quinta-feira, 18 de junho de 2026

Que sorte!

 

Que sorte!

 

Como corri fazer o que havia para fazer, fiz tudo pela manhã. Assim, às dezessete horas, eu estava sentadinho na minha poltrona. E assisti aos seis gols de Inglaterra X Croácia. Entretanto, as defesas do goleiro da seleção croata impediram que os ingleses conseguissem dobrar os quatro tentos que fizeram.

Tão logo o jogo terminou, e ainda encantado pela atuação de Harry Kane, fui pôr o lixo.

Eu saía do beco da lixeira quando Rafaela falou:

— Você soube que a Marinalva está nos Estados Unidos?

Ela ganhou um pacote que inclui hotel, refeições e ingressos para ver partidas da Copa.

— Carambolas! Como não fiquei sabendo disso?

— Azar o seu, já que nem zap você tem.

O que a sortuda fez para merecer esse prêmio? Pagou suas contas com a bandeira do cartão que ofereceu a tal promoção.

Marinalva tem sorte. Quando as Olimpíadas foram em Londres, ela viajou com tudo pago. Daquela vez, seu cupom foi tirado de uma pilha de milhares de compradores de uma rede de hipermercados.

Nem deu tempo para invejar a danada da sortuda, porque o Honório veio se juntar a nós.

— E o Messi, hein? Acabou com o jogo.

Rafaela disse que sim, que o argentino fez um belo jogo.

— E seus golaços? Foram três chutes tirando do goleiro. Daí foi só abrir os braços para ser ovacionado pelo público.

— O cara é mesmo um gênio da bola.

Eu queria falar da decepção com o Cristiano Ronaldo, mas a Aninha apareceu.

— Viram o jogaço?

Eu ia dizer que o Harry Kane tinha sido um furacão, mas a Aninha:

— O Vozinha fechou o gol de Cabo Verde.

Ao que foi dito pela Aninha, a Rafaela agregou:

— O Vozinha foi sensacional.

— O Vozinha tem que vir jogar na Portuguesa.

Nenhum de nós deixou de zoar a Aninha, porque aquele pedido era mesmo muito engraçado.

Eu disse:

— Aninha, você soube que a Marinalva foi ver a Copa ao vivo?

— Ela ganhou de novo?

Eu disse que a sorte dela era de outro mundo.

E o Honório:

— A sorte é tanta que ela até deixou o Jacinto aqui.

— Não viajou com o marido?

— Não, Aninha. Ela preferiu levar o seu personal trainer.

— Caraca! Quer dizer que o Jacinto ficou pra trás pra dar vez a um rapagão bombado?

— O Jacinto está sem pernas pra seguir a Marinalva. A correria vai ser daquelas. E toca ir pro estádio. E come x-salada sem mastigar. E vai de ônibus pro hotel. E pega avião pra outra cidade. — Eu disse.

Apressou-se a Rafaela:

— E acorda num estado. E vai dormir em outro.

O Honório deixou escapar:

— Upa-lelê!

Rafaela emendou de pronto:

— Ufa! Ufa! Isso sim!

E rimos ao sacarmos o tanto de “ufa!” que havia nisso.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de junho de 2026.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Espírito nobre

 

Espírito nobre

 

O doutor Baptista e eu conversávamos à mesa. Comíamos do bolo de cenoura que Marcelina, sua filha, assara pela manhã.

O clínico depôs a xícara de café. Olhou-me. E disse:

— Há circunstâncias que voltam até mim quando os meus tímpanos nem se dão conta de que um curto-circuito irá se formar na cachola. E sem que o senso consiga erguer — a tempo — alguma contenção, me emociono. Ontem houve isso.

E o velho continuou:

— Na fila da lotérica, pessoas conversavam. Falavam da barra de uma calça. Falavam do tempo que não limpava. E não foram delicadas com esse, aquele e uns terceiros, pois eles todos eram políticos. Sem que eu atinasse por qual fio puxaram aquele nome, foi dito: Tia Zefinha.

Eu bebi outro gole de café; o doutor ignorou:

— Disseram que ela ficara doente. Tossira por meses até manchas ficarem registradas nas chapas. E a pneumonia foi diagnosticada. Sem que eu me virasse, disseram que esse doutor Baptista prescrevera os remédios e pedira repouso. Este doutor Baptista teria sido terminante: repouso absoluto e sopas quentes.

O médico bebeu um gole de café.

— Zefinha ficou em casa por semanas. E apenas para garantir que estivesse mesmo curada, enfrentou quinze dias a mais de reclusão. No cômodo onde estivesse, as janelas permaneciam fechadas; menos as cortinas, pois ela ficava mais ainda borocoxô quando não dava uma espiadinha no movimento.

O doutor Baptista nunca deixou de chamar “derrame” o que hoje é conhecido como AVC, o tal do “acidente vascular cerebral”. Isso talvez não tenha influência alguma, mas o doutor sabe prender a gente com as suas histórias. E ele prosseguiu:

— Antes do derrame, Josefa foi parteira. Foram anos e anos, mas o corpo estragou-se. Da pneumonia... Disso a Josefina sarou.

O médico acendeu um cigarro.

— O homem e a mulher falaram que os filhos deviam ter impedido a Josefina de fazer a tal tatuagem. Se bem que os cabelos escondiam a marca, ela disse. E o frio a fazia usar cachecol, ele acrescentou.

Como se eu estivesse inteirado sobre as tramas daquela família, o meu amigo continuou o seu relato:

— Quando Marco Aurélio foi conferir se havia uma tatuagem no seu pescoço, Josefina disse ao filho mais velho do seu marido que ele não tinha que dar palpite.

O doutor Baptista tragou, tossiu e prosseguiu:

— Ísis Maria foi mais feliz, pois Josefina mostrou-lhe a tatuagem. E a filha caçula do seu marido confidenciou à madrasta que também faria uma — não poria um nome na nuca, ela tatuaria um golfinho na coxa.

O doutor pigarreou e disse:

— Como todo mundo sabe, ela traz um golfinho na panturrilha. Já que todo mundo reparou, Ísis Maria anda de marido novo.

Josefina e o seu segundo marido convidaram para o aniversário de vinte e cinco anos de união, o doutor dirigiu esse aparte a mim. E voltou ao relato do que ouvira na fila:

— Disse ele: Josefina me chamou! Disse ela: Foi a própria Josefina que também me chamou!

O doutor Baptista apagou o cigarro no cinzeiro, e concluiu:

— Como a Josefina sempre foi dona de um espírito raro, convidado algum gastará um vintém. Meu rapaz, ela gosta de ser rara.

Levantei-me. Saí. Só no táxi, lembrei-me da Marcelina.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de junho de 2026.

domingo, 14 de junho de 2026

Fora de jogo

 

Fora de jogo

 

As pessoas que compravam carne tinham opiniões sobre o jogo de estreia da seleção, à noite. Embora o painel das senhas indicasse que eu seria o quinto a ser atendido, topei acompanhar o papo.

Um freguês estava preocupado com o esquema tático. Para blindar a zaga e municiar o ataque, o meio de campo vai precisar ser armado com três jogadores.

Outro freguês concordou, pois, para ele, um meio-campo forte pode ganhar a maioria das jogadas. Para derrotar nossos adversários, isso seria um passo largo.

A senhora da picanha também pediu costela. Ela queria uma peça sem muita gordura. Ela concordou com o açougueiro quando ele falou que a seleção teria dificuldades imensas para ganhar a Copa.

Enquanto a balança registrava o peso da costela, o açougueiro não disse que os defensores das cinco estrelas da amarelinha voltarão da América com o pentacampeonato reluzindo. Quem disse fui eu.

A açougueira disse que não conhecia a maioria dos jogadores. Por isso, ela não tinha dúvida de que o técnico acertou ao chamar o craque mais experiente do time.

O açougueiro discordou, pois o tal craque foi convocado sem ter as condições necessárias para aguentar um torneio rápido, difícil, em que cinco ou seis seleções chegaram como favoritas.

Eu disse que isso podia ser usado pelo técnico a nosso favor, pois a carga de sermos os eternos melhores do mundo sempre complica.

O açougueiro e uma freguesa concordaram comigo. Já que a nossa cabeça esquenta quando somos pressionados pela nossa torcida, que nunca haverá de ficar contente se não levantarmos a taça.

Um freguês que chegou quando a conversa estava nesse ponto foi logo dizendo que pressão sempre houve ou nem seríamos penta.

A senhora que pediu a picanha não gostou muito das críticas sobre a convocação do celebradíssimo jogador, cuja camisa dez dificilmente entrará em campo na primeira fase do Mundial.

O açougueiro que a atendia comentou que ele não deveria ter sido convocado, já que o técnico disse diversas vezes que só levaria atleta com condições para suportar uma partida de noventa minutos.

Sem que ninguém ali sequer sorrisse, eu palpitei:

— Veremos o garotão em campo apenas na finalíssima.

