quinta-feira, 4 de junho de 2026

Jeitinho manso

 

Jeitinho manso

 

Depois de gritar Eu já vou!, a mulher desligou o aspirador e, já que nem a deixavam acabar a faxina, foi ver quem estava à porta.

À pessoa que pretendia empurrar alguma bugiganga, Lindalva iria dizer que esquecer o dedo no botão da campainha era a maneira mais idiota de conseguir uma venda.

— A senhora conhece o aspirador Maxxxi?

Lindalva pediu para o moço entrar.

— A senhora quer uma demonstração gratuita?

Ela não queria.

— Dona... Muito agradecido. Mas a senhora tem certeza de que é uma hora boa pra gente tomar um licorzinho?

O licor de amendoim ficou no cálice.

— Rapaz bonito, você só usa a boca pra falar?

O cálice finalmente foi tomado. O modelo ultramoderno não foi nem ligado. Rasgado grosseiramente, o cartão do vendedor foi pro lixo.

Quando Lindalva acabava o serviço, Valentina chegou.

— Mãe! Mãe!

— Deixe de gritaria, menina.

— Voltando pra casa, mãe, eu conheci essa amiga maravilhosa.

— Oi, criança. Qual o seu nome?

E a criança disse que se chamava Magali. Perguntada se seus pais deram-lhe tal nome em razão da personagem homônima da Turma da Mônica, a criança disse que sim, porque o seu progenitor se chamava Maurício, tal qual o criador da referida Turma.

— Quer um copo d’água ou uma bala de café?

— Deixa disso, mãe, a gente vai pro quintal. Ela precisa conhecer o Thór. Magali, o Thór é vira-lata, mas é um vira-lata super legal.

Valentina e Magali foram fazer cafuné no cachorro.

Valentina rolava no chão, enquanto Thór lambia-lhe o rosto. O vira-lata pulava e corria e latia e lambia.

Magali sentou-se numa banqueta de madeira.

— Vovô Vivaldi que fez pra mim, Magali.

Magali sorriu.

Valentina e Thór não paravam com aquilo; Magali se enfastiara.

— Venham tomar um café. Acabei de passar.

As duas entraram, Thór inclusive.

— Mamãe, será que o Vovô Vivaldi podia fazer um banquinho que nem o meu? Mamãe, eu quero tanto que a Magali pudesse ficar com a gente. Por uns dias, mamãe. É só por uns dias. Ela pode ficar?

Magali perguntou à Lindalva se poderia usar o banheiro, porque ela estava apurada. A mãe de Valentina autorizou o uso.

Contudo, tão logo a nova amiga da filha deixou o banheiro, Lindalva pediu à filha que fosse desligar a televisão.

A sós com a suposta Magali, Lindalva foi categórica:

— Se eu ficar sabendo que você sequer olhou pra minha menina, eu mando a polícia te prender, sua ordinária.

Valentina ficou triste, pois Magali foi embora.

Enquanto a filha acenava, Lindalva correu abrir o vitrô do banheiro, porque o cheiro do cigarro impregnava o cômodo.

À noite, no jornal da tevê, um policial muito legal, olhando nos olhos da Valentina, disse a ela o que tinha de ser dito:

“Havendo-se por trinta e sete anos como criança, Magali foi presa. E para que conste nos autos o final alegre que a gente sempre espera, Thór, o referido vira-latinha, nada teve que ver com o suposto sumiço da garrafa de licor de amendoim.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de junho de 2026.


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