Atendendo
a pedidos
Para não me aborrecer, voltarei para
casa.
Oferecem que eu passe na frente porque os
meus cabelos brancos não disfarçam a condição, a de ter virado pessoa de idade provecta
à gente trintona que se orgulha do reconhecimento gentil de estabelecer-me como
mais um velho coroca a atravancar-lhe o caminho.
― A minha lentidão não é da conta de
ninguém.
Em ônibus lotado, insistem que não é opróbrio
algum tomar assento em lugar oferecido, uma vez que um ser humano envelhecido, e
capaz de bazofiar, não tem que provar a resistência muscular que diz ter.
― Deus! Se eu tenho que caminhar do
ponto até o sofá, os pulmões me pouparão de perrengues nos cem metros.
Como tem gente que pontifica que o mundo
é palco a ser ocupado diuturnamente, ou seja, só artista amador reclama folga
no instante de mais brilhar que ser ofuscado, eis que um cotovelo vai abalroar-me
no nariz, um pisão vai acordar-me um calo e o olho na nuca não o esbalda por me
harmonizar bailarino em performance capoeirista.
― Nos embalos de todo dia, travolteio
que é espantoso!
Quiçá fosse interessante que amanhecesse
chovendo, eu ficaria na cama até mais tarde, brincaria que a terra do quintal
chama para pisá-la, que eu gostasse de me sujar, ou nada disso, eu fechasse a
janela, lamentasse que chovia, que a lama do quintal nada tem de medicinal,
terapêutica ou junguiana, eu sujaria meus pés, e, com tanta coisa para fazer,
seria decepcionante a chuva cair, quem sabe eu me apressasse, quisesse andar na
chuva, se ela cair, quiçá fosse o estimulante que me faça apressar, incomode e
eu escape de vez.
― Minha estupidez me faz atenuar o que
seja conflitante.
A inteligência das pessoas é atraente,
não as pessoas inteligentes que optam pela mediocridade de agradar a si mesmas.
― Caraca! Mesmo sem dor de cabeça, não
fico numa boa.
Essa é uma paixão que me perturba:
quando sinto que não preciso sair e saio. Minha resistência é fraca, e saio.
Nada de ficar em casa só porque não está chovendo, porque o boleto que vai
vencer tem que ser pago uma semana antes. Fico apaixonado, me faço a crueldade
de sair sem ser preciso, apenas pro calorão me secar a boca, eu seja punido por
não usar chapéu, boné ou solidéu.
― Putz! A fome aperta quando eu sei que
é meio-dia.
Falam que o pagamento deve ser feito na
saída, marcam os preços do quibe, da esfiha e do espetinho de frango, desmentem
que seja de graça o refrigerante, que as redes sociais querem tumultuar, a
padaria depende do movimento, os empregados precisam trabalhar, o dono da
padaria é um cara muito responsável.
― Cometi a idiotice de falar mal de mim
na minha presença.
Se fizesse sol, não sairia. Se estivesse
chovendo, não sairia. Mas, tirei o pijama, vesti a bermuda, descalcei os
chinelos, calcei tênis, tudo para não me proibir de ficar em casa ou não ter
que decidir o que seja, até emburrar à janela de casa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de setembro de 2024.