terça-feira, 29 de setembro de 2020

Galo aberto

 

Galo aberto

 

A janela era pequena, parecia menor que um metro. Não bastasse o tamanho minúsculo, desproporcional à face de pedra em que se via incrustrada, uma das suas metades, do centro pra direita, exibia uma cortina abreviando-lhe a abertura.

E poderíamos ir além do pano coberto de figuras. Reparando bem, uns pequenos beija-flores, pretos sobre fundo laranja. Algo relevante, de imagem sóbria.

Fixemos a nossa atenção na parte nua. Mais, tenhamos a audácia de ir pela fenda. Há luz, provavelmente de uma vela.

Mesmo que não haja quem nos dê permissão expressa de sondar o seu derredor, imaginemos o que possa estar iluminando.

Que coisa. Por algum motivo, recuamos.

Um gato miando na vizinhança? Um bêbado proclamando pragas?

Uma distração.

Ainda que a curiosidade com aquele recanto parcialmente exibido por meio metro de visibilidade funcione como ímã, a nós outros que aqui estamos observando, prefiramos calar quanto às relações dos seres vivos com os objetos do recinto.

Mantenhamos a cautela de não saborearmos outros dissabores.

Temos nossas obrigações históricas e políticas; no entanto, que a nossas fabulações não extrapolemos, que isso nos impeça de supor o que não ouvimos dali, além da janelinha simples sobre o caos.

Fiquemos nessa presença. De uma distinção acusatória.

Não sei quanto a você, mas me desgosta tomar alguma correção pelo constrangimento do dedo levantado como se algum limite tivesse sido desrespeitado. Vindo o pito, acabrunho-me, dá-me um calor, fico vermelho; vendo o efeito, quem pensa corrigir a falha com o gesto de autoridade cutuca a ferida, como se adviesse um aprendizado besta.

Mas a pessoa bestificada, bestificada ela fica.

Onde a linha imaginária foi cruzada? Se imaginada, invisível. Se a mim não me serve de barreira a não ser transposta, como evitá-la?

Pessoa comum, como qualquer que enfrenta os problemas com a dignidade dos tranquilos, posso presumir que me julgam prejudicado de algum modo pelo juízo, incapaz de avaliar a minha falta, já que a cometi metendo o nariz onde não deveria.

Respiro fundo. Olho a janela. E a luz ignora o mundo de cá, fora.

Como isso me atordoa.

E penso: antigamente era ainda um instante querendo tornar-se o passado perfeito, só que não passava. E, perdurando, segue sendo a escuridão que meus braços cegos não medem o suficiente para evitar a testa no batente.

Acidental, o presente que continua a se tornar insuperável por não distinguível do corpo que sinto; lugar em que me vejo circunstanciado por sensações, e abstrações correlatas.

É óbvio: canta latejante o galo, querendo gelo.

No aturdimento da ideia, o oxigênio escasseia, o sangue engrossa e os joelhos pedem o chão. Seguro a lágrima, que não descarregaria a vergonha do engano, do cálculo que não muda a porta um palmo.

Aliás, galos abrem as manhãs, não janelas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de setembro de 2020.

domingo, 27 de setembro de 2020

Precisão

 

Precisão

 

Há prazeres civilizados que prosperam com maior facilidade nas pessoas que separam o joio do trigo só pelo faro. Experientes de tal forma que as condições de cada estação entram a orientar o sentido de sua estada no mundo sem pânicos nem desesperos. Satisfeitas da vida, mais acentuadamente com a passagem da seca do inverno pra umidade da primavera, sorriem feito ipês amarelos, roxos, vermelhos, azuis, uma palheta de irradiações tão esplendorosas que a realidade oferece a quem esteja perceptivo a tamanhos maravilhamentos.

A sabedoria vem pela atenção às coisas da vida. Geralmente, nas pressas disso agora e daquilo pra ontem, a boca engruvinha de tensa e o olho pisca inventando cisco. Vê-se que dá trabalho ir vivendo.

Portanto, sábio não cochila debaixo de jaqueira carregada.

Contudo, tem quem goste de criticar só pra manter a posição que julga ter.

E como havia o que pensar depois daquele almoço, com a família reunida em torno das contrariedades. Sobrando passar pito no genro perdulário, a remendar dos maltrapilhos da netinha predileta. E assim, falta sal no talharim; e assado, é muito alho no frango.

A cabeça do sujeito estava neste estado, vítima de aflições vindas de roldão. Pressentindo o angu virado da congestão, saiu.

Foi caminhar.

Pra respirar em paz, andava devagar. Tinha de sentir-se calmo.

Queria deixar-se à solta pelo mundaréu de árvores, que nem sabia os nomes. Ouvia a passarinhada, gostando bem.

Homem da cidade, aquilo entrava pelos nervos, tirando o peso na pegada. Mas, precisando provar concreto o terreno pisado, cuidando não cair nem nada, firmava o pé num caminho já trilhado.

Respirando o úmido da relva, apurava o senso, que nem percebia.

De repente, talvez por sugestão da mata tão viva em diversidades de planta e bicho, deu com um cajueiro exercendo a clareira de sua beleza, como uma história antiga.

