importo com quem vem me contar que a minha tia não comprou nem banana nem batata.

Não pergunto o que a minha tia Maricota comprou, teria comprado ou desejaria que lhe vendessem sem assuntarem por quais razões ela nutria desejos pelo que paga em dinheiro quando adquire o que tantos queriam também.

Meus dedos pensaram por mim...

Papai me ensinou que trapos são úteis quando formam uma colcha, e jogá-los fora seria burrice. Tem também que a beleza pode vir de uns pedacinhos de pano já surrados, já naquele estado bom para cobrir um cão quando faz frio.

Mamãe, por sua vez, me educou para a discrição. É vulgar espalhar que a colcha não estaria em cima da cama sem as minhas mãos. Ter vídeo com o Bidu dormindo aquecido é só pra receber joinhas.

E eu também não deveria ter dito que a Maricota nunca postou fotos de torta de banana.

Dizem que certos joinhas têm importância. Asseguram que somos responsáveis pela pouca repercussão do que deixamos de aprovar. A sociedade precisa saber o que aprovamos. A curtida é necessária para que mais gente saiba que não nos envergonha clicar positivamente.

Houve gente que fez graça.

Sugeriu-se que eu não fui convidado para a torta de banana na casa da minha tia. Jurou-se que nem era eu o fotógrafo.

Se a pessoa não aparece em foto alguma, a lógica tem que apontar o óbvio. Sem constrangimento: gente que entra em foto sem revelar a sua presença só pode ser vampiro.

Em minha defesa, comentei numa postagem:

— Vampiro não tira foto porque duvidariam que o seu belo rostinho sequer foi manipulado por quaisquer aplicativos.

Uma vez que ficou descartada a conjectura de que eu nem saiba como usar muitos dos recursos disponíveis no meu celular, alguém não deixou passar:

Quando o vampiro não morre com estaca cravada no coração, uma bala de prata dá jeito no monstro.

Maricota postou:

Eclesiástico 7, 19: Humilha profundamente o teu espírito: porque a vingança da carne do ímpio, será o fogo e o bicho.

Veio o corretivo: Nem para citar a Bíblia direito! Todo mundo sabe que o versículo exato é: Humilhe-se profundamente, porque o castigo do injusto é fogo e vermes.

Veio o corretivo do corretivo: Se é pra corrigir, a verdade tem que corrigir. E a versão certa é: Humilha profundamente o teu espírito, pois o fogo e o verme são o castigo da carne do ímpio.

Como comentário a cada mensagem, tia Maricota colocou a foto de uma fatia da sua torta de banana.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de abril de 2026.


quinta-feira, 16 de abril de 2026

A frase do dia

 

A frase do dia

 

Até a pestana da tarde, o dia não trouxe novidade alguma. Quando acordei para um sanduba de salame, a TV ainda estava ligada.

Falavam da prisão de um motorista.

Supostamente, ele trafegava sem cinto de segurança. E pelo código de trânsito do lugar, o cidadão deveria estar protegido de impactos.

Passei a mastigar com gosto.

Ao que parece, o detido usava cinto. Foi a lâmpada da frente que o delatou: o fato de um veículo dobrar à direita sem a devida sinalização consta das violações do código vigente naquelas plagas.

Levantou-se a primeira questão:

— Uma vez determinada a detenção, por que o guarda não aplicou tão somente a multa?

A minha apatia enfiou-se goela abaixo, deixando um vãozinho pros meus perdigotos comentaristas.

Uma segunda dúvida surgiu:

— Que poder tem um guardinha para mandar para o xilindró quem apenas jogou fora a embalagem de chiclete?

Aumentei o volume.

Disse a comentarista:

— As informações não batem. Segundo um ciclista, o carro quebrou à esquerda quando o sinal era amarelo. Essa guinada irregular fez com que o rapaz caísse e ralasse as duas rótulas.

Falou uma terceira analista:

— Não se usa mais “rótula”. Hoje a gente diz “patela”.

O outro comentarista voltou à carga:

— Deixe-me entender melhor a situação. Pelo que você contou, o relato desta suposta vítima já a condena. Ela ralou as ‘patelas’, porque pedalava sem joelheira. Eu entendi direito? Ele se autoacusou?

