domingo, 29 de março de 2020

Tempo de amar


Tempo de amar

Ó bela luz da manhã, sol que ilumina. Faz abrir meus olhos, abrir melhor o olhar. Acaso insistisse permanecer no escuro, iria sem ver que tateara o ar que fugia, morcego que se encolhe emudecido? Se fosse ficar buscando reflexo em espelho opacificado pela visão ignara não sentiria o chão que toco, com pés nus a errar o caminho? O que não quero é dar-me como sobras; luto pra apoiar toque menos míope. Ó ânsia que confronta o vil, a vergonha, o abjeto, meu desejo é não ir de rastos sobre restos.
Sem me ferir com os cacos? Evito.
Não me quero mudo diante da realidade que me assombra. Quero sentir o espanto, me permitir à perplexidade, não à impotência. Quero murchar em mim o que for baderna, bagunça, balbúrdia.
Por que busco o inteiro? Reflito.
As palavras fogem? Convido-as a voltar.
Olho pros livros. Houve apartamento, em Santos, em que os livros brincavam pelo chão, tomavam conta do tapete, e corriam ir deitar-se ao lado da cama, subiam as torres comunicantes de letras, ideias, de sabedorias. Traçavam caminhos que se bifurcavam, se coleavam, se amavam, animais da liberdade bem à vista da minha indolência.
Na clausura das entrelinhas? A vida manda notícias.
Leio no El País que Penderecki morreu. Penso nestas suas aspas: “O destino de um artista é um labirinto. Acredita conhecer o caminho, mas deve buscá-lo sem trégua. Amiúde avança, porém, de repente, deve retroceder e reabrir uma porta que havia fechado. É o diálogo constante com o passado”.
Outro dia, quinta-feira última, a minha imperícia com a tecnologia frustrou minhas ansiedades. Não acessei a videoconferência em que amigas e amigos comentaram suas leituras recentes.
Havia me preparado. Tinha separado livros pro bate-papo online. Inventei discurso, amarrei trechos, estudei o fluxo. Reli as passagens, que poderiam reforçar as poucas ideias que tive.
Maravilha? Depois de carregar a bateria do telefone, pude enviar a mensagem dando os detalhes de mais este fracasso.
Terei falhado? Se textos só retratarem o explícito.
Como a pandemia massacra, mudo o foco.
A vida de um país é sua economia? A vida do país é a saúde das pessoas. Sem pessoas, não há empresas nem consumo. Além disso, pessoas dão consciência ao mundo.
Busco ajuda ao Rubem Braga. “Afinal de contas os escritores dão apenas o reflexo da realidade, ou de um de seus aspectos ― e não é vedando a sua imagem num espelho que você remove um objeto”.
Atualmente, poucos livros estão na minha mesa de trabalho. Pego um, manuseio-o com carinho.
Que bela capa, o desenho feito à mão. Há uma árvore e, soltas no ar, há folhas flutuando. E a imagem ganha outros significados com as leituras. Toca-me o verso: o tempo não dá escolhas.
Já foi dito que no universo, nada se perde, tudo se transforma.
Eis a beleza que a obra semeia em mim: a flor não seca enquanto houver amor a cultivá-la.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de março de 2020.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Encruzilhada


