Falo
ao telefone. O meu amigo e eu deixamos de fora da conversa os pormenores disso
e daquilo que fizemos ontem. Gostamos um do outro. Não nos aporrinhamos. Piadas
surgem sem forçarmos. Rimos. Somos leves. O nosso papo termina sem anunciarmos o
que faremos. Só replicamos: até mais ver.
Como
o telefone toca em seguida, disparo contar-lhe que havia me esquecido de
comentar a decisão de um amigo nosso.
Ele
me disse que iria tirar férias.
Contou
que passará uma semana nas Minas Gerais. Acrescentou que a chácara fica no
interior. Disse um nome de cidade que me soou inventado: Maquiné.
Como
eu queria que a conversa fosse espirituosa, fiz graça. Ele não gostou quando perguntei
se o dono era vampiro. Paciência, eu não tive como me segurar. Além de ficar
num lugar cujo nome é trocadilho com “máquina”, a propriedade era Sagarana.
Para
me fazer gargalhar, o proprietário se chama João. Ele trocou a medicina pela
pecuária. Ele tem vacas, bois. O meu amigo é tinhoso. Deixou o ápice para o fim:
o dono da Sagarana, destes palmos de chão de Maquiné das Minas, esse João que trocou
o consultório pelo pasto, é sua maestria com a palavra que o faz famigerado
como o demo.
― Deixe de disparate! Só porque ele também é diplomata, você não tem que
confundir o João com o Guimarães Rosa.
Tratei
de falar sério. Mostrei-me curioso. Não fui irônico ao afirmar que o tal João
deve ter trocado o estetoscópio por um berrante porque os seus pulmões têm
potência. Em vez de auscultar as cavidades das gentes, agora ele gosta de se
fazer ouvir por bestas e abestados.
― Pare com pilhérias. O João é um homem prestimoso.
Dia
ou noite, muitos aflitos procuravam-no para que desse cabo de certa doença. O
mal se espalhou rápido. Gente pobre e gente rica, toda gente viu-se afetada.
Ele
olhava nos olhos. Dizia que “cefaleia” e “dor de cabeça” eram a mesma coisa. Lembrava
que mãos sempre têm que ser lavadas. Dava copo d’água pro remédio ser tomado na
hora. E entregava a cartela do analgésico. Passando os polegares sob os suspensórios,
o João nem cobrava pela consulta. Sorria, e pronto.
Um
homem maravilhoso, esse João.
Se
não tivesse ligado de volta, eu perderia a chance de lhe falar a verdade. Nós
sabemos que estas “férias” não programadas deviam ser tratadas como “tratamento
de saúde”. É mesmo! Já que a cidade toda jura que ele anda “mal das pernas”.
― Ei! Você escutou? Eu disse: mal das pernas!
Finalmente,
a mulher pode falar:
― Senhor, estamos ligando porque temos uma oferta que é válida apenas se for
aceita durante este telefonema.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 26 de fevereiro de 2026.