A primeira comentarista retomou:

— Ninguém aqui é leviano pra tirar ilações sobre o uso de joelheira. É fundamental averiguar se o código de trânsito vigente estabelece a obrigatoriedade desse item de segurança.

O analista destacou:

— É preciso averiguar se o ciclista está falando a verdade.

A segunda comentarista disse:

— Espera-se que as autoridades exijam laudo técnico que mostre onde o corpo apresenta ferimento. E qual é a causa provável.

Para o primeiro comentarista, ficou patente:

— Se o infrator converteu à direita sem dar o alerta de conversão, então, o automóvel não podia ter entrado na esquerda. Acho que nem a física quântica conceberia tal aberração.

Riram. E a escalada escalafobética desacelerou-se:

— Se violaram o sinal ou jogaram o lixo pela janela...

— Ou se um rapaz quase foi atropelado...

— Temos que dizer ao público: estamos longe da verdade.

Falando a quilômetros do incidente, um repórter disse que, segundo as suas apurações, o nome do agente será mantido em sigilo.

— Então, ninguém sabe se o nome do oficial é Belo?

A transmissão caiu.

Especularam que o Guarda Belo seria da Turma do Manda-Chuva. Falou-se que o nome do agente era o mesmo de personagem do Urso do Cabelo Duro.

Urso do Cabelo Duro!

E a frase do dia foi dita sem falsa melancolia:

“Os 16 episódios duraram a minha infância inteira.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de abril de 2026.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Nua e crua

 

Nua e crua

 

Você indo pela calçada quando mais à frente vai caminhando uma figura cujo jeitão lembra muito um amigo seu. Sem pensar, você chama pelo nome. Na dela, a pessoa vai indo.

Como o barulho está alto, o sujeito não escutou. Só por curiosidade, ele teria virado.

Você grita o nome. Espera. A pessoa não olha.

Não é possível que aquele velho amigo tenha ficado surdo desde a última vez que se falaram. Está fazendo o quê... Duas décadas?

De novo, você diz o nome. Finalmente, ele se vira.

Teria sido melhor se continuasse indo em frente.

Você para, olha pra trás. Quem estaria fazendo tanto estardalhaço? Não tem ninguém. Agindo feito criança, só você.

Seu amigo fez plástica. E daí?

Descobrir que o cara que fez a primeira comunhão junto com você foi capaz de uma peça dessas... Que o amigo fez mudanças no rosto sem nem mandar pelo zap uma foto com a nova cara...

Ele poderia ter pedido o seu número.

Como fica a transparência entre pessoas que são amigas?

E agora isso! Dar com outra pessoa sorrindo em quem você jamais iria pensar que pudesse ter um sorrisinho assim esquisito.

Quanta deselegância. Quanta falta de apreço.

Só que você também sorriu. Amarelo, mas sorriu.

Pensando bem, coloque-se no lugar desse que vai andando como se nada de anormal estivesse acontecendo.

O indivíduo mais indicado a prestar conta de ter torrado uma fortuna na transformação radical da própria aparência é ele.

Viver não dá folga a quem se esforça?

Você sabe que não é fácil acordar cedo todo santo dia.

Você paga caro pelo pão que nem o diabo amassa para você.

Isso de negar a confiança de mandar o zap com a cara nova, chega a ser um ato de traição. Depois a espuma do cão é sua.

Você vai dormir com a barriga roncando, e ronca também.

Você sabe que nem todo mundo está pronto para encarar o espelho quando mais ninguém está olhando.

Deixar as cortinas fechadas não é o mesmo que nem telefonar. E o sujeito nem para enviar o link da vaquinha.

Você não quer causar constrangimentos.

Você precisa da luz do sol.

As dores do outro? A sua mão arma um soquinho...

Você quer ser a janela.

Você, caramba, é essa janela!

Como chave-mestra que escancara portas e portões, você bate nos ombros desse velho amigo com a carne da cara toda esticadona.

Ele não te reconhece.

Com uma cara que é só sorriso, você:

— Tem horas?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de abril de 2026.

domingo, 12 de abril de 2026

O doberman e o ET

 

O doberman e o ET

 

Um homem tomou lugar na fila, falava ao celular. O reconhecimento da voz fez com que outro homem, o que estava mais à frente, já à boca do caixa, se virasse para cumprimentá-lo.