Diante do insólito da abundância de cajus, ruminou contar-se que eram três homens. Cada qual pegou resolver o que tinha de dar cabo.

O primeiro plantou uma mangueira na frente da casa. Prevendo as mangas madurinhas, fez uma escada. Quando a árvore estava cheia de frutos vistosamente suculentos, nem pôde erguê-la, uma vez que tinha dado cupim.

O segundo virou um touro de bravo porque ficou sem TV. Da noite pro dia, por conta do vento forte, a parabólica rodou que não pegava canal algum. Pra piorar, gastou um dinheirão com escada pronta.

O terceiro dos homens, esse plantou uma pereira. Foi podando de tempos em tempos, acompanhou o crescimento da planta. Confirmou na internet a época certa pras peras serem colhidas. Cortou galhos e preparou a madeira, fez a sua escada. E curtiu comer no pé uma fruta mais gostosa que a outra.

Ô caminhada.

Ainda que não tenha ido muito longe com o domingo, justamente, salivava azedo o creme de leite das goiabas da cachola.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Aqui e agora

 

Aqui e agora

 

Muito bem. Pelo acaso, digamos que você tenha estado num lugar dos sonhos, um bom paraíso, com tempo firme e instável, calor e frio, sol e lua, ipês floridos na mata ribeirinha e grama boa para uma cabra aqui e uma vaca ali, fora as galinhas pros ovos benfazejos nos galhos de limoeiro, laranjeira ou abacateiro, menos na araucária apinhada de pinhão, que o inverno merece café com pipoca. Já ia pondo de lado a casa híbrida: pro frio de julho, tem a parte de alvenaria; e pro calor de fevereiro, tem sala e cozinha de madeira, nada mais comum de achar em muito interior por aí adentro. Puxa vida, parece que sua televisão, sua geladeira, a sua máquina de lavar roupa, o seu ferro de passar, o telefone celular, o microcomputador, o micro-ondas, e todas aquelas bugigangas não mencionadas, tudo dispensável, por falta de luz.

Mas tal prosperidade, assim como veio, evaporou-se.

Você está de volta ao seio da civilização, de acordo com o modelo de um ocidente europeu com toques asiáticos e africanos. Todavia, o regresso deixará de provocar dores e espantos abissais, passando-se por cima de sutilezas e pormenores que particularizam cada pessoa. Grosso modo, há de ignorar vieses.

Ter sua vida posta outra vez nos eixos do progresso irritantemente tecnológico, da ordem monetária especulativa, dos modos massivos a ditar o errado pelo certo, das coletividades maquiadoras de indivíduos e de um estado demográfico que endireita. Em outras palavras, terá você tirado a sorte grande de ir viver de novo no hospício controlado pelo Simão Bacamarte erigido em contraindicações, por dar excesso à razão ou abusar das ervas?

Nestas circunstâncias, alguém diz para você que o tempo passado longe da sociedade tem que ganhar corpo em histórias, e contratos já começam a pedir autógrafo nas linhas pontilhadas, e roteiros já levam em consideração podcasts, lives, curtas e longas metragens, novelas, séries para maratonar com a família, entrevistas exclusivas com meio mundo mais seu pai.

No meio desta avalanche de situações bastante embaraçosas pra você, que nunca antes tinha se tocado da importância de cultivar uma fama própria, você acha redundante a insistência e a persistência de perguntas e mais perguntas sobre a mesma coisa: a vida numa ilha.

Sua existência era mesmo alienada. Fora do padrão definido pela régua dos costumes, dos consumos, dos comportamentos. Esta sua estada temporária à margem da vida plena, você não se alimentava de vaidades e tagarelices tolas, fúteis, acondicionadas pelo efêmero. De fato, ela era deveras de outro mundo.

Já pra cá!

Mas, pro futuro financeiro dos vendedores de sonhos acessíveis a quem sem vocação para engendrar fábulas tão diferentes do lugar comum a toda gente, fazendo bem rapidinha uma revisão mental...

Se não tem semente, jabuti não come jabuticaba.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Queima de escroque

 

Queima de escroque

 

Quando impensável, o inacreditável sai correndo sem ter apertado a campainha da velha senhora farta das brincadeiras de criança. Para evitar precipitações estapafúrdias deste quilate é que existem carros de publicidade: vendendo, por escandalosa pechincha, suas pamonhas de digna procedência, suas cartelas de ovos de galinhas otimizadas; comprando, por um preço muito assombroso, ferro, aço e alumínio de natureza pura, casta e imaculada. Ainda bem que o incrível acontece de vez em quando, como exceção bem-vinda, pois a tal da monotonia chatonilda não iria provocar nem um sorrisinho miserável no cidadão atarefado com o pouco sal no arroz sem bife, com batata morna. Para que a rotina pasmacenta seja pega de surpresa: bem na cara de toda gente, passa aquele veículo inconfundível: em cada uma das laterais traseiras há um espetaculoso painel de recursos gráficos circenses; invisível aos olhos, mas auspiciosamente audível, o fino da novidade derruba todo e qualquer óbice com o choque de ir vociferando:

A MAIOR ÓTICA DE TODOS OS TEMPOS!

