Três
pedidos
O almoço entrou na lista de eventos
memoráveis. Quem merecia a atenção recebeu mais do que a aguardada atenção, a pessoa
louvada no brinde e à parte, a tão amada de todos, a todos era amável.
No dia anterior à celebração, às nove, ao
telefone, à filha mais nova não ocorreu de se desculpar pela ligação àquela
hora, mesmo sabendo que a mãe só saía da cama depois das dez.
Mamãe, confessou a insolente, eu estou
ligando pra que a senhora não seja surpreendida, colocada em saia-justa, seja
convencida a fazer o que a Marta tanto ambiciona.
Marta era a filha mais velha da mulher
forçada a levantar-se para ir atender o telefone que fica na sala.
Mamãe, prosseguiu a imprudente, a
Marta quer tirar de mim o único item que o papai não se importaria que ficasse
comigo. Além disso, ela nunca se interessou em aprender música. Nem de ouvido,
mamãe. Ela sempre achou sanfona uma coisa brega.
Nos álbuns que a mãe possuía, Marta
aparecia cabisbaixa; mesmo no tempo em que o celular não existia, ela manuseava
essa bugiganga tão somente desejada.
Mamãe, a descuidada finalmente perdeu
a pose, a minha irmãzinha quer o doce mais doce apenas porque eu gosto, porque
tudo que gosto dá nela essa comichão de me ver contrariada. Então, mamãe, eu peço
que desculpe a honestidade, mas quem deu o exemplo de ser sincera em tudo na
vida foi a senhora. Então, mãezinha, faça o favor, nada de dar à Marta a
sanfona do papai. Até porque, eu juro que vou aprender a tocá-la nem que seja a
última coisa que a vida me conceda.
Enquanto a caçula falava, a mãe arrancava
dos vasinhos uns matos que teimavam em crescer, indiferentes à Lua.
Guto, que sempre clica a família toda,
ligou depois do almoço.
Mamãe, disse o solteirão de trinta e
três anos, ninguém segura uma sanfona como se pombos fossem defecar em cima
dela. A ciumeira da Marta cheira à blasfêmia, porque sanfona não é bezerro de
ouro, nem a Marta é nenhuma Salomé pra exibi-la que nem troféu.
Enfim, como a sugerir-lhe que palavra
alguma poderia ser repetida, a senhora dê um toque, só insinue à Marta o
semancol, mãe.
Na hora do café, ali pelas quatro, Marta
trouxe um vaso, que a mãe ajeitou entre os demais. Não que as orquídeas antecipassem
que tinha algo a pedir; de fato, ela cuidava das flores.
Deixe todo mundo babando, disse a
matriarca projetando a próxima fotografia, empunhe o fole aberto, garota.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de maio de 2024.