terça-feira, 9 de junho de 2026

A picanha e a mão boba

 

A picanha e a mão boba

 

Domingo passado, o churrasco na casa de Zeremias foi tranquilo. Embora convidados pelo aniversariante — por zap, telefonemas e até pessoalmente —, nem Onofre nem Sebastiana compareceram.

Capaz de oferecer picanha a quem acha um desperdício carne ser temperada apenas com sal grosso, Zeremias é homem de renovada esperança. Sempre a acreditar que a próxima há de ser a vez em que perdão e juízo hão de ser confluentes para que o entendimento volte a ser laço, e não esse nó que asfixia. Ele comprou logo três peças, ainda que a picanha nem estivesse em promoção.

É ao redor da churrasqueira na casa de Zeremias que, aos sábados e domingos, os familiares e os amigos estão rindo à toa, seja por piada muito engraçada, seja por historinha muito mal contada.

Zeremias adora o riso, mais ainda quando o riso se transforma em gargalhada, daquelas em que a gente se mija. E adeus, nozinho.

Ter mais de um banheiro em casa ajuda a manter o fluxo de gente correndo para passar uma água na cueca. Ou lavar o rabo, se a alegria foi tamanha que nem as pregas se seguraram.

Nunca num churrasco na casa de Zeremias houve quem explodisse de tanto rir. O maior absurdo foi o Onofre ter ficado rindo por uma hora, então, a Sebastiana deu água com açúcar, contou uma velha anedota de papagaio, e mostrou-lhe os peitos.

Nem os seios de Sebastiana estancaram a crise.

Onofre foi parar no soro, e ali adormeceu. Ter pernoitado no hospital não fez a cabeça dele sustentar ideias. Nem encontrou um argumento que fosse razoável o bastante para não discutir com a prima.

Onofre era casado, tinha filhos e jamais deixou escapar que tivesse uns sentimentos esquisitos. De vez em quando, ele ia tomar banho de cachoeira. Ele ia sozinho. E Sebastiana tinha peitos bonitos.

Quando a prima fez quatorze anos, ela lhe deu um beijo. Foi o único beijo de língua antes de ter beijado a sua esposa. Ele gostou muito de ter sido surpreendido, porque a prima não falou em namorar nem que um dia iriam se casar.

Maria Eduarda, Ana Cristina e o Onofre Junior foram nascendo sem que o primo pensasse na prima enquanto fazia amor com a mulher, já grávida a quatro meses da data do enlace.

Onofre e a companheira casaram-se no cartório: ela de rosa, ele de terno. Pelos dois lavradões de pinga virados sem respirar, só o juiz de paz achou de comparecer alegremente bêbado.

Sebastiana não gostou nada quando o oficial casamenteiro correu a mão pelas suas curvas. Com o tapa bem dado, veio o anúncio:

— Pode beijar o noivo, dona.

Ninguém disse uma palavra contra o homem cuja mão foi boba bem no momento da fotografia.

Prima Sebastiana e primo Onofre estão distantes. Amanhã vai fazer vinte e sete anos que não se falam. Honestamente, sequer aguentam conviver. Sem escamotear a verdade: a última vez que ela contou com ele — imediatamente após o instantâneo ser batido —, houve aquela troca de olhares, e tão somente.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de junho de 2026.

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