Já que, no supermercado, estão em casa:

“Tá frio. Tá gostoso esse frio. Só que não é como antigamente. Isso não é, porque na década de setenta geava desde final de abril. Agora a geada malemá cai em julho. E olhe lá. E tem gente que não gosta do tempinho bom pra tomar vinho quente. E comer pinhão. Isso, pinhão é bão de todo jeito. É bem bão. Deixa eu ir, que tô atrasado. Não atrasa pra feijoada, hein? Eu sempre chego antes. Então, tá. Inté, amigo. Inté, prezado. Lembrança lá em casa. Abração.”

Com o cronista atrás na fila, o sujeito do celular virou-se:

— Nossa! Nem te reconheci.

Só depois de bater no meu braço com o telefone é que tomei pé da cena: o Alcebíades, o cara que já foi, e o Guilherme eram as pessoas que conversavam a um metro e meio de mim.

O cronista os conhece desde o ensino fundamental.

Alcebíades sempre precisa de dinheiro. Ele não se contenta que os matos estejam capinados, ele vende enxadas. Quando o capilé entra, ele urina no chafariz. Há quem diga que o viu roubando as moedas, só para jogar no caça-níqueis do boteco atrás da igreja.

Guilherme é o oposto: nunca deixa governantes falando sozinhos. Como trabalha com comunicação, ele lutou pela instalação do telão na frente da câmara. E jura que nunca será candidato.

— Se minha foto aparecer na urna, é alucinação de bêbado!

Guilherme vê que o cronista tem pinhão na cestinha.

— Eu como pinhão só no inverno.

Como peso de musculação, o cronista brinca com o saco.

— Graças a Deus que o inverno não dura o ano inteiro. Vou falar a verdade. Não sei me controlar quando como pinhão.

— Caramba, cara. Se é pra confessar: eu adoro pinhão.

Já em casa, o cronista ri. Ele odeia pinhão. Trouxe logo seis quilos! A quem pertencerá aquele doberman que salta a cada pinhão que lhe é atirado?

Que a natureza tenha o seu curso, isso não importa ao Guilherme. Toda quarta-feira ele vai comer feijoada. Sempre com o parceiro.

Guilherme e Alcebíades têm esse ritual: jogar porrinha depois que palitam os dentes.

Tomando caipirinha, Guilherme espera. Como nunca foi de ter um relógio com a hora certa, aqueles quinze minutos sempre o autorizam a reclamar de todo mundo.

Na juventude, ele estudou que as uvas viram vinho quando pisadas. Para quem não ganha a vida produzindo vinho, tanto faz que haja areia assoreando parreiras. Na ponta do lápis, importante é o pinhão.

Mais cedo, a caminho da igreja, Alcebíades deu com o cronista:

— Os ventos vão e vêm há milhões de anos. Só que a gente precisa andar a pé. Faz bem você que nem carro tem.

Com as duas patas no chão, este ET rói o osso:

— Com mil truques na cachola, meu chapa, eu voo pela Via-Láctea. E cão algum escaparia de ser abduzido. Aliás, cadê o Brutus?

Pessoa que acende vela antes da chuva, Alcebíades não foi comer feijoada com o amigo. E rezou nove ave-marias e dez pais-nossos.

Ajoelhado, de olhos no Crucificado, Alcebíades assevera:

— É escandaloso, Senhor! É verdadeiramente escandaloso a tevê ter mostrado aquele pinguinzinho zanzando em Cananeia.

Com o doberman babando, o padre fecha a nave-mãe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de abril de 2026.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Imitação perfeita

 

Imitação perfeita

 

No café, enfia a bolacha na xícara. Molinha, a bolacha não machuca a gengiva. A mistura tem mais leite. Cafeína excita os nervos. Daí que não dorme. E tem aula cedinho. É compromisso a que não pode faltar. Tem que pensar no futuro. Quando a gente vê, está velha. Jovem sem tempo pra velhice acaba idoso.

— Que palavra estúpida — idoso. E dizer isso é que nem cortar o dedo.

Ela não vai virar idosa com tatuagens. Será velha com cicatrizes, como a avó.

Ela tem orgulho dela.

A sua avó nasceu bebê. Puxou o rabo do gato. Enfiou a colher no ventilador. Caiu da bicicleta que nem tinha mais as rodinhas. Tomou vacina que nem chorou. Foi estudar no colégio em que a mãe estudou. Namorou quem ela queria. Fez a faculdade que o pai falou para não fazer. Arrumou o emprego que pagava bem. Xingou Getúlio. Votou no Jânio. Marchou pela família. Engravidou. Casou. Pediu demissão para montar a própria banca. Não se arrepende do que gastou com a lua de mel. Os gêmeos ela deixou com a mãe. O pai ralhou. Depois de um mês na Europa, ela voltou no dia do AI-5. Trouxe camisetas e vidrinho de perfume. A boina que ela comprou em Barcelona era apenas uma provocação.

— Esta boina não tem a sua cara, papai?

O pai dela posou para a foto rinhando os dentes. Só que ele não a tirou nunca mais. E foi com a boina numa das mãos que um dia o seu velho chegou com um retrato feito a carvão por um bicho-grilo da Praça da Sé.

A filha viu a assinatura. O pai pagou dez vezes mais o valor que o moço pediu. Era um recado. Como era a advogada do desenhista, pai e filha se abraçaram. O pai pediu que fosse trabalhar numa firma que cuidasse de grilagem de terras. Ela chorou.

Na parede da sala onde bate sol, o carvão nunca descorou.

A mãe e o pai da avó morreram velhinhos. Ela tinha noventa e três. Ele passou dos cem. Nunca ninguém falou que eles eram idosos.

— Tem dia que a mamãe pede pra vovó não abusar.

E a avó vai na piscina. Faz caminhada mesmo no dia que vai nadar. Anda até o sol ficar forte. E volta a pé pra casa. Quando chove ela não sai. Fica andando na esteira. E tem dia que ela dorme na banheira. Ela diz que é bom pra descansar o esqueleto.

Na hora do almoço, a avó inventou de trazer um cachorrinho.

A coisinha mais fofa. Uma bolinha de pelos. Com o peso quase igual da mochila com os cadernos. Um bichinho com a linguinha que não dá nojo de ser lambido na boca.

Só que a sua mãe disse que não era pra deixar. A avó sorriu. Então, o cachorrinho lambia mesmo com a mãe dela olhando que nem quando a gente enfia o dedo no nariz.

Só que daí a sua avó disse bem séria:

— Manú, nada de dar bolacha pro Chubaca.

Chubaca! Que nome mais feio.

Ela mudou. Ele tem cara de Xuxu. A gente conhece a pessoa pelo nome. E tem o coração. Quando o coração fala, a gente escuta. E tem que Xuxu é muito mais bonito. Então, agora o nome dele é Xuxu.

E a avó quis saber se era com cê agá ou com xis. Vê se pode! Ela perguntou se era por causa da Xuxa.

Com as mãozinhas espalmadas e o pezinho tamborilando:

— Que Xuxa?


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de abril de 2026.

terça-feira, 7 de abril de 2026

A insânia da vez

 

A insânia da vez

 

Não foi por sugestão de um espírito demoníaco que, lendo crônica alheia, tive a ideia de usar o tal botão da liberdade, o foda-se.

Tão estimulante quanto café, encarei o mundo.

As pessoas usam o botãozinho nas situações mais corriqueiras. Tal utilidade universal é um recurso tão bom que a mão treme menos.

Nesta época, em que tudo se estabelece como embate entre a torta de palmito e a musse de limão, o pastelão é o resolutor universal de adversidades.

Ajustando o soco-inglês, diz a sensata sensatez:

— Tá na cara!

Desde que Buda era Gautama, passa pela mente da boa gente que chupa picolé que a vida seria menos terrível se os neurônios inflassem o bote salva-vidas quando brota um furo na cachola.

Como não dá para impedir que a água leve para o fundo o que não flutua, convém aprender a pensar.

Às pessoas que vestem colete salva-vidas o remador diz que suas preces trouxeram o bote para quatro braçadas da margem.

— Este rio não tem jacarés nem crocodilos.

Ninguém pulou na água.

— Não tenham medo. Estas águas estão livres de piranhas.

Um homem saltou. Ocupado em pegar o boné que saiu da cabeça, nadou até recuperá-lo. Já em terra, ele acenou.

Uma mulher abraçou a filha. A menina disse que tinha medo. A mãe disse que tudo ficaria bem. O remador as empurrou. Porque souberam nadar separadamente, elas chegaram à margem.