A senhora que aprovou a picanha e a costela escolhidas pelo rapaz bom de faca também concordou com ele que os três quilos e duzentos e quarenta e nove gramas de contrafilé atendiam ao seu pedido de três quilos do seu corte declaradamente preferido.

Eu disse que o jogador mundialmente conhecido levou sete relógios só para os americanos babarem. O queixo caído viria pelos milhões do conjunto, não pela sua espetacular encarnação de Kali.

Sem que eu dissesse algo sobre o quilo, e pouco, de patinho moído que me foi entregue, o açougueiro riu gostoso.

A senhora do contrafilé não achou engraçado brincar com a religião dos povos originários. Ainda que não constem na Bíblia, ela disse que as colombianas e os colombianos de Cali têm mesmo direito a venerar aqueles seus deuses.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de junho de 2026.


quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cara de sorte

 

Cara de sorte

 

Bati no vidro. O nó do dedo não produziu o mesmo resultado que a ponta da chave. Quem levantou a cabeça foi a pessoa distraída pelo celular. Tornei a bater com a chave. Sem olhar para mim, a pessoa que se maquiava falou com a outra. Pela terceira vez, bati e, gesticulando de tal modo que ficasse entendido que eu precisava de envelope para depósito, gritei que precisava de envelope para fazer depósito.

A pessoa do celular veio até mim:

— Não está comigo a chave do armário.

Saí da agência. Ao atravessar a rua, fui interpelado:

— Acorda!

Ser atropelado por um ciclista vindo na contramão é a última coisa que eu iria querer. Porque as segundas-feiras carregam o anátema de estragarem a semana da gente, não queria que o meu corpo validasse a maldição.

Isso de ser abalroado por um infrator sem que houvesse uma alma para testemunhar que não fui eu que trouxe a má-sorte para o meu dia seria mesmo o “uó”.

Com isso em mente, berrei:

— Ainda bem que estou acordado!

Cheguei na casa.

Até ser convencido de que o motor de oxigenação da água operava normalmente, tive paciência. Então, no aquário, pus a ração.

Tratei de isolar os cães na parte da frente da propriedade, assim eu pude trocar a água das vasilhas. Adotando como parâmetro a minha boca, coloquei o suficiente de ração para que os esfomeados ficassem sem comer até o fim da tarde.

Chegou a vez de cuidar do Iago. E ele, cadê?

Eu chamei. E chamei. Nada.

Fui chamando, e procurei embaixo da cama. Chamei, e fui jogando a bola com guizos. Em vão. Nem no guarda-roupa do quarto de visitas nem ao lado da geladeira.

— Caraca do caramba, Iago. Apareça!

Não fui convincente. E o gato continuou onde estava. Longe de mim o bastante para seguir sossegado. Talvez dormindo. Sonhando. Dando cabo de camundongos — na hora do bote, sonho algum faz o predador perder suas presas.

Sorte minha que o Iago não apareceu. Se ele tivesse aparecido, eu ficaria ninando o bicho até que ele parasse de ronronar e fosse dormir na sua almofada que fica na sua poltrona no canto da sala que é todo seu.

Que sorte a minha. Quando bateu a fome, fui almoçar.

Tudo certo: lavei o prato; tirei minha pestana no sofá.

De volta ao batente, tratei de isolar os cachorros na parte dianteira do imóvel do Luisinho. Daí eu troquei a água das vasilhas. Então, pude pôr a quantidade de ração que calculei ser o bastante para os coitados não passarem fome no frio da madrugada.

Jantando a macarronada que sobrou, imaginei os banhos de mar, uma lagosta alho e óleo e aquelas moças sorridentes que cobram caro só dos turistas que têm sotaque carregado.

Ainda bem que o meu amigo tirou uma semana de sol e praia, pois, se tinha uma pessoa que precisava desestressar, ele era o cara.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de junho de 2026.

terça-feira, 9 de junho de 2026

A picanha e a mão boba

 

A picanha e a mão boba

 

Domingo passado, o churrasco na casa de Zeremias foi tranquilo. Embora convidados pelo aniversariante — por zap, telefonemas e até pessoalmente —, nem Onofre nem Sebastiana compareceram.

Capaz de oferecer picanha a quem acha um desperdício carne ser temperada apenas com sal grosso, Zeremias é homem de renovada esperança. Sempre a acreditar que a próxima há de ser a vez em que perdão e juízo hão de ser confluentes para que o entendimento volte a ser laço, e não esse nó que asfixia. Ele comprou logo três peças, ainda que a picanha nem estivesse em promoção.

