Paciente
Por causa do lançamento do filme Megalópolis,
há uma entrevista de Francis Ford Coppola no Estadão, nela, depois de
dizer que a arte existe para que as pessoas entendam o mundo em que vivem, vem o
trecho: “talvez as pessoas estejam sendo deliberadamente mantidas infelizes para
que sejam melhores consumidores”.
Embora me aborreçam os cães latindo ao
gato sentado em cima do muro, percebo a ideia ― a felicidade produz bem-estar e
o bem-estar tranquiliza da ânsia de querer-se o que ainda não se tem.
Eu digo que ânsias podem engulhar e não gosto
de prender-me às náuseas quando as sinto, e boto fora o que enoja.
Em outras palavras, há vômito que produz
bem-estar e nem por isso anseio vomitar, pois o que não tenho não me acelera o passo.
Com os bichos dispersados pela bombinha que
atirei aos pés do muro, paro em querer-se o que ainda não se tem ― é a
esperança.
Para Nietzsche, a esperança prolonga o
suplício dos homens, pois ela é um mal. Quando Pandora destampa o jarro, os
males ganham o mundo; e no jarro novamente tampado, o mal que resta é a
esperança.
Mudo de ideia: as pessoas talvez gostem
de ser mantidas infelizes para que gastem dinheiro com o que possam comprar; embora
estejam infelizes, elas têm escolha, elas podem comprar.
Quanto a mim? Eu compro livros.
Na sala, há duas paredes tomadas por
livros. Iludo-me que lerei a grande parte deles, mas o que me enfada é responder
que eu não terei tempo para ler tudo.
Alegro-me, e penso que engatinhei ao que
podia alcançar, passei a ficar de pé pelo que tinha vontade de ter nas minhas mãos,
banquinhos ajudaram a ver acima o que tanto me interessava e desejos levam-me à
escada para pousar os olhos naquilo que eu leio.
Que parvoíce a minha.
É claro que alguma vertigem virá
interromper a leitura, pois ficar no alto da escada haverá de despertar o
receio de desequilibrar-me.
Quando leio o que me irrita, mais
desequilibrado eu fico.
E não me refiro a personagens que, às
escâncaras, agem contra a moral da maioria ou àquelas que, em surdina, trabalham
para si apesar dos prejuízos que causam a esta ou aquela pessoa.
Parvo, me sinto bem mesmo um tanto insatisfeito.
Compro. Folheio. Ponho na pilha do que
pretendo ler em breve. Fico pê da vida, quando espano. E quando estou obrigado
a espanar o livro que acreditei que leria tão logo o comprei, é aí que fico bem
fulo.
Fulo e muito puto, fico bem mal.
Mesmo mal, estressado, continuo a agir
como se houvesse de ficar bem. Mesmo comigo assim, mal por estressado, acho de
comer.
Vou comer um pãozinho. Saio comprá-lo. Entro
na fila. Sempre tem uma fila quando preciso do pão para satisfazer-me,
sossegar-me, para que me tranquilize a fome que não sinto. Sim! Sempre tem quem
fure a fila. Sempre há quem reclame. Sempre há quem olhe pra mim. E tem gente
que se irrita ao ser ignorada.
Hein?
Porque aprendi a suportar, aguardo minha
vez.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 31 de outubro de 2024.