A maior. É sensacional. Agora, sim, os reais já estão coçando por armações de nomeada, lentes sensíveis, estojos agradabilíssimos, e aquele atendimento do balacobaco, uma vez que, por suposto, todo e qualquer freguês bem o mereça.

Até se pode discutir a potência de uma visão cristalina, correndo o risco de algum desapontamento, por gerar tristezas opacas, preferível fingir-se embasbacado com o céu magistral, sem enxergar os urubus que seguem completando círculos contínuos, centralizando antes do mergulho verticalmente cirúrgico, no alvo.

Urubus atacando feito águias, falcões ou gaviões.

Sim, transmutações acontecem. Mas os olhos precisam acordar.

E o que dizem do mundo os olhos realistas?

Sobre urubus. Pra angariar fundos, com fúria animal, caçam ratos míopes, abatem preás astigmáticas e desvisceram víboras ceguetas. Gananciosamente, no ataque.

Padronizados no bom-tom dos efeitos, não só razões amealháveis despertam tamanho furor nos urubus, leia-se, nessa esquadrilha tão funcionária que acaricia balcões, acalanta cartões, seduz cifrões.

Vendedores têm fome. Deles, os maiores endividados endoidam diante da clientela. Assim, farejando algum bolso com forte tendência a abocanhar logro como patacoada irrelevante, assanham-se com as ofertas.

Dentre os consumidores, por sua vez, há que se destacar aqueles com sede dos mais inebriantes sentimentos, de coração sem fundo a palavras gentis, gestos afáveis e olhares convidativos.

Embriagados por ouvidos românticos, colhem do luar o orvalho de jasmim; da enseada, o murmúrio relaxante; da praia, o torpor próprio a enlaces lúbricos, aos enamoramentos esvoaçantes.

E a luz no fim do túnel?

Tem desejos que torram a alma com os olhos da cara.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 21 de setembro de 2020.

domingo, 20 de setembro de 2020

O chão do amor

 

O chão do amor

 

Dispenso ao tolo perguntar: o Brasil ainda existe?

A hora é grave, a mim não me convém responder pelas pessoas. Por gravíssima, aliás, nem mesmo hei de ousar resposta, qualquer ou específica.

Especializada. Particularizada. Meticulosamente, organizada.

Por brasileiríssimo, erraria, todavia, ao privar-me dizê-lo: este país está na fauna e na flora; pelas relações alimentares em inter-relações intempestivas ou extemporâneas, organismo vivo.

Fixe-se a ideia.

O micróbio que luta neste estômago murcho (mesmo que forrado de vez em quando) come o bife que apressadamente mastiguei (com os meus possantes dentes: obturados ou postiços) no almoço com os respeitáveis representantes (pessoas a pôr ordem às semânticas) da sociedade, em algum evento (civil ou paramentado) digno de menção numa de minhas recentes notícias (cronicamente assimétricas, posto que resta a mim escrevê-las ou padeceriam no vazio) ao mundo, para que se mantenha funcionando, com milhões de milhares de bactérias (mais os bilhões de seres nanométricos) a trabalhar (reputo possível a interferência do que, ô vida, aspiro) pela realidade.

Porque é justamente aqui, definido por longitude e latitude, que há tal chão florescido substantivo que bem o nomeia único: Brasil.

Não fraquejarei. Ainda que a orquídea de tantas contendas muito evocadas interrompa o trânsito de tantas timidezes, terei franqueza.

O momento é decisivo, e decididamente é preciso dar um basta, e que seja bastante efetivo. Faz-se a hora de avivar o pensamento; dar corpo próprio ao entusiasmo; amá-lo casto no visível das uniões; ao palanque do Chuí ao Oiapoque, trazê-lo palpitante; coordená-lo mais otimista; louvável de jeito e maneira; com a cara de muita gente.

Quando falo de gente, ando falando de quem?

Gente, em demasia sofrida, assaz brasileira na variedade de suas esperanças, adrede impávida apesar das derrotas, álacre jovial nos seus pecadilhos, verdemente imberbe pros fios gris da vilania.

Avante!

Venha à luz o sol de Ipanema. Suba ao luar a viola pantaneira.

O país livre de promessas precárias. A nação libertada de alianças predatórias. Pátria libertadora que refuta o boçalismo das castrações.

Basta de espasmos ácidos, flácidos e ciclotímicos.

Faça-se ao justo a honra do amor ao próximo. Possa o operário as obras de uma vida saudável. Colha o rizicultor mais que a palha das suas tarefas. Cresça no tíbio a voz da sua confiança. Que a juventude abrace a senectude sem roaz desafeto.

Neste instante de palavras sinceras, a honestidade desta verdade: é estúpido dar megafone a quem surta na calada do susto.

Não há mágica que esconda no truque o turbante do falaz?

A verdade seja dita. Seja, de fato, explícita. De fato, óbvia.

Que eu grite; que você possa gritar; por isso, então, gritemos:

─ O mocotó é nosso!

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 20 de setembro de 2020.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Viola ensolarada

 

Viola ensolarada

 

Tocado pela vida, toca-a.

E percebe, deve estar ultrapassando algum limite, o do bom-senso talvez, ao admitir que topa fazê-la soar de alguma forma menos árida, de algum modo mais harmônica e de um jeito todo seu. Já intui em si a mão dourada da fortuna a convertê-lo em ouro, e sorri.

E sente, está nele vivê-la ao vivo, em carne viva, sem ensaio, no improviso da alegria e na satisfação do solo. E aberto a duetos, trios, quartetos e, enfim, a uma orquestra inteira que venha portar-se junto, incluindo-o. Toma parte no que toca, bem feliz.

E aprende o tom. Faz-se um instrumento afinado. Busca o primor na execução e na audiência, a primazia da fruição. Pode aplaudir-se, captando a melodia: passivamente ao acompanhá-la e ativamente ao compô-la. Sua, que a apresenta da partitura ao diálogo.

Apreende horizontes enquanto respira.

Há decisões que o espelho cobra-lhe e, entretanto, nem água lava ou torna mais leve. Há mensagens por demais transformadoras que o abalam, obrigando-o a levantar o queixo, e encarar. Há especulações inadiáveis, cujas premências definem outros rumos, e os acolhe como norte, e pedem perspectivas diversas, e as vislumbra desintoxicantes.

Então, reconhece: há sombras que se dissipam, voláteis; há rugas que se manifestam, maduras. Entre feroz e cordato, há de viver sem usar os cacos para rejuvenescer ou mascarar-se ingênuo, inocente, inconsciente. Mas sangrias entortam a vida, e cabe a ele vivenciá-las iluminações rutilantes. Perde-se; acha-se. Por sujeição; por sugestão. Há apuros que depuram. Há apupos que envaidecem.

E compreende o que entende, pois assume o posto ao qual acorre quando possesso, distraído, tonto ou centrado, uma vez que, se bem se mantém, a toda hora, a todo momento.

Lá está o farol pulsando aquele eco de luz que o arremata do mar de desespero no qual se vê abismado. A âncora da realidade não o encontra morto nas certezas e petrificado na constância, afogado nas tristezas que o acovardam.

Disparate: o alarme de emergência do elevador está doidinho.

Embora vindo sem pedidos de socorro, acolhe e deixa-se acolher. O aleatório acossa, incomoda, seja pela estridência monstruosa, seja pela reprodução caótica; suscitando-lhe uma dependência emocional, uma carência bioquímica, o aprendizado do imoral.

Astuto, filtra a sobriedade ao trocar sol por dó...

Tanto age pra fora quanto reage por dentro.

Como imbecil, rasga a pauta; fanfarrão, coloca fogo na lira; burro, bate suas patas na terra em que circula, à beira d’água. Se tem sede, não bebe. Com fome, não come. Dispensa a onda, e não surfa. A vez não vem: tasca pressa, e mais acelera.

E agora? Brigo comigo por que me desobrigo do futuro?

Bastante infeliz, abre os olhos, escancara a janela. Escuta melhor: o tropel dos passarinhos ajuda a livrar do cativeiro o amanhã.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 17 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Passos da estrada

 

Passos da estrada

 

Isso é ridículo, eu sei.

Mas, digamos que você não tenha dado a devida atenção, como quem chupa uma bala grudenta, talvez uma toffee que toma os vãos todos dos dentes, com artimanhas de felicidade acelerada, só que vai indo contra si, contra o prazer do desfrute, daí vem este resultado que derruba o entusiasmo, numa frustração bem irritante.

Isso é constrangedor, eu sei.

No entanto, se você pensasse com um pouco mais de parcimônia, como quem ao vir um uniforme não divise a violência nem o risco de morte, enxergaria nitidamente a ordem seguindo um poder natural, de atendimento às suas, que também são as suas, regras e atribuições ─ de manutenção sanitária, gestão administrativa, vigilância social.

Isso é assustador, eu sei.

Todavia, será possível que você possa um dia entender o quanto o mundo tem vida própria, como quem dispensa os motivos de uma pedra afundar na água, mesmo que o copo seja pequenino, com uma diminuta profundidade; mesmo que o aquário esteja turvo, com baixa oxigenação; mesmo que o rio passe pesado, barrento, com horrenda exposição de cadáveres, desde uns galhos ressequidos às cadeiras berrantes de plástico; pouco importa o quanto haja de vontade de não ir pelos caminhos de sempre, ainda vai.

Isso é coisa que não se diz nem mesmo em público, eu sei.

Contudo, os galos ainda cantam, como quem abomina atrasos; os pardais seguem avançando a manhã, como quem lota trens e ônibus; as margaridas labutam sem trégua, como quem recolhe das calçadas o que, sem piedade nem misericórdia, os toscos teimam em vomitar diuturnamente, para o delírio de tantas gentes.

Isso é nojento, eu sei.

Certo, nunca se deve duvidar da própria sorte, como quem dá por perdido o que sequer está em jogo ─ a plenitude do desejo, a audácia dos sonhadores que despertam por conta própria na hora certa; como quem colabora com o inimigo, movido menos pela vingança, na frieza calculista que deixa a sopa esfriar, mas por desânimo raquítico.

Isso é lamentável, eu sei.

Embora seja o que seja, é preciso abrir a janela antes de sair para o tempo; é recomendável destravar a porta para receber a dignidade dos visitantes que pedem água; é preferível ir com aqueles que não desistem de cantar; mesmo atravessando o coral, como quem tem a espinhela pensa, numa tensão de querer andar um passo à frente, só que redunda em curva, e vai, pensando conseguir um passo a mais, vai e, justamente quando nem espera, chega, está de novo às voltas da partida, como se em todo fim brotasse o começo.

Isso é política, eu sei.

Porém, peço que parem os arremessos de copo no rio que sopra sua canção de melodias conflitantes, que canta sua ode ao confronto, que ignora quem o observa, à margem de si, à parte da vida, mesmo no mundo, constrangido a negar-se como parte interessada naquilo.

Sabe-se bem que é de matar, essa tragédia.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 15 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 13 de setembro de 2020

Um caso sério

 

Um caso sério

 

Protocolo: 064/6901690451-51.

Usufruindo das mais perfeitas condições de sanidade, portador de idade superior a 21 anos, residente e domiciliado nesta presente casa em que habito, divulgo o número acima para que a operadora da rede de internet não fique perdida ao me chamar de mentiroso, permito, de fato, o acesso ao conteúdo gravado para todos os indevidos afins.

Aqui, passo a transcrever o diálogo, ipsis litteris, conforme alguém relapso franqueou-me vítima do testemunho, logo a mim que estava apenas interessado em saber se havia problemas com a linha.

No momento da ligação, eis o que pude escutar de bico calado:

─ Tem neurose que dê sono?

─ Tenho.

─ Então, me veja duas.

─ Duas? O sono é um só.

─ Ando numa dureza pra pegar no sono.

─ Uma só já basta. Pode dar overdose.

─ Overdose é pros fracos. A minha insônia tem saúde de ferro.

─ Então, vai dar ferrugem. Meu dever é antecipar o perigo.

─ Abono de Natal é que vem antecipado.

─ Não, não. O que chega antes é quem vence.

─ Ao vencedor, o sofá. Eu sei, por isso preciso cochilar logo.

─ Depois, vem reclamar que dorme pouco. Custa dormir de olhos abertos? Por que não tenta puxar ronco de barriga cheia?

─ Depois do almoço, vou ao supermercado. Gasto menos, porque a cabeça precisa aprender a respeitar a listinha. Nada de correr, nada de comer arroz carunchado, pois ninguém merece.

─ Que chique pedir neurose pelo telefone, hein?

─ Chique uma ova.

─ Ah! O senhor vai abater as neuroses do imposto de renda...

─ Sabe, né? Como a carestia voltou a colocar as asinhas de fora, então, a gente tem é que se remediar com o que está à disposição. O leão ruge alto, mostra as garras, porém lambe, manso, de um jeitinho todo manhoso. Assusta quem não tem plano nem acesso à saúde de qualidade. Enfim, como a vida não está nada fácil, a gente precisa de comprovante, seja da terapia personalizada, seja da medicação vinda manipulada do exterior. Aliás, remédio em dólar custa uma fábula, daí a doença precisar de nome complicado e ser rara, raríssima. E tenho que pedir a nota fiscal do programa de código autêntico, com o selo original pago na fonte. Afinal, até o software deve ser caro, caríssimo.

─ Quer que mande por SMS ou pode ser por e-mail mesmo?

─ Depende.

─ Como assim? Depende do quê?

─ Tem angústia que desça fazendo estrago goela abaixo?

─ Oxe! O senhor vem com complicação atrás de outra, hein?

─ Pois é, menina. Além de neurótico, ando compulsivo, querendo achar angústia onde a curva molda o vento.

─ Ô diabo!

Notaram a gravidade do caso?

Em resumo...

O que pesquei da prosa alheia, cuspindo o fogo da farofa cheinha de paio avivado por cominho macerado por indicador e polegar, mais a pimenta dedo-de-moça colhida de noitinha na horta da vizinha, foi o luar de quê, mesmo?

Ora, neste pirão gorado, o acontecimento em tela delata:

─ Quem entornou a papa não foi o freguês.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 13 de setembro de 2020.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Umbigo de fora

 

Umbigo de fora

 

De férias da feira, a fera se contenta fútil a perguntar o fácil: o que colhe Narciso de sua reflexão em água rasa? O mais profundo do ser está à flor da pele, em contato com o ar que o abarca sem novidades. Afia a voz como se se desafiasse a desafinar à hora em que dispensa o melódico? Foge da beleza de deslocar a tônica a lugar inesperado. Palpita a reverência, busca o uníssono. Serve de fonte à decadência. Mascara o eco da monotonia oca que o sustenta.

E o trem da vida? Na banguela. E a calma dos desesperados? No olho do furacão. E a mulher do padre? Uma santa. E a hora que não passa? Um porre. As loucuras do pinguço? Nem pro santo. A lágrima de crocodilo? Falso brilhante. Mundo véio sem porteira? Pela hora da morte. Onde Judas bateu com as botas? Nem grama cresce. O certo por linhas tortas? Só Deus sabe. E isso mais aquilo? Noves fora. E a conclusão a que se chega? Mal aguentamos.

Dando sinal de vida, o maestro sobe dos camarins.

Sempre atrás de negócios da China, o sínico. Sempre à frente do seu templo, o trapista. Sempre de mãos abanando, cheio de dedos. Sempre com o pé nas costas, tão cabeça. Sempre que pode, pede. Sempre que pede, força. Sempre o tal que mostra a cara.

Sempre?

Primeiro, quando sentado entre os amigos, geralmente depois que dois ou três já tenham elaborado suas falas, ele entra em ação. Solto no jogo, dispõe-se a encerrar quaisquer assuntos. E sem polêmica.

Entretanto, à sua varinha, arma velha de batalhas vencidas, falta a potência pra reger sistemas solares e orquestrar universos paralelos.

Improvisando aprovação ao espetáculo, os vacinados sorriem.

Noutras circunstâncias, nas reuniões em que se vê entre pessoas que não o conheçam, o arranjo da vez o faz sorrir. Sequer disfarça o contentamento. Com a seriedade dos graves, despido das verdades trágicas, inocula nos presentes a mais autêntica das modéstias.

E como o apraz estar aí, no centro. Adora pôr o círculo a rodar na velocidade das graças alcançadas. Pela vaidade atendida, muito sua, remedia-se dos desgostos do mundo.

Precisa de paz, ou a gastrite aperta. Bebe da vida o néctar do mel, ou o assombram os contrapontos. Antenado, capta notas do convívio pra compor turbilhões perigosíssimos; e para salvar do naufrágio, tem boias e coletes. Cativa aplausos. Ao fim, convence seu público com a segurança dos profetas: o tempo não para. A audiência anui: o tempo a tudo cura.

Assim, curados e curandeiro tomam chá, dão-se com biscoitos e polvilhos. Pois o momento, essa arapuca às jubartes desorientadas, leva pelas barbatanas desgarradas às areias surdas ao vento.

Caraca!

No palco, e sua mente de prima-dona arranja presto os sustenidos e bemóis, certifica-se atônito a entregar louros estúpidos a um outrem cuja luz de novato ofusca só porque anda exibida.

Como podem aclamar quem arrebata a ribalta alheia?

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 10 de setembro de 2020.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Sexta básica

 

Sexta básica

 

Seria um dia muito especial, diferente dos outros que tivera até ali, mas não veio a sê-lo em nada raro ou inesquecível. Tão comum, bem arroz com feijão mesmo. Uma sexta como outra qualquer. Sem correr tomar chope no shopping e sem ir deliciar-se com uma pizza a duas quadras de casa. Em sendo o sexto dia depois de outros cinco todos iguais entre si, acordara clamando experimentar a fartura de delícias, sonhos tornados realidade num piscar de olhos. Contudo, as quintas partes prevaleceram sobre a sexta, decepcionando, postergando que viesse o desigual no sábado, a sétima fração que viria inédita, com a sensação do nunca antes vivido na história desta pessoa. Fosse, que a antevéspera do domingo, então, rompesse o cerco da normalidade e retirasse da cesta o básico de sua mediocridade, daquela mediania ordinária, do igual ao semelhante.

Pagar o preço da sexta básica do caramba?

Queria cair fora do coro do banal contente consigo próprio. Queria o tom fora da chave. Queria a dissonância criativa. Não iria querer um negócio reprodutivo como aquele: mais do mesmo, mesmo.

Desejando o desafino da esperança.

Isso! Entre o esperançado e o esperançoso; entre o desafinado e o desafinando; alcançaria o microtom que afinasse o intervalo da nota vinda e a que virá. Pelo diferencial. Pela beleza que foge ao lógico da coisa harmônica, mas se faz estável o quanto pode.

Estabelecendo-se como estabelecido, no ponto intermédio entre o iminente e o evidente. Aristotelicamente compreensível no equilíbrio, a meio caminho, entre extremos. Penso o meio conforme o proposto pelo grego em Ética a Nicômaco. A temperança como virtude, desde que moderadamente tensa.

Quero ir pelo sensato, e mensuravelmente outro.

Que me seja possível ir, prosseguir, perseverar. Indo sem desistir, apesar de mim, que muito me aborreço, me distraio, me deixo perder no fastio, na prostração, no pusilânime da frustração.

Que me faça acontecer, que consiga dar-me ao provável a que me julgo destinável. O destino que se faz destinando-se a ir, soando ativo o som a guiar, a tonalidade a orientar, a tônica a modular.

Tal processo, qual possesso.

O ouvinte na posse do sentido que percebe o que ouve. O audível a refinar a ação em plena ação. O agente consciente que faz da ação uma reflexão do ato de agir. Passivo na atividade da concepção de si, no ato de estar a vir. Ainda que se atenha previsível como um projeto ─ com planejamento anterior e avaliação posterior. Como a vinda que está por vir já vindo. Os sentidos dão sentido.

Se sei de mim pelo que sinto?

A espera que se faz esperança faz o agente da mudança fazer-se. Agindo, sofro a ação enquanto ajo. Embora o mesmo, outro.

Fraco de sorte, forte de palco...

Cantando, faço soar um quê de Ariano Suassuna com um quê de Paulo Freire. Manifesto ser esperançoso esperançando.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 08 de setembro de 2020.

domingo, 6 de setembro de 2020

A retomada

 

A retomada

 

Acordar sem despertador; tomar café ainda quente; trabalhar com ânimo ─ sabe-se o quanto este processo dignifica. Portanto, não seja negada a satisfação de revelar alívio ao ter de volta a normalidade.

Dito isso, a alegria de admiti-lo em público que o normal do mundo está em casa outra vez, que a hora dite os seus problemas. Quê?

Guardiões de ramela saúdam o carioca das caspas ─ noticiam.

Ocorre de pronto: quanto custa uma decepção?

Com os abatimentos do desdém, as tristezas da vida têm recorrido à peçonha que as adensa. Surdo ao próprio discurso, o desalentado ofendido faz por ídolo o pastiche de fala cristalina, em fundamentos e palavras. Dando a entender que há acasos benéficos e há saudades reconfortantes. Ideia construída com palavras ajuntadas, afins e aptas à toada que, com ar de espontâneo, mais entristece.

Que cantam os macambúzios?

Café com açúcar reconforta. Sentimental, a lágrima furtiva rola.

O coração tem rejuvenescimentos quando apaixonado, ou tocado pelo som de promessas que nunca serão executadas ou movido pelo otimismo de uma composição transformadora que mereça repetições, portanto comete o devaneio da esperança.

Intensa, embora breve; modorrenta, embora pulsante.

O tempo reage a expectativas.

Mesmo que se aja com elegância: negocia-se valsa com minueto; barganha-se o candelabro com o castiço das iluminações. Para que a luz ganhe em nobreza, projeta-se mundaréu a pobreza.

A parcela da parte liberta a unidade do uno.

Ao fim e ao cabo, se ainda há esperança, eclode a dor; e aviltada, torna-se desespero ─ cujas duração e intensidade são maiores que o desejo. O aquando das primícias: pra já!

E ter a saúde mental comprometida, afinal, para que o sofrimento tenha a acuidade do incontestável, desenganos devem acutilar.

Assim, à câmera, sorria. Isso, siga sorrindo.

Para que a ilusão predomine, a punhalada mais doída não sangra. A lâmina fere alguma derme suscetível a tormentos, no cérebro.

A eletricidade despertada pelas emoções, que afetam a percepção do sentido, altera a pessoa pelo humor. Trema por distração. Deixe a abnegação sonhar o que retorna. Com placidez, conviva.

Sim. Melancolicamente, a vida falha.

Veja (sempre se há de precisar insistir nisso) somente o seu lado, do coração partido a caminho da restauração. Então: presuma, peça, cobre, dobre os joelhos, oriente a respiração.

A dor humaniza; modesto, não abuse.

Sofra convicto. Não deixe morrer o grão do espetáculo decorado. Teste positivo para o melodramático do corpo, tão misericordioso em teatralidade. Ansiando outros gregários, aconteça.

Sério, prefira arrependimentos a vacinas.

Sem banalidades que a alimentem, a retomada empaca. Quem dá trela a digressões políticas perde a cerveja à mão e coraçõezinhos no espeto.

Há tanta realidade pela frente.

Viva!

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 06 de setembro de 2020.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Olho por olho

 

Olho por olho

 

Pornográfico! Está na cara.

Presumindo que, em algum lugar menos raso que minha cachola, haja uma explicação simples pros tumultos morais que muito têm me aturdido ultimamente. Entretanto, por mais fácil e bem simplório, jogo no colo da pandemia a insensatez que me ouriça.

Que o faça com arroubos pudicos...

Por estar sob os efeitos desse mantra narcótico: cercado de zeros, uma nulidade ganha o centro do desprezo. Por deslealdade a quem me conduz à aliança de bem-estar e paz de espírito.

Desancora-se o barco.

À deriva das verdades da TV, brota em mim um quarto lacrado, de sondagem complicada, em cujo solo encoberto por imagens incertas germinam obscuridades de náufrago.

Sofro, consigo respirar.

Imprescindível, ao explícito da configuração, da névoa à sombra, a luz do sol vencer a janela cerrada, ultrapassar a moldura das cortinas sobrepostas, sair pelo fundo daquele olho.

Seria pela barragem do olhar do mundo exterior que a vida sorriria sua normalidade torta. Conquanto fosse prosaica, com os avatares de heroísmos canhestros a arrastar os pedestais pelas calçadas já muito atormentadas.

Convidado de pedra? De perturbações físico-químicas.

Com previsibilidade, havia dias os fatos emocionavam, ungidos de contradições atordoantes, eivados de deslumbramentos.

Abria-se, ainda que lhes faltasse a compreensão do absurdo, uma realidade domesticada por afazeres boçais e rotinas imbecis.

Tem algo errado.

Então, de vez que se diga, fingia-se o bem composto.

Nauseabunda composição que notícias detalhavam com tão fúteis pormenores. Aninhando-se na praça os bancos, as pombas e idosos a dar de comer às preguiças de pálpebras cediças.

Mas, a vida como ela é dispensa comunismos sem classe.

Cresça a cortiça. Tape-se o mortiço.

O que fisga a mediocridade do idiota?

Apregoa-se: democrática, a voz que opine pelo aprovado; popular, o tom a ecoar o refinado; autêntico, o canto que não muda nada.

A quem rico, o desfrute; ao contrário, o acinte. Besteira, e besteira pega fácil no chão dos ignorantes. Já não angustia quem argumenta. Não é a fome, é a cunhada. Choram professorinhas humilhadas, com alunos batucando seus fantasmas.

Querendo ver-se alegre, não dorme. Pede por outra sorte, menos indigesta. Tenha braços, deseje beijos, permita entalhar os corações esperançados.

No reino dos homens, o banal corre perigo.

As retinas cobertas pelo ordinário. A gramática do horror na linha dos olhos. A agulha oscila. A fortuna vai atraindo cardumes. As redes esgotam pargos. Embora imersa no sal, a carne apodrece. Pensa no marujo vomitando no convés. Renega-se tanto, que exagera. Navega melhor o marinheiro que delega norte aos ventos da própria ventura. Confuso, quer-se amarrado ao mastro. Neblina que saliva, afoga-se.

À flor do abismo, tão só, o obsessivo ri.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 03 de setembro de 2020.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

A par dos fatos

 

A par dos fatos

 

Domingo.

Sensível. Uma sensibilidade tal a pedir que lhe seja dada a virtude de explorar-se. Mesmo que mais confunda. Que nem gente roncando sob o ipê, frondosamente azul. Vencido o inverno, faz primavera além do calendário. A matéria respira, e a artéria encavala. Desespera-se o cão com tantos cinismos. Há abismos rosnando caninos. Tanto teme o tempo que se liberta. Libertado, liberta ─ não quando quer, quando ama. Amor é vírus que fortalece quem ama. Drummondiando, em sol maior, a pele geme: “amar se aprende amando”.

 

Segunda-feira.

Por pouco entender de economia, fazendo a ressalva de chamá-la prospectiva, com um quê de sabedoria em construção, com fortíssimo viés de verdade alternativa, sem jurar sobre o leite desnatado, pondo render o que não acumula energia, estimula-se a emitir a sua opinião: “a conselho dado não se arregacem os dentes”.

 

Terça-feira.

Com o mundo de cabeça para baixo: furar o teto não leva à China nem lava a criança na bacia das almas. Nesta canoa furada, fanáticos pregam sua matilha de terror. Lobos de lodo enfrentam moinhos com flores de lama. Uivam: “só valentes combalentes caem de pé”.

 

Quarta-feira.

Como o medo manda recado pelo desejo que me descontrola, dou um tempo. Paro na pista. Ouço o vento, especulo estrelas. Entendo o que quero como quem compreende. Há em mim um outro, esse um. Para endossar o caldo, esboço: “nem toda rã come sapo”.


Quinta-feira.

Por um mundo melhor, o honesto labuta: de sol a sol, de grão em grão ─ até que a morte o separe dos seus. No melhor dos mundos, o safado matuta: de lábia em lábia, de cabo a rabo ─ até que a sorte o separe dos seus. Como o mundo é girassol em céu nublado, o pacato capota, entrega os pontos, rói certo o osso torto de roer ─ nem vê que o norte guarda o que o separa, no sul. Cá entre nós? Movido a álcool, enche o tanque no bar da esquina. Lá entre eles? Destila ódio quem bebe fel. A temperatura sobe, a pressão varia; num pigarro, tudo?

Ê pindaíba: “espírito de porco encarna fácil em corpo mole”.

 

Sexta-feira.

Vida: dor que não cicatriza; exposto júbilo que cresce dentro. Que o sangue baile, o suor dê calafrios, a boca rodopie, os pés azedem.

Quando o frêmito arrepia mais do que um tenso tormento, há raios e trovões. No súbito do olho da cólera, o marasmo parece ignorar que qualquer “fogoso no gatilho torra logo o contracheque”.

 

Sábado.

Se não há céu todo azul nem há mar todo sal, a enseada da tarde que tanja seu alaúde. Nem mais nem menos. Já a cotovia? Ela cante, desencante: Todavia... Todavia... No verão da andarilha, a chuva vem de repente. Dona, cubra a tristeza com o lenço. Veja, toque, aprecie.

A beleza do bordado parece um nó cego na linha d’água?

Eu posso, ela possa. Eu passo, ela passa. Eu poço e ela poça. Eu moço e ela passa. Daí já é demais, feito negar de imediato que “ideia boa nem cócegas faz em cabeça oca”.

 

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 01 de setembro de 2020.