É ao redor da churrasqueira na casa de Zeremias que, aos sábados e domingos, os familiares e os amigos estão rindo à toa, seja por piada muito engraçada, seja por historinha muito mal contada.

Zeremias adora o riso, mais ainda quando o riso se transforma em gargalhada, daquelas em que a gente se mija. E adeus, nozinho.

Ter mais de um banheiro em casa ajuda a manter o fluxo de gente correndo para passar uma água na cueca. Ou lavar o rabo, se a alegria foi tamanha que nem as pregas se seguraram.

Nunca num churrasco na casa de Zeremias houve quem explodisse de tanto rir. O maior absurdo foi o Onofre ter ficado rindo por uma hora, então, a Sebastiana deu água com açúcar, contou uma velha anedota de papagaio, e mostrou-lhe os peitos.

Nem os seios de Sebastiana estancaram a crise.

Onofre foi parar no soro, e ali adormeceu. Ter pernoitado no hospital não fez a cabeça dele sustentar ideias. Nem encontrou um argumento que fosse razoável o bastante para não discutir com a prima.

Onofre era casado, tinha filhos e jamais deixou escapar que tivesse uns sentimentos esquisitos. De vez em quando, ele ia tomar banho de cachoeira. Ele ia sozinho. E Sebastiana tinha peitos bonitos.

Quando a prima fez quatorze anos, ela lhe deu um beijo. Foi o único beijo de língua antes de ter beijado a sua esposa. Ele gostou muito de ter sido surpreendido, porque a prima não falou em namorar nem que um dia iriam se casar.

Maria Eduarda, Ana Cristina e o Onofre Junior foram nascendo sem que o primo pensasse na prima enquanto fazia amor com a mulher, já grávida a quatro meses da data do enlace.

Onofre e a companheira casaram-se no cartório: ela de rosa, ele de terno. Pelos dois lavradões de pinga virados sem respirar, só o juiz de paz achou de comparecer alegremente bêbado.

Sebastiana não gostou nada quando o oficial casamenteiro correu a mão pelas suas curvas. Com o tapa bem dado, veio o anúncio:

— Pode beijar o noivo, dona.

Ninguém disse uma palavra contra o homem cuja mão foi boba bem no momento da fotografia.

Prima Sebastiana e primo Onofre estão distantes. Amanhã vai fazer vinte e sete anos que não se falam. Honestamente, sequer aguentam conviver. Sem escamotear a verdade: a última vez que ela contou com ele — imediatamente após o instantâneo ser batido —, houve aquela troca de olhares, e tão somente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de junho de 2026.

domingo, 7 de junho de 2026

Sem trote

 

Sem trote

 

À primeira vista, aqueles homens estão brigando.

Não são simpáticas essas pessoas que saem no braço por qualquer besteira. Gente simpática opta pelo diálogo. Quando a boa gente parte pra troca de sopapos, isso me faz reavaliar o uso eventual da violência, porque há situações em que é complicado entender-se nem mesmo aos gritos.

E aqueles dois não só gritavam, empurravam-se, atracavam-se e, para o meu mais secreto horror, até se esmurraram.

Tirando a miopia dos apressadinhos que acham motivos de sobra pra qualquer um espancar outro qualquer, seja lida a evidência do fato: homenzarrão bombado apanha de mirrado barrigudinho.

Dado que sou dado a afoitezas quando irritado —  havia meia hora que esperava o táxi que o aplicativo localizara a dez minutos da minha localização —, tirei o celular do bolso quando o tumulto estourou no lado ensolarado da rua.

Deixo de lado a impaciência, empunho o telefone e divirto-me.

Como me amansava fotografar, ia postando fotos do entrevero que continuava engraçado ali, na banda ensolarada do logradouro.

Se não fosse pelo registro da pancadaria, teria ido ao ponto de táxi que fica perto — a dois quarteirões do ringue improvisado.

Já que a minha atuação às escâncaras fez de mim testemunha, os dois altercadores vêm ter comigo.

O baixinho diz por quais motivos precisa ser violento:

― Pediram que eu pegasse uma mulher nesta rua. Eu vim e não vi nenhuma mulher de vestido vermelho e bolsa vermelha. Me passaram um trote. Tudo bem, isso acontece. Mas telefonaram de novo. Eu teria de vir a esta mesma rua, agora para pegar um passageiro que estava usando muletas por causa do gesso na perna esquerda. Porque estava a quatro quadras daqui, eu vim. Outra vez foi trote, pois eu passei pelo número que me disseram e não vi ninguém. Quando passam trotes um depois do outro, aí a coisa muda de figura. Eu fico fulo da vida. Então, pela terceira vez, me fizeram vir pra esta mesmíssima ruazinha do cão, porque estaria esperando uma moça de vestido vermelho com a perna esquerda engessada, só que ela não tinha bolsa vermelha, reforçaram: a bolsa dela era amarela. Novamente eu vim, e fiz de ponta a ponta a danada da rua e outra vez não tinha moça alguma me esperando com sua bolsa amarela. E eu cheio de esperanças pra alegrar meu dia.

Com jeitão de que pode deixar grogue quem conheça a potência do seu murro, o grandalhão dá soquinhos na boca, pigarreia e diz:

 Não se engane. Sei qual o meu papel nesta história. Quando este cavalheiro disse quem ele é, compreendi a situação. Uma vez que sua senhora e eu temos algo intenso, ele tem razão para insultar e agredir. Ao marido traído não seja negada a desforra, só isso. Tomei a iniciativa de socar o queixo dele, afinal sou o amante da esposa dele.

Apontando pro telefone que o meu sovaco não esconde direito, com vozeirão de barítono, ele tasca:

― Por acaso, o cidadão tem o meu número?

Como observador amador da realidade, no ato, eu atalho:

― Não fui eu, senhor. Só gente com crédito que passa trote.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de junho de 2026.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Jeitinho manso

 

Jeitinho manso

 

Depois de gritar Eu já vou!, a mulher desligou o aspirador e, já que nem a deixavam acabar a faxina, foi ver quem estava à porta.

À pessoa que pretendia empurrar alguma bugiganga, Lindalva iria dizer que esquecer o dedo no botão da campainha era a maneira mais idiota de conseguir uma venda.

— A senhora conhece o aspirador Maxxxi?

Lindalva pediu para o moço entrar.

— A senhora quer uma demonstração gratuita?

Ela não queria.

— Dona... Muito agradecido. Mas a senhora tem certeza de que é uma hora boa pra gente tomar um licorzinho?

O licor de amendoim ficou no cálice.

— Rapaz bonito, você só usa a boca pra falar?

O cálice finalmente foi tomado. O modelo ultramoderno não foi nem ligado. Rasgado grosseiramente, o cartão do vendedor foi pro lixo.

Quando Lindalva acabava o serviço, Valentina chegou.

— Mãe! Mãe!

— Deixe de gritaria, menina.

— Voltando pra casa, mãe, eu conheci essa amiga maravilhosa.

— Oi, criança. Qual o seu nome?

E a criança disse que se chamava Magali. Perguntada se seus pais deram-lhe tal nome em razão da personagem homônima da Turma da Mônica, a criança disse que sim, porque o seu progenitor se chamava Maurício, tal qual o criador da referida Turma.

— Quer um copo d’água ou uma bala de café?

— Deixa disso, mãe, a gente vai pro quintal. Ela precisa conhecer o Thór. Magali, o Thór é vira-lata, mas é um vira-lata super legal.

Valentina e Magali foram fazer cafuné no cachorro.

Valentina rolava no chão, enquanto Thór lambia-lhe o rosto. O vira-lata pulava e corria e latia e lambia.

Magali sentou-se numa banqueta de madeira.

— Vovô Vivaldi que fez pra mim, Magali.

Magali sorriu.

Valentina e Thór não paravam com aquilo; Magali se enfastiara.

— Venham tomar um café. Acabei de passar.

As duas entraram, Thór inclusive.

— Mamãe, será que o Vovô Vivaldi podia fazer um banquinho que nem o meu? Mamãe, eu quero tanto que a Magali pudesse ficar com a gente. Por uns dias, mamãe. É só por uns dias. Ela pode ficar?

Magali perguntou à Lindalva se poderia usar o banheiro, porque ela estava apurada. A mãe de Valentina autorizou o uso.

Contudo, tão logo a nova amiga da filha deixou o banheiro, Lindalva pediu à filha que fosse desligar a televisão.

A sós com a suposta Magali, Lindalva foi categórica:

— Se eu ficar sabendo que você sequer olhou pra minha menina, eu mando a polícia te prender, sua ordinária.

Valentina ficou triste, pois Magali foi embora.

Enquanto a filha acenava, Lindalva correu abrir o vitrô do banheiro, porque o cheiro do cigarro impregnava o cômodo.

