domingo, 5 de maio de 2019

A reforma da providência


A reforma da providência

Como parece enxergar prender e aprender em apreender, ignorando que é preciso desbravar o caminho para entender-se com os contraditórios da metafísica, diz o pai:
─ Sem embromação, vamos falar direto às pessoas.
Contas feitas, malas desfeitas, viajando com o DESCONFIE DA CONFIANÇA afixado na porta, diz a mãe:
─ Direto à realidade, à leitura da realidade, ao que se lê?
Sem reconhecer que, de 1995 a 2018, foram mortos no Brasil, em função do exercício da profissão, 64 profissionais da comunicação, tantos pingos para um mísero i?, o pai diz.
Como, pergunta-se a mãe, uma personalidade ganha nome, sobrenome e toda uma vida de renome?
Amiga angustiada e amofinado amigo não culpem os pobres semáforos, as humílimas lombadas eletrônicas, os desterrados radares móveis ou as extemporâneas câmeras de toda sorte. É preciso dizer que muita infração cometida é da pessoa que, ao volante, age como um espécime jurássico. Além do mais, ilude-se quem acredita que esteja colaborando para a punição do cidadão ou da cidadã ao invocar o deus do trânsito.
No comando da envenenada motoca mental, e sem ligar de ficar feio na foto, o pai diz que gente ordeira não faz bagunça.
Já que precipitação e superficialidade não a caracterizam, e estando de olho no caminhão de postagens que, uma atrás da outra, congestionam as redes neuronais, certa de que a leitura superficial não está necessariamente ligada ao suporte digital, porque o tamanho da tela de um celular não é responsável pela fragilidade da leitura de quem lê, diz a mãe:
─ Tiro uma revelação ao confessor: realidade é ficção.
O pai vai logo dizendo: Saco! Ficar lendo com lupa. O tempo urge! Que o digam os 62 dias de pauleira na CCJ para admitir constitucional o projeto da reforma da Previdência.
A mãe emenda que não dá para ignorar as letrinhas.
Bastante incomodado, o pai dispara que os insatisfeitos de sempre, os chatos, é que ficam pinçando pinta fora do lugar em gêmeos univitelinos, isso é perder tempo, coisa & tal.
Sem abdicar de parágrafos, incisos e artigos, diz a mãe:
─ Não é conveniente conjecturar sobre o que se lê? Coisa & Tal, colhe desavenças quem semeia conflitos? Sei... Otário não leva livros no bolso; só o celular. Novidade...
Pouco familiarizado com bulas, o pai tasca aviar receitas:
“Melhor evitar a aventura dos mergulhos profundos porque a pressão só aumenta à medida que vamos descendo para ir lá escarafunchar a lama. Daí, texto lido com microscópio mostra o batalhão de bactérias, de coisa esquisita... Quem tem pavor de bicho é que sofre uma barbaridade. Que doideira isso daí!”
Paulistanos da Paulista, dentro de mim mora um bicho que me dá forças para parar um tantico nesta parada domingueira. Quando me quero asfixiado, tinhoso de magrela, apeio-me na minha, porque, na manha, não pedalo para viver pedalando.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de maio de 2019.

Nenhum comentário:

Postar um comentário