Encruzilhada

Presente em Companhia e outros textos, O caminho, de Samuel Beckett, apresenta um labirinto a céu aberto, constituído por caminho de mão única a impor que se vá adiante. Do sopé ao topo e do topo ao sopé, sem poder inverter de cima pra baixo ou de baixo pra cima, só sendo possível ir adiante, o que implica em passar por onde tenha passado. Como se nunca antes tivesse estado ali, pois não há marca que permita qualquer reconhecimento. Mas, chegando ao topo ou ao sopé, lá ou cá, há a liberdade pra dar uma pausa.
Para mim, a vida é caminho de mão única, indo adiante, indo sem saber pra onde, tentando estabelecer referências que me auxiliem na jornada que, ao que parece, serpenteia, faz cruzamentos. Ora vou ao topo, ora ao sopé; tenho êxito, fracasso; sigo em frente.
Estou numa pausa?
Estou fritando um ovo. Ele pode grudar na frigideira ou ficar daora. Depende. Pra variar, marco a bobeira do pouco óleo, daí vira troço de bolotas cruas e outras queimadas. No fundo, vivo aprontando.
Mas por que é que estou dormindo mal? Será por que não posso andar no calçadão? Será por que a TV tem abusado de coronavírus? Uma hora tem gente que diz pra ficar em casa, depois vem outro que diz que o bicho não é tudo isso que andam falando; e agora?
Palpite ou ciência.
Sujeito às orientações pra contenção sanitária, o mundo todo quer mais é tocar a vida. Com altos e baixos; com alegrias e tristezas. Só que, nas atuais circunstâncias, estamos à mercê de uma certeza.
Hein?
A certeza de que, durante a quarentena, familiares e amigos estão onde deveriam estar. Cada qual ocupando um lugar previsto.
Mas a vida é surpreendente porque imprevisível.
Então, me esforço, me fecho dentro de casa. Passo a compartilhar os metros quadrados com os demais da família. E pra quê? Pra evitar que algo dê errado, pra não tornar indigesto o convívio. Como adulto, sonho, boto na cabeça que vai passar, faço planos. Mesmo temendo que alguma coisa possa sair pela culatra, faço a minha parte. Oriento. Sim. É preciso cuidar de si, em primeiro lugar. Mas este cuidar de si é necessário pra tornar possível cuidar do outro. Não vou me infectar, porque não quero infectar as pessoas. Pessoas com as quais convivo em casa, no prédio, no serviço em que não posso faltar; porque sou médica, sou balconista na farmácia, sou o policial que vigia pra que a praia fique sem aglomeração.
Não se trata de distanciamento social. É distanciamento físico.
Com as redes à disposição, mantenho-me conectado, interessado nas pessoas, preocupado, e afetando quem me afeta. Posso acolher o mundo por meio de Face, Zap, Messenger, Skype, telefone.
Sem ofensa, digo o que penso. Sem abrir mão do que penso, vou me livrando do medo. Assim, acho legítimo agir em nome da saúde, da segurança, da responsabilidade de ir e vir ― em casa e na rua.
Vou nessa. Tenho um ovo cozido pra comer.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de março de 2020.

terça-feira, 24 de março de 2020

Sem discurso


Sem discurso

Sigo na labuta. Inventei de pôr a casa em ordem. Hoje foi a vez do quarto. Limpando os móveis; arrastando a cama; batendo as cortinas; varrendo; passando no chão a lavanda do cheirosinho.
Sem sentimentalismo. Sem moralismo, sem ficar dizendo o quanto estou sendo verdadeiro ao querer-me dado como bom. O momento é de fazer o certo, sem almejar o adequado que esteja fazendo como bem. Sem visão utilitarista, sem pragmatismo do útil, sem querer ser tomado como modelo do que seja considerado exemplar. A cidadania em ato. Meu dever é dizer que faço o bem por que sou bom?
Ô vaidade que revolta. O momento é de sobrevivência, empatia. É hora de lutar pela vida ― a minha e a do próximo.
A vida do próximo?
Da minha família, de amigas e amigos, da vizinha de oitenta anos, do vizinho de trinta e um, da funcionária cortês e do funcionário chato do banco, da caixa tatuada e do segurança tenso do supermercado, da atendente tensa da farmácia, de caminhoneira e caminhoneiro, de quem transporta remédios às farmácias e alimentos aos mercados.
A hora é de solidariedade ― presencial ou a distância ― a quem mantém a Terra funcionando.
O momento é de escolha. E escolher com responsabilidade, com alegria, permitindo-se à alegria de viver e de querer permanecer vivo. Com medo, ansiedade, amor, carinho, afetos pro bem e o pro mal.
Como assim, pro mal?
Sim, continuo humano, carente de abraços e beijos. Mas também sujeito ao cuspe de quem me odeia quando diz que exagero ao ouvir médicas e médicos.
Sim, continuo humano, exasperado por ficar restrito à minha casa. Mas pra me resguardar de quem segue dizendo que a gripezinha se cura com a crueldade de quatro meses sem salário, como se fossem férias não remuneradas, pro próprio bem da vítima.
Quantos somos desempregados, desamparados, desalentados?
Esta quarentena veio para permitir olhar bem fixamente pra sujeira que a correria do cotidiano anda acumulando nas veias e artérias. Daí o meu coração envilecido, carcomido por dentro, petrificado no deixa pra lá que passa, esse treco imundo suplica.
Sim, vai passar. Mas que passe e siga em frente, não retome do ponto onde a podridão do nefasto azeda o leite, aumenta o colesterol e desvirtua por atalho que não resolve os humores nos rins, fígado e cabeça. Vai passar, sim, a dor de cabeça é passível de analgésico.
Com o cérebro no timão, tanto posso ir pro porto quanto pro meio da borrasca. Penso? Penso.
E penso, mal sei fingir a lágrima que brota por acaso.
Termino a limpeza do quarto. Ponho as coisas de volta no lugar. E recolho o lixo, embalo-o; desço sozinho; deposito o saco com cuidado na lixeira.
Há demônios em demasia pro inferno limitado que temos feito do planeta. Efeito do famigerado fruto que atiçou nas pessoas o desejo do conhecimento do caminho?
E, ciente de que a precisão funda a busca:
― José, para onde?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de março de 2020.






