sexta-feira, 19 de junho de 2015



o primeiro adeus é sempre o último
não importa que o bêbado grite por um abraço

adeus nenhum dura uma garrafa
pouco importa o beijo prolongado

se diz adeus, diz-se uma vez

do inverno ao verão tal plenitude
todo adeus é sempre único

1990



segunda-feira, 15 de junho de 2015



fim

só o sol
sob a lua
luz o sim

1990



(In: a rosa barroca, 2014)

sábado, 13 de junho de 2015




o ator

vê o grito preso naquele olhar
e reconhece o guizo

ouve num gesto o que o prende
e dissimula o azul

vive para dominar os nervos
entusiasticamente

e num previsível jogo de cena
suicida-se

1991



(In: a rosa barroca, 2014)

sexta-feira, 12 de junho de 2015




exílio

suspenso em minha síntese
surpreendo o silêncio
revestindo no visto
a egocêntrica ausência

1987


 (In: a rosa barroca, 2014)


álibi

o vazio
entalhando-se prata
ao assentar por reflexo
outro fio de espaço
a madeira
revelando-se exata
nos traços da cadeira
ao assuntar no disperso
uma sombra

1989


 (In: a rosa barroca, 2014)

terça-feira, 9 de junho de 2015



lógica

o querer
aprender a jogar
pra saber perder

o saber
aprender a perder
pra poder ganhar

o poder
aprender a ganhar
pra não querer jogar

1989



(In: a rosa barroca, 2014)

terça-feira, 2 de junho de 2015

sonâmbulo

visto os meus ossos
ainda lavados de sono
visto-os ao conforme de mim

é para melhor despachar tantas urgências
de ciências cotadas em tantos departamentos

depois não reconheço a dor que me firma
nada daquilo confirma o carimbo do indispensável

e seguindo ao meu modo o protocolo
pago os impostos ao recolhimento

despido do dia tão bem desempenhado
penso o corpo em que padeço
pendurando-me nos sonhos

(rodrigues da silveira, 2015)