Domingo passado, o churrasco na casa de
Zeremias foi tranquilo. Embora convidados pelo aniversariante — por zap, telefonemas
e até pessoalmente —, nem Onofre nem Sebastiana compareceram.
Capaz de oferecer picanha a quem acha um
desperdício carne ser temperada apenas com sal grosso, Zeremias é homem de
renovada esperança. Sempre a acreditar que a próxima há de ser a vez em que
perdão e juízo hão de ser confluentes para que o entendimento volte a ser laço,
e não esse nó que asfixia. Ele comprou logo três peças, ainda que a picanha nem
estivesse em promoção.
É ao redor da churrasqueira na casa de
Zeremias que, aos sábados e domingos, os familiares e os amigos estão rindo à
toa, seja por piada muito engraçada, seja por historinha muito mal contada.
Zeremias adora o riso, mais ainda quando
o riso se transforma em gargalhada, daquelas em que a gente se mija. E adeus,
nozinho.
Ter mais de um banheiro em casa ajuda a
manter o fluxo de gente correndo para passar uma água na cueca. Ou lavar o
rabo, se a alegria foi tamanha que nem as pregas se seguraram.
Nunca num churrasco na casa de Zeremias
houve quem explodisse de tanto rir. O maior absurdo foi o Onofre ter ficado
rindo por uma hora, então, a Sebastiana deu água com açúcar, contou uma velha
anedota de papagaio, e mostrou-lhe os peitos.
Nem os seios de Sebastiana estancaram a
crise.
Onofre foi parar no soro, e ali adormeceu.
Ter pernoitado no hospital não fez a cabeça dele sustentar ideias. Nem encontrou
um argumento que fosse razoável o bastante para não discutir com a prima.
Onofre era casado, tinha filhos e jamais
deixou escapar que tivesse uns sentimentos esquisitos. De vez em quando, ele ia
tomar banho de cachoeira. Ele ia sozinho. E Sebastiana tinha peitos bonitos.
Quando a prima fez quatorze anos, ela
lhe deu um beijo. Foi o único beijo de língua antes de ter beijado a sua
esposa. Ele gostou muito de ter sido surpreendido, porque a prima não falou em
namorar nem que um dia iriam se casar.
Maria Eduarda, Ana Cristina e o Onofre
Junior foram nascendo sem que o primo pensasse na prima enquanto fazia amor com
a mulher, já grávida a quatro meses da data do enlace.
Onofre e a companheira casaram-se no
cartório: ela de rosa, ele de terno. Pelos dois lavradões de pinga virados sem
respirar, só o juiz de paz achou de comparecer alegremente bêbado.
Sebastiana não gostou nada quando o
oficial casamenteiro correu a mão pelas suas curvas. Com o tapa bem dado, veio
o anúncio:
— Pode beijar o noivo, dona.
Ninguém disse uma palavra contra o homem
cuja mão foi boba bem no momento da fotografia.
Prima Sebastiana e primo Onofre estão distantes.
Amanhã vai fazer vinte e sete anos que não se falam. Honestamente, sequer aguentam
conviver. Sem escamotear a verdade: a última vez que ela contou com ele —
imediatamente após o instantâneo ser batido —, houve aquela troca de olhares, e
tão somente.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 09 de junho de 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário