domingo, 21 de abril de 2019

Mão na cumbuca


Mão na cumbuca

Há 14 milhões de famílias brasileiras que recebem, e realço que devem continuar a receber, o Bolsa Família. É distribuição de renda, discutir sua importância deixou de ser passional, pois o consenso chegou. Triste é saber que a correção do valor do benefício não é efetivada porque iria aumentar os beneficiários. Mesmo assim, palmas a quem deliberou pagar o 13º do Bolsa, porque os pobres vão gastá-lo por necessidade e, certamente, com gosto, traduzindo R$ 2,58 bilhões em utilidades e serviços.
As pessoas têm este lado solar.
Mas a minha passividade diante das contradições do mundo me faz condescender com aquelas gentes que pegam pesado comigo, e fazem-no para extrair o mel que trago escondido no fundo da cumbuca. Quem me põe contra o muro bem sabe que tenho muito a entregar à sociedade, só que o camaleão é-me estado natural de adaptação. Sobrevivo sem maiores dores de estômago, busco a convivência pacífica, longe dos extremos.
Reconheço que há pessoas modernas, atuais, humanitárias, que muito se ocupam de indivíduos com esta minha índole; são seres iluminados pela compreensão. A mim me parece que tais cidadãs e cidadãos têm a determinação de caráter que faz com que tomem, com agilidade de raciocínio e facilidade de partilha, o partido dos direitos, porque ligam para as circunstâncias em que é preciso exercê-los ou exigi-los.
Se a menina veste-se com roupas de menino, precisamos respeitá-la na sua vontade, facilitar os hormônios masculinos e prepará-la psicologicamente para a mudança física do corpo. Principalmente, por ela ter sete anos.
Não há exagero, há cuidado. Uma criança é uma criança é uma criança? O homem saudável está na menina amparada. E quem tem idade para separar o joio do trigo não pode abraçar qualquer infantilização ideológica que não respeite a diferença. Se não existe o respeito, o preconceito prepondera. E quem se gaba de não ter pré-conceitos faz estúpido o seu humanismo.
Convenhamos, contudo, que o manejo do fogo ou o uso da roda são úteis e necessários para a civilização. A enfermidade, assim, está na demasiada fraternidade.
Radicalismos, fundamentalismos, extremismos, não importa a postura nos campos moral, político ou social, se têm raízes à direita ou à esquerda. Toda leitura exacerbada do mundo leva a uma hiperbólica atuação. Parece-me desperdício de revolta, sem, de fato, ir contra o quê e quem oprime e reprime.
No afã de ocupar um papel relevante, a destacá-las como pessoas compreensivas, antenadas com mudanças, propensas a revisões culturais, certas lideranças legítimas e legitimadas, e me refiro a líderes religiosos, comunitários, professores, pais e mães inclusive, nem sempre estão capacitadas para enfrentar os desafios da nova ordem psíquica.
Assumir tais postos com tal entrega de paixão? Sem que se retratem autoritários, casuísticos e preconceituosos, e não por falta de seriedade, estudo, aprofundamento, análise de dados e comprometimento com ideias das áreas de saúde, psicologia, psicanálise, filosofia e ética, que isso, o perfil desmesurado, se dá. Estas lideranças, ao adotar esta visão política da tolerância absoluta, tornam-se: menos gentis porque onipresentes; menos eficazes, por oniscientes; pela onipotência, menos razoáveis.
Daí, diante destes luminares, pessoas de carne e osso que lutam por vaga na creche, batalham pelo emprego na padaria da esquina, guerreiam pela sobrevivência no mundo de robôs, elas acabam desenvolvendo repulsa, ojeriza, ódio.
Todas as pessoas precisamos aprender a escutar. Sem nos afobarmos a ouvir o que não diz quem fala. Precisamos pesar o que alguém faz sem adiantarmos os efeitos. Precisamos ter que outrem é outra pessoa, que até age e pensa como nós.
Diferenças devem ser valorizadas e não padronizadas pela régua da nossa alma. Ou seja, o bem-estar social começa pelo respeito ao outro, passa pela sensatez no convívio com quem discorda da gente, entra pela lucidez ao expressar o que nos comove. E antes da opinião vem a escuta; da organização das ideias, a escolha das palavras; a argumentação pró e contra o que quer que seja. Sem tabus, mimimis, vitimização.
Aliás, com a barba de quatro dias para mais ficar parecido comigo, não fico down quando tomam meus olhinhos miúdos como dica do cromossoma encantado. No entanto, não aprovo infantilizar quem porta a Síndrome. O excesso de amor impede pessoas com trissomia de desenvolver-se, divertir-se, estudar, trabalhar, passear. Sem a proteção castradora dos virtuosos, o Down poderia viver menos angustiado, e mais feliz?
Distraído do lugar onde fui nascido, quero o Nansen em cuja foto reconheça a minha identidade, sem ficar bradando contra os muros a dividir troianos de gregos, taturanas de lacraias, as begônias dos crisântemos, os diamantes das cassiteritas.
Os fatos não mentem? Talvez. Ou muito me engano.
Todavia, procuro não agir feito um imbecil, nefasto e nocivo. Nem pondo um dedo a mais de bom-mocismo no que faço.
Por acordos semânticos, fico de olho na semântica. Pois só entendendo o que se diz é que monólogos são rompidos. Por conseguinte, dialogam uma pessoa com outra?
Se o modesto faz pouco do muito que pode, apenas farelos, sob a mesa, restam aos humildes. Como é?
O mel, pelo que capturo da vida ao meu redor, não o fabrico por hábito, mas pelo desejo de fabricá-lo. Às vezes, por prazer, nego-me a compartilhá-lo; às vezes, por descuido, sei ofertá-lo. Pessoa, se lambo o mundo com todos os sentimentos, colho o imperdoável ao não-esquecimento. Sou de me melecar.
Pois, riso ou lágrima? Ambos, que chego a adorá-los.
E é em nome da liberdade de pensamento e da liberdade de expressão que... nada tenho a dizer à vida. Digo aos vivos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de abril de 2019.







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