domingo, 22 de março de 2020

Dentro da floresta


Dentro da floresta

Senhora e senhor, contagiante pelos encantos graciosos, afora a técnica que deixo de comentar por falta de conhecimento, foi assistir à Anna Prohaska, junto com aquele grupo de cellistas da Filarmônica de Berlim, num delicioso “canta, cambaxirra! canta, juriti! canta, irerê! canta, canta, sofrê! patativa! bem-te-vi!”. Pois, com pandemia à solta, o Digital Concert Hall ficará aberto até o dia 30/03.
Estou no apartamento, tocando a rotina, lendo jornais pela manhã, escrevendo minha crônica, movendo a vida, preparo a refeição, tomo meu banho de cada dia, mexendo com a mente, tenho ouvido Barber depois do almoço, volto ao romance que estou disposto a terminar de escrever, tecendo a estrada na caminhada, cuido da janta, vejo a TV, faço entrar o Aldir Blanc, topo lê-lo, curto ouvi-lo, mas, cicializado pelo Morfeu, aceito ir pra cama, porque, sim, estou em casa.
Por conta dos meus afazeres com a escrita, escolhi uma vida que leva em conta NÃO SAIR de casa. Com outras necessidades, outras pessoas não gostariam da situação de momento, pois NÃO PODEM SAIR de casa. Bem distintas, as circunstâncias. Entendo.
O ponto que para mim surge como relevante é dizer que qualquer pessoa pode estabelecer uma rotina durante a quarentena. É preciso tornar menos dramático o confinamento; e a adaptação às restrições faz-se urgente, pra ontem.
O espaço continua sendo o mesmo de outro dia. A pia da cozinha anda precisando de uma boa esfregada. O fogão, atenção redobrada. O rejunte do box do banheiro? As lâmpadas sujas do apê? Há tantos detalhes que revelam o tamanho da negligência. Ô vida corrida.
Limpar a casa não tira as preocupações com o vírus. É real o que estou sentindo, o medo. Mas a calma precisa ser estabelecida. Digo que, no meu caso, cuidar do espaço físico me faz buscar um alívio.
Por que, então, eu fui deixado para trás, mãe?
Curioso, ansiosamente curioso. Pela manhã, fiquei uns minutos na varanda. Sem pedestre e sem automóveis, confirmando o desajuste. Não desisti. Um carro passou na rua logo ali; simultaneamente, surgiu na esquina um morador com a sacolinha velha de guerra, trazia pão e leite pra família, acho.
O que há de errado comigo, mãe?
Ouvir a engrenagem do elevador do prédio. Saber que há pessoas levando o lixo pra lixeira no subsolo. Sigo acordado.
Telefonar pra minha mãe, escutá-la ralhar com a programação da TV, ouvi-la me aconselhar a não passar o dia engolindo tanta notícia sobre a pandemia. Não me intoxicar, isso me deixa acordado.
Você sabe o que deseja?
Há condições de sobrevivência que o vírus impõe a toda gente.
Isolamento, quarentena, o confinamento. Passar por isso é viver a excepcionalidade. Que não é a regra, não é normal.
A atualidade com suas premências não transformará em bunker o apartamento. Curtindo o uquelele da Roberta Sá, fico em casa.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 22 de março de 2020.










