Depois de gritar Eu já vou!, a
mulher desligou o aspirador e, já que nem a deixavam acabar a faxina, foi ver
quem estava à porta.
À pessoa que pretendia empurrar alguma
bugiganga, Lindalva iria dizer que esquecer o dedo no botão da campainha era a maneira
mais idiota de conseguir uma venda.
— A senhora conhece o aspirador Maxxxi?
Lindalva pediu para o moço entrar.
— A senhora quer uma demonstração
gratuita?
Ela não queria.
— Dona... Muito agradecido. Mas a
senhora tem certeza de que é uma hora boa pra gente tomar um licorzinho?
O licor de amendoim ficou no cálice.
— Rapaz bonito, você só usa a boca pra
falar?
O cálice finalmente foi tomado. O modelo
ultramoderno não foi nem ligado. Rasgado grosseiramente, o cartão do vendedor foi
pro lixo.
Quando Lindalva acabava o serviço, Valentina
chegou.
— Mãe! Mãe!
— Deixe de gritaria, menina.
— Voltando pra casa, mãe, eu conheci
essa amiga maravilhosa.
— Oi, criança. Qual o seu nome?
E a criança disse que se chamava Magali.
Perguntada se seus pais deram-lhe tal nome em razão da personagem homônima da Turma
da Mônica, a criança disse que sim, porque o seu progenitor se chamava
Maurício, tal qual o criador da referida Turma.
— Quer um copo d’água ou uma bala de
café?
— Deixa disso, mãe, a gente vai pro
quintal. Ela precisa conhecer o Thór. Magali, o Thór é vira-lata, mas é um
vira-lata super legal.
Valentina e Magali foram fazer cafuné no
cachorro.
Valentina rolava no chão, enquanto Thór lambia-lhe
o rosto. O vira-lata pulava e corria e latia e lambia.
Magali sentou-se numa banqueta de
madeira.
— Vovô Vivaldi que fez pra mim, Magali.
Magali sorriu.
Valentina e Thór não paravam com aquilo;
Magali se enfastiara.
— Venham tomar um café. Acabei de
passar.
As duas entraram, Thór inclusive.
— Mamãe, será que o Vovô Vivaldi podia
fazer um banquinho que nem o meu? Mamãe, eu quero tanto que a Magali pudesse ficar
com a gente. Por uns dias, mamãe. É só por uns dias. Ela pode ficar?
Magali perguntou à Lindalva se poderia
usar o banheiro, porque ela estava apurada. A mãe de Valentina autorizou o uso.
Contudo, tão logo a nova amiga da filha deixou
o banheiro, Lindalva pediu à filha que fosse desligar a televisão.
A sós com a suposta Magali, Lindalva foi
categórica:
— Se eu ficar sabendo que você sequer
olhou pra minha menina, eu mando a polícia te prender, sua ordinária.
Valentina ficou triste, pois Magali foi
embora.
Enquanto a filha acenava, Lindalva correu
abrir o vitrô do banheiro, porque o cheiro do cigarro impregnava o cômodo.
À noite, no jornal da tevê, um policial
muito legal, olhando nos olhos da Valentina, disse a ela o que tinha de ser
dito:
“Havendo-se por trinta e sete anos como criança,
Magali foi presa. E para que conste nos autos o final alegre que a gente sempre
espera, Thór, o referido vira-latinha, nada teve que ver com o suposto sumiço da
garrafa de licor de amendoim.”
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de junho de 2026.
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