Sem se admirar da determinação de ambas, o rapaz que não tirava as mãos dos fones disse que não sabia o tanto que seus braços iriam aguentar. Ele nunca carregou um saco de arroz.

— Cara, eu peso mais de cem quilos.

E o bote estava indo pra mais perto da beira.

— A água nem vai chegar no queixo.

Um senhor, cuja perda muscular indica ter quase cem anos, acende um cigarrinho de palha. Traga uma, duas vezes. Tosse. Traga outra e mais outra. E tosse. Este senhorzinho fala devagar:

— Tá tudo bem. Jesus sabe que o Pai não vai ter problema comigo. Quando eu passar pelos portões, vou jogar xadrez, vou lavar as minhas cuecas e juro que vou fumar bem longe de quem não suporta quem dá um tapinha de boa.

Desde que ganhou o primeiro maço de cigarros no tiro ao alvo num parque de diversões, quando ele ia fazer quatorze anos, o bom homem fala devagarinho:

— Nunca filei cigarro. Nunca escarrei na cara de ninguém. Nunca deixei de fumar um dia sequer.

À porta do Paraíso, São Pedro não hesita. Assim que ouve o relato do recém-afogado, o santo não se deixa enrolar.

O Porteiro Celestial pensou:

O desgraçado não viu as nuvens vindo? Como é que ele não notou que o azul passou a cinzento?

Com cara de quem vive no lado oculto da lua, de fala doce, aquela fala mansinha até demais, o tal fumante:

— E aí, meu chapa, vai ficar nessa moleza?

Fedendo na mente a palha do bote, o portador da chave-mestra:

— Foda-se!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de abril de 2026.

domingo, 5 de abril de 2026

Encruzilhada

 

Encruzilhada

 

Parado no caminho, sem nenhuma pedra que ajude a lembrá-lo que passara por ali, o homem pensou:

— Devo ter passado por aqui.

Ele coça a cabeça. Há uma montanha mais adiante.

— Irei até lá.

Do sopé ao topo, não faz cálculo algum. Subirá. Leve o tempo que for preciso para chegar lá em cima.

— Lá do alto, vou ver pra onde o caminho vai.

Sem água para beber e sem uma caverna onde deitar-se, o homem anda na direção do monte.

— Só devo ir em frente.

O homem está determinado a chegar ao topo. Sequer lhe ocorre a ideia de que antes tenha percorrido o trecho.

De novo, ele para. Não que tenha pensado na liberdade de escolher o momento certo para esta parada. Tem a boca seca, a cabeça quente e falta-lhe um cantil.

— Não vou achar água cavando com as unhas.

Há de haver algum graveto resistente. Com um pau que lhe sirva de ponteiro, cavaria até brotar o olho d’água.

Assim como parou, assim retomou o passo.

— Não me acontecerá nada. Eu sei. Eu acredito. Se tivesse que me acontecer algum ataque, já teria morrido. Eu confio. Eu aprendo a cada vez que não penso que poderia ter desistido quando era noite.

Assim que se lembra, é noite.

— Parece a réplica do caminho. A noite quer que eu me perca. Ali a montanha. Mais para cá, a curva é pra direita. Depois da montanha, o caminho serpenteia para a esquerda.

Do chão lá do pico dará pra ver: há uma água parada.

— Se reconhecesse a água, seria um lugar perigoso.

Ele falou:

— Perigoso sou eu. Vou arrancá-las, escamas da noite.

O homem gritou:

— Tem que responder quando te ameaçam.

A luz do sol atacou seus olhos. Tão de repente, caiu.

— Não abri nenhum buraco.

Ele quis sair do caminho para fazer um xis com os pés.

— Esta pedra tem que servir. Se depois eu voltar, farei mais um xis.

Mais cedo, ele veio por aqui.

— Sem buraco não há água nem anjo escamoso. Eu decidi que iria marcar a pedra onde quis apoiar minha cabeça.

Ele disse:

— Se mais tarde eu me deitar, vou esperar que as estrelas apontem uma flecha. E o inseto no âmbar diz:

— Não há pegadas que mostrem: vim pra cá.


Rodrigues da Silveira 

Ibiúna, dia 05 de abril de 2026.