quarta-feira, 18 de março de 2020

A quarentena


A quarentena

Sempre é bom começar deixando as coisas bem claras, pra que o vento não venha a soprar o lume, que útil é manter a luz, ainda mais quando faz a vez de iluminar pro combate às trevas.
Dito isso, não será preciso referir-se a menina ou menino, trata-se de uma criança. Pois é, também não será necessário recapitular cada palavrão que a personagem rugiu, enquanto fazia questão de bater a porta em câmera lenta, pra dar tempo de gritar o repertório do calão.
A criança zanzava. Como toda pessoa que medita, ia pesando os gestos, avaliando o que ouvira, querendo esquecer as circunstâncias que eram bastante desagradáveis, pois tinham passado do limite.
Que limite? Isso é coisa que seu pai vivia repetindo, como se ficar insistindo em dizer isso tornasse compreensível. Pra ela era evidente a relação entre proibição e implicância, por ser criança.
A criança, enfim, resolveu que estava cansada de sua caminhada e sentou-se sob uma árvore. E de que tipo? Ela não sabia distinguir a laranjeira da goiabeira.
Isso é coisa de gente grande, oxe.
Então, a criança ouviu barulhos; eram vários ao mesmo tempo. De onde vinha aquela barulhada todinha?
Olhou para cima. Havia um ninho de passarinho. Por favor, nada de querer que a criança saiba se era ninho de pintassilgo ou canário.
Quando a criança já ia se posicionando para subir pelo tronco da árvore, passou rasante aquele passarinho que, pelo jeito, era a mãe dos filhotinhos.
Será possível que aquela bagunça toda era por causa da mãe?
A criança deu alguns passos até o ponto de onde poderia ter uma visão do que se passava entre a mamãe e a sua ninhada. E ela pôde ver que a adulta estava dando de comer aos bichinhos. Parecia, pois ela levantava o bico, fazia uns tremeliques engraçados e enfiava um treco qualquer na boca de cada filhote.
Que esquisito.
Será que os animais sempre fazem assim pra alimentar os filhos?
Aquela era uma boa pergunta. Era mesmo, tanto que a fez andar sem ver aonde pisava. A curiosidade meio que a cegava.
Foi quando, nem bem deu cinco passos, ela topou com uma gata.
Nem vou contar... Pois é, ela também tinha a sua ninhada. Era a hora do almoço, pelo jeito. Sem cerimônia, os bichaninhos estavam mamando nas tetas da mãe. Mesmo espremida entre um pneu velho e o muro, a gata mantinha a elegância de miar macio, como se fosse um sorriso de boas-vindas, se bem que, para não atrapalhar nada, a criança ficou a distância.
Oia! Oia!
A criança subiu num pé a escada. Passou voando pela cozinha. E como não queria que bicassem o que tinha para dizer, foi digitando a descoberta com seus dedinhos de cientista depois dum gol.
Sem ligar que aquilo talvez não fosse alegria coisa nenhuma, mas euforia, a criança nem viu em que grupo disparou:
Gente, é muito legal ficar em casa, porque acabei de saber que a minha mãe dá uns gritinhos sem sair do lugar porque ela me ama.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de março de 2020.