À noite, no jornal da tevê, um policial muito legal, olhando nos olhos da Valentina, disse a ela o que tinha de ser dito:

“Havendo-se por trinta e sete anos como criança, Magali foi presa. E para que conste nos autos o final alegre que a gente sempre espera, Thór, o referido vira-latinha, nada teve que ver com o suposto sumiço da garrafa de licor de amendoim.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de junho de 2026.


terça-feira, 2 de junho de 2026

Os bem-te-vis

 

Os bem-te-vis

 

De episódio em episódio, me escapou a madrugada. Os bem-te-vis armaram a sua rede desde o sopé do Morro da Figueira, de árvore em árvore, até a parabólica de casa.

Abri a janela.

A aurora lambeu meu rosto com os dez graus previsíveis do outono. Não me apoquentei por nem lembrar qual o seriado que achei ter visto. Eu também me evadi da madrugada.

Não dá trabalho algum cochilar no sofá, basta manter o som da tevê naquela altura narcotizante — nem muito alta para injuriar os parentes fantasmas nem baixinha o bastante que mal dê pra ratificar as idiotices que saltam de uma personagem a outra.

Com o mal jeito de uma noitada inútil, vim pro computador decidido a trabalhar.

Achei o arquivo. Quero terminar de revisá-lo antes do almoço.

De ajuste em ajuste, a manhã me escapole. São onze horas e vinte e sete minutos. Com regências pronominais bem calibradas e adjetivos cortados, o texto de medíocre passou a razoável.

Quando o estômago ronca, é hora de parar.

Aprendi com tonturas que o chão fica sob os pés quando a barriga digere o que se come. O corpo prevalece.

Nesta luta contra a dispersão, eu perco. E uma vírgula se aproveita da garfada de arroz para se intrometer nos processos químicos do meu estômago.

E a mente concentra seus dendritos na tarefa de disseminar voltas e mais voltas ao redor de uma elipse.

Se eu percebesse o que está eclipsado, haveria contradição.

Volto ao texto. Nem cheguei a largá-lo fora do prato, e o pego frio. Como quem quis urinar sem nem água ter bebido, retomo-o a seco.

Corto uma frase. E outra.

Releio o parágrafo. Reescrevo a frase suprimida. Consigo fazer isso porque estou concentrado. As palavras não usaram as sinapses para voarem, se esconderem.

A consequência, desloco-a. Antecipo-a à causa, e acho outra coisa, o sorriso. O sorrisinho, esse sim sabe o quanto é divertido me confundir quando a coisa aperta.

Nem sinto se afrouxo. Só sei que sentado eu fico.

Me diverte brincar enquanto trabalho. Jogo, porque aprendo a jogar durante a peleja. E a brincadeira me faz esquecer que estou distraído para o mundo.

O rapaz que registra o consumo de energia elétrica teve que tocar mais de uma vez. Nem sei quantas foram.

Ruborizo, a ele relato o que fazia:

— Estava lá nos fundos. Sabe, estava com a máquina ligada. Hoje é dia de lavar roupa. Me desculpe se demorei.

O meu rosto delata o que acontece comigo quando não lavo roupa coisíssima nenhuma: eu só escrevia.

Coisíssima alguma que é só escrever. A vírgula que não se deixa digerir nas minhas entranhas me faz respirar de boca aberta. E a boca seca me leva ao copo d’água. E não é a água que me devolve ao texto, é a sensação de ter voltado a salivar.

Leio novamente o que tenho que ler.

Se aprovado, salvo o arquivo. Se pressinto que falta algo, vou voltar a ele. Se voltarei, desligo o computador sem lamento algum.

E a janela precisa ser fechada. E os bem-te-vis já estão fugindo do frio da noite que vai subindo pelo sopé do Morro da Figueira.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de junho de 2026.

domingo, 31 de maio de 2026

Uruca

 

Uruca

 

Rapaz, na ordem natural das coisas, sexta é minha folga. Então, eu estava vindo pra cá. Sem pressa nenhuma. Vinha vindo. Na certeza de que uma coisa boa ia me acontecer no caminho, eu vinha.

Foi quando, logo do ladinho de casa, um cachorro muito brincalhão pegou de virar sombra minha. Foi engraçado o bicho vir comigo. Sem nem mesmo ser conhecido meu, ele veio.

Tanto achei graça que fiz carinho nele que nem liguei que tivesse pulga. Nem pus interesse de averiguar se ele se coçava por carrapato estar sugando o sangue pela sua carne, coitado.

Rapaz, sabe que eu senti um cheiro danado de mijo assim que pisei fora de casa? Descartei que o danadinho tivesse mijado. E se não foi ele, foi algum pinguço.

Olha que fedia. Coisa mesmo de bebum. E fedia muito.

Se ressalto, é que dou fé que o bicho era de rua, de virar latão, de mijar em poste, em lixeira. Vim de olho, no pé firme, atento com buraco. Eu continuei vindo. Principalmente, se havia mijo, haveria merda mole no caminho. Então, ajuizei isso: o mijo e a merda tinham dono, e queria que não fosse arte do cachorrinho.

Observando o vira-lata — ainda na minha cola —, tive na ideia que o pulguento empesteado tinha era fome. O esqueleto era de bicho que sabia ser sobrevivente da própria miséria. Tinha mais osso aparecendo que pele.

Deu dó de ver tanta alegria. O rabicho não sossegava. Era alegre de dar pena. E tão magro. Rapaz, tão algo feio de ver.

Punha na gente o sentimento de ter dele a compaixão que a gente quer quando precisa.

Sozinho na rua, o bicho devia de estar sofrendo. Uma figura de levar uma vida vadia, de bicho sem eira nem beira.

Rapaz, só de imaginar o pobrezinho sem ter o que comer, na chuva, sem ter onde ficar de fora do vento. Melhor, não.

O vira-lata veio vindo, rapaz, mais sorrindo que brincalhão.

Tive pena da sua figura que me pareceu esquelética. Zanzando o tempo todo. Lambendo água empoçada. Lambendo lama. Sem sequer poder usar a gordura da carne feito capa.

Foi quando, logo quase no cruzamento, ele deu mostras das coisas ordinárias da sua natureza de fera.

Ele pulou. Pulou. Querendo abocanhar a batata, ele pulou.

Sorte que o cara estava mais no alto. Que baita susto! O coitado do rapaz pintava a fachada de uma lanchonete nova.

Reparando no disparate: a nova era velha. Daí me ocorreu que era o mesmo dono tramando, com a demão na fachada, querendo mostrar que a lanchonete era outra. Rapaz, que não era nova nem velha, era a mesma que era outra, pelo azo de ser dada a festanças.

Só que não vou mentir, eu ri.

É que os latidos e os palavrões misturados, rapaz, foram motivo ao incontido de nem eu controlar nem baba nem gargalhada, nada.

No apuro de se safar, largou pincel, num cisco ele subiu pro telhado. No divertido da coisa, rapaz, foi do outro lado da rua que a gente achou de pôr graça naquele: FRANGO À PUR


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de maio de 2026.

 

 

 

PS — No dia 08/01/2023, às 08:29, publiquei URUCA, cuja versão continua disponível neste blogue. Todavia, os ilustres governantes do mundo resolveram alertar: “terroristas são sempre os outros”. Assim sendo, hoje eu publico outra versão de URUCA.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

O pito

 

O pito

 

Pra ver o que tinha dentro da caixa, Marcela pegou uma caneta. E a ponta fina fez as vezes de estilete.

— Tá rindo por quê?

A menina pôs o chapéu na cabeça, e riu-se mais ainda.

— O mais engraçado, Celina, é a sua mãe ter mandado restaurar o que ela nem vai usar.

— Era da vovó?

— Era.

— E esses raminhos são o quê?

E a menina entregou para o pai assim que ele, com um gesto, fez para ela aproximar-se.

— Hum... Tem um raminho de cevada, um de trigo e esse aqui, ó, o mais bonito, filha, é o joio.

— A vovó dava uma de grã-fina, é?

— A senhora sua avó, Dona Magdalena, era mesmo grã-fina. Ela usava chapéu declamando Augusto dos Anjos nos saraus ou jogando truco nos churrascos da gente.

— Vovó era moderninha!

— Quê? Usar chapéu é sinal de modernidade?

— Tô de zoeira, pai.

— Antes que a mamãe encrenque com a gente, ponha de volta.

Ela guardou o chapéu na caixa.

— Engraçado, papai. Eu nunca vi o senhor nem de boné.

— Mas teve um tempo que eu tinha uma boina.

— O senhor de boina? Fala sério.

— É verdade, Celina. Fiquei um ano servindo em Itu. Com dezoito anos, rasparam a minha cabeça lá na Infantaria.

— Nossa! O senhor teve que ficar careca por um ano?

— Passou rápido. Nas folgas, eu saía de boina.

— Nas folgas?

— Sem drama, menina.

— Dona Magdalena bebericando capuccino no gamão e o senhor tomando chuva na careca?

— Que mundo cruel, hein, filha?

— Cruéis são vocês. Vêm já pegar umas sacolas.

Como Ana Maria não parou, o pai voltou-se pro celular e a filha foi bisbilhotar o que tanto a mãe tinha comprado.

— Cadê o meu danone?

— Esqueci.

— Nem trouxe o xampu que eu pedi. E eu pedi tanto, mãe.

— A cestinha encheu. E só a laranja pesou dois quilos.

— A senhora devia ligar. Cabelo desgrenhado não fica bem numa neta da Dona Magdalena, que era uma madame chiquérrima.

— Nem bem a caixa foi entregue, Celina!

Ana Maria tirou da caixa todo o papel de seda.

— Não entregaram a piteira.

— O que é piteira?

— Celina, meu amor, sua avó era mulher do seu tempo. Ela sabia que elegante era ter uma piteira pra combinar com chapéu e luvas.

— O papai tinha boina pra combinar com a careca.

Honório passou a mão pelo cocuruto.

— Agora, Celina... Sou calvo.

Pra cobrar a restituição do objeto, Ana Maria ligou para a loja.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de maio de 2026.

terça-feira, 26 de maio de 2026

À beira de um ataque de riso

 

À beira de um ataque de riso

 

Encontrei Domingos. Atrás dele na fila, elogiei quem toca sanfona como se soubesse. De pronto, virou-se. E sorrimos.

— Que diabo de médico que garranchou essa receita. Vê pra mim se você entende a letra desse querubim caído.

O remédio era um tarja preta para os nervos.

Pedi licença. Fotografei o papel. O celular montou a sequência de letrinhas. Repeti o que a tela mostrava em negrito:

— Como atua direta e exclusivamente no sistema nervoso central, tal medicamento visa à diminuição da atividade elétrica excessiva dos neurônios.

Ele tomou o telefone da minha mão.

— Sonolência severa é efeito colateral. Danou-se.

Perguntei o porquê dessa danação.

Ele emendou que tinha a necessidade urgente de dormir bem, que o dia seguinte era o que muito o deixava mexido, que a cisma quando vem

— Vem logo pondo a cabeça da gente que já nem entenda mais o que lê. Dá tremedeira. Tudo que a mão precisa pegar, ela solta.

— A gente. Qualquer um. Veja, Domingos. É perfeitamente natural que a pessoa fique nervosa com o que ela acredita ser importante pra ela. Só que a calma ajuda mais a gente.

Domingos pegou o meu celular.

— Da última vez, foi só tomar uma tacinha... Santíssima! Faltou ar. O olho ficou escuro. Me levaram de ambulância. Lavaram o bucho. E só fui ser liberado no outro dia.

A cada frase dita, ele pressionou o telefone contra o peito:

— Está tudo aqui. Fala no perigo da depressão respiratória grave. Pode virar overdose. Eu cair em coma. Danou-se mesmo.

Domingos cismou. Estava certo de que iriam visitá-lo.

— Amanhã vou comprar gelo. Depois, vou comprar vinho. Branco, tinto e espumante. Não quero que falte o que mais gostarem.

Ele sabia que a sanfona roncaria os foles.

— A tarde toda. A noite inteira. Até quando a polícia deixasse, ora.

Domingos compraria amendoim e batatinha pronta.

— Como sempre surge um engraçadinho que gosta de reclamar, vai ter pipoca também.

As pizzas?

— Já deixei carregando os dois celulares. Porque sempre dá fome quando a gente se lembra de que não comeu o que sustente.

Pelo coraçãozinho de frango e pelo carvão, teria de ir ao açougue do cunhado. Pela gastança, o marido da sua irmã sorriria...

— Como não conheço pé-de-serra sem zabumba nem triângulo, o Aristeu e a Clotilde vão aparecer.

Domingos levantará às quatro, e não às cinco. E já mandou trocar a bateria do rádio-relógio.

Há pouco, ele foi cortar o cabelo e fez a barba e as unhas.

— Com lenço de pele de oncinha no gogó, vou ficar todo bonitoso. E banho vou tomar logo dois: ao me levantar e antes do almoço.

Só os chatos de sempre é que vão arranjar senões.

— Desculpe, meu chapa. Já que festa surpresa tem que acontecer sem que a gente saiba, não vou convidar você.

— A gente entende, Domingos.

E nos abraçamos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de maio de 2026.