quinta-feira, 2 de maio de 2019

Empenho



Empenho

Como a crise anda feia para caramba, com mais de 60 mil homicídios num ano, recomendável é evitar bagunça e evento ridículo. Assim, a festa do cabide que iria oferecer a mendigas e mendigos sofreu cancelamento. Quando soube, ô alegria!, o prédio voltou a dar o bom-dia que a gente bem merece ouvir.
Em razão do guarda-roupa modesto, leitora solidária e leitor compadecido, estou ocupado em doar os cabides que pendurei lá na loja de conhecida minha. Alerto que, como tive mesmo de abrir mão da bicicleta por absoluta falta de potássio no corpo, pois me vi aceito neste grupo dos 13,4 milhões de brasileiras e brasileiros que, súbito, passaram a ter um apreço considerável pelas redes sociais, a retirada é no local. Portanto, corram.
E de onde é que tiro energia para viver? Protegido por meus óculos, encaro a vida de frente. E há um confronto que não se pronuncia. Passo os olhos pelo cenário. Preciso sentir o mais que posso o que o mundo me esconde. A mim nada me fala a sua linguagem dos sinais. Mas, coruja perspicaz, percebo que externar minha ignorância daria a impressão de que avalizo o que me avalia ignorante. Não vou cair no buraco que cavo com minha língua. Prefiro tirar à fortuna o cara ou coroa dos meus fracassos. Mesmo que o medo ou a ansiedade causem tantos estragos, dissimulo outras afetações. Para medrar como quero.
Não pago pela vela que me leva apagado à chama de quem me chama. Querem-me dizimado? Querem-me alquebrado?
Na luta, leio e escrevo para mais bem me apreender.
Escolho os fatos que revelem o homem cujos feitos menos me contradigam. Busco refúgio em mim. Pelo que passei, pelo que tenho passado por aí, reflito sobre o que me reflete. Sem o passivo da descoberta de achar no bucéfalo o bucelário, há que se revelar um desconhecido que veicule o factível.
Jogo com as palavras?
Jogo. Não para superar as contradições, mas, para adensá-las, agudizá-las. Pelo divertido, o lúcido da aposta bem sabe a instrutivo quando, por elas, dou lume ao irritante da máscara. Problematizo, para mascarar o que me faz risível.
Concordo com o escritor Anzanello Carrascoza que propõe: “se você escreve, é porque está ali sentindo sua existência e compartilhando com quem está ao redor”. Existo, e transbordo tal vivacidade que, para a minha mais cívica tristeza, constato que, feito campo de araucárias refratário à presença humana, é uma pena que não posso compartilhar as minhas leituras com nenhum desses presos que estão algemados em viaturas pelo Brasil afora. A Lei de Execução Penal? Ai, ai... As leis...
O sentimento de culpa é a Medusa a me avivar as neuroses. Aprendiz de mil mestres em conflito, desejo mais é viver 30% contingenciado. Ou os cobras da Economia vêm me cobrar o quinhão que tenho para vender ou deitarei na pista principal de Congonhas. Afinal, felicidade tem preço.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de maio de 2019.

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