terça-feira, 17 de março de 2020

Loucura santa


Loucura santa

Entusiasmado pela perspectiva de conviver comigo durante quinze dias inteirinhos, admito que tal circunstância proporcionada pelo vírus SARS-Cov-2 tirou-me do sério, de fato.
Indubitavelmente desgovernado por quem de direito, esta cabeça, uma gracinha que adora semear brócolis bastardos em vez de belas begônias. É no solo insondável dos nevoeiros plúmbeo-narcotizantes da minha consciência que a espevitada faz-me tornar possível a falta de ar angustiante, os calafrios perturbadores das variações térmicas, o peso opressivo no peito repleto de pelos brancos.
Ô sacola de cachola. Para que foi estragar o babado? Não poderia ter ficado se esbaldando numa boa? A visão de trazer dentro de mim toda uma sacolejante fauna coronária no pulmão?
Especulação mantém a pose até o primeiro espirro.
Adeus equilíbrio, tchau razoabilidade. Bem-vindo rondó, benfazejo minueto, forró de pares intercambiáveis. Uma puta algazarra. Loucura de virar o mundo de ponta-cabeça.
Xô circo de horrores!
Não sei dizer de onde vem isso que em mim se manifesta. Isso? É tal a força de origem desconhecida que produz resultados visíveis e palpáveis. Sudorese, salivação, vontade de soltar perdigotos.
Soltar-me. Pra dar maior motivação a quem anda robotizado, meio facilitado. Deixar acontecer, baixar a guarda, encarar o desafio.
Mesmo que uma ou outra situação fuja ao controle? Entregar-se.
Contudo, recusar a alegria do sucesso apenas por que não estava planejada a felicidade obtida fora do cálculo?
É admissível que a engenharia da vida desconheça benevolências ou malfeitorias da arquitetura do mundo. Isto é, ao número o número e à natureza o natural.
Claro, isso é chover chovendo.
Se há poesia no universo, e ela há, o olhar não apaga o invisível, torna-o mensurável pelo absurdo, por oximoros, antíteses, paradoxos, numa dialética que inclui ao excluir e numa aposta que põe o nada no vazio, ou vice-versa, e tudo junto e misturado.
Sim, da confusão pode brotar o caos. Do caos, a noite. Da noite, o dia. Do dia, a chatice mecânica de viver no automático.
Ô dó.
Por favor, mente esperta, permita-me olhar para o céu sem acusar nomes, mitologias e orientações aos navegantes. Faça a gentileza de consentir a apreciação da árvore pela moderação da floresta. Saiba das amostras congeladas pelas quais cientistas babam. Sei da minha insônia pelo excesso de séries via cabo. Vamos, não vou esquecer as janelas fechadas. Usarei a porta com o juízo que me resta. Sairei pras tarefas inadiáveis e voltarei satisfeito pelo que puder fazer. Prometo nem me expor ao ridículo de tirar fotos com celulares de quem nunca antes tenha visto na vida.
Ilustríssima Covid-19, como pandemia de linhagem apocalíptica, respeito-a tanto que até o zumbi alucinado que faz festa em mim está invocando um tal de Brad Pitt.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de março de 2020.







domingo, 15 de março de 2020

Mais abaixo


Mais abaixo

Conforme registram os remotos papiros chineses, na província de Fujian, um infatigável andarilho, filho de ceramista neto de ceramista, largou toda aquela argila às margens do rio Amarelo, ei-lo sentado no jade do tamanho da couraça de uma tartaruga.
Quando a boca sente a língua desta história, com um gostinho de jasmim, anuncia-se que o artesão está longe de casa muitas e muitas luas. Para aprimorar-se no seu ofício? Pra negá-lo quatro vezes, pois quatro são os pontos cardeais.
Para descomplicar a coisa toda, entra um ancião de barbicha à Fu Manchu, que naturalmente pitava seu cachimbinho de ópio, típico dos sabichões que andam bem devagar.
Ele veio na caminhada, passou pelo fedorento sentado logo ali, foi beber água nas mãos em concha e, quando já ia voltando, deu com o choramingueiro.
Chora não, criança. A roseira dá rosa porque um dia foi semente.
Choro sim, senhor. Pois o cravo brigou com a rosa.
Brigou nada, rapaz. O certo é que rosa com rosa dá rosa.
Senhor, sua sabedoria ofusca o pico do monte.
Não precisa exagerar, menino.
Preciso, sim. O ancião precisa ir aos quatro cantos do mundo para ilustrar quem anda às cegas. Que este mundo está perdido. Faltando mapa, bússola e o Cruzeiro do Sul no meio-dia de sol nas nuvens.
A névoa de agora o vento leva. A ventania da primavera espalha o que ninguém controla. O novo brilha e vira febre no corpo em que faz sua estreia e passa a viver em quem vive, até que a montanha deixe de crescer e suma nas águas de todos os degelos. No seu tempo.
O sábio diz o que meus ouvidos não estavam prontos para ouvir, a isso dou valor porque machuca. Abrindo os meus pensamentos para o que meus olhos não viam. E educando os meus ouvidos para o que antes soava feito barulho. E estimulando em mim a compreensão que meu entendimento pedia.
Então, beba da água que bebi. Vá, diga que sabe. A chaga que o magoa cicatrizará; mostre-a; muitos a saberão também.
Não quero dizer pelo senhor o que sua voz faz melhor do que eu.
Como abelhas partem duma velha pruma nova colmeia, então, vá ser aquela que levará o pólen pro mel que sua gente tá esperando.
O vagamundo fechou os olhos por um instante. Levantou-se. E fez mesuras com o tronco enquanto falava que não era digno de portar a ciência do mundo de tão nobre mestre. Que quem deveria dizer como funciona a química do gusano na mente humana era ele.
Silêncio. Baforadas no ópio. Cofiadas na barbicha Fu Manchu.
Como as suas verdades são boas, senhor.
Quando pessoas vêm de longe, chegam confusas que não veem a água para a sua sede.
É isso que o mundo precisa aplaudir.
Rapaz que muito insiste, sou apenas um velho que come raízes e frutos.
Como a sua vida é boa, permita-se servir de exemplo.
Rapaz que não ouve nem a pau, este velho só sabe que o urso vai hibernar já com ele na caverna.
Então, tá...
Quando estiver em caverna alheia, durma de tênis.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de março de 2020.



quinta-feira, 12 de março de 2020

A hora da estreia


A hora da estreia

Ô dia bom, bom dia.
Tento manter a lucidez, mesmo com a cachorrada da vizinhança latindo pras moscas. Tento resistir com dignidade, porque as piscinas seguirão abandonadas. Tento neutralizar minhas neuras, até porque nem sei pra que serve o espinafre. No entanto, falho redondamente e sucumbo ao comezinho que se revela trágico.
De tentação em tentação, o sofá acaba me tentando. Cansado de buscar uma explicação universal autoimune, babo na camiseta.
Não falo de mim quando pedem notícias sobre o que sinto. Como se fosse fácil falar que as brumas não impedem a visão clara do que tenho sentido. Diante do espetáculo do mundo, relato os feitos como sentimentos reveladores.
Porém, não engano nem quem espera ouvir opiniões a respeito da vida. Que sei das perplexidades? A que estado me deixei levar? O do cinismo com vergonha de assumir verdades? Ou seja? Pouco, e bem pouco, tenho a dizer nesta como em outra hora qualquer.
Então, facilito catando no ar as ironias que faço manchar o papel. Marchem narrativas a me ajudar a vencer o dia, rompam o cordão de quarentena que me querem tolher o prazer e gritem aos céus que as gorduras intoxicam meu humor. Tomarei água do filtro quando a sede vier, tagarelarei bobagens à musa de fartos amanhãs e vou vencer o miojo das sete.
Sem mágoa, hei de curtir a solidão com café e refri.
Sei, fujo de mim que nem minha boca foge do quiabo. Digo, venha a noite com o sono que faz por mim a limpeza do que não adiantaