segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016


sonho 

a face do visível na folha
escapa ao argumento
à vibração do olhar
vento branco

ao fundo outro branco
onde as palavras naufragam
indômitas informes transeuntes
aí a fantasia brinca
seus trancos mais necessários

espanto?

lápis às palavras
sem essa de pomba afogada
ou de sombra branca

faz da faísca
pensamento!

 (rodrigues da silveira, 2015)





sábado, 27 de fevereiro de 2016



proximidade

não sinto a borboleta não a sinto
na mão assentada em minha mão espalmada
o sentido do que não há

não solto a rã não a solto
falta ao sentido soltá-la
solto o ar ao saltá-la

não sigo o rio não o sigo
o tronco sobe o rio não o sobe naturalmente
a mente olha-se imóvel

não vejo o porto não o vejo
à margem do próximo bem aqui
aqui como ali

(rodrigues da silveira, 2015)











sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016



o saber do sal

a palavra manipulada como lama
os dedos são pinças
a desamparar os siris às seis da manhã
na lida às seis da manhã
o sol no levante

a palavra amparada por um lápis
a descamar a noite
a destroçar velas na areia despachada
sem a aprendizagem do riso
algum dolente riso

tão oceano o enfadonho

e o molusco lamejante
sua fala ofuscada como palavra aberta
quer-se gaivota assentada na brisa
mas essas máscaras puídas de lucidez
mas esse lodo de engodos
esse querer vestir-se de palavra
querer sentir-se em casa
querer-se

 (rodrigues da silveira, 2015)


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016



da brevidade do salto

o sono da chama
nada ferve

afeito ao desencanto
como abandono encarnado na lama

abre-se rosa o rochedo da febre
como afeito ao espanto

não reclama
não tem a verve

serve justamente ao manto
esse café na cama

some naquele canto
casebre a seco

sem pétalas como um rei
vai que é da lei

(rodrigues da silveira, 2015)



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016


a articulação do degredo

no fio de cabelo
o desconhecido

a descoberta
o ralo do banheiro

dantesco instante

flores desnudas
o saber tão ralo

pétalas caídas
o tão pouco saber

naquele banheiro
o calvo não rala

o fio é flor
metáfora do papalvo

(rodrigues da silveira, 2015)



terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

      

partícula do adeus

as fotografias do menino olhando o homem
algo novo para quem menino
faz outro aquele homem

aquela criança sonhadora
observando suas desesperanças
à velocidade da luz

captadas as infâncias de mãe e filho
essas velhas conhecidas
modeladas aos joelhos

essa linguagem tende ao obscuro
na escuridão da miragem
ronda nossos mundos
no limite do talvez

queria pronunciar-se
distender-se

e lá longe
na geografia decorada do mapa
rodando suas esferas naquele labirinto subterrâneo
a fera escapa aos ímãs da luz

(rodrigues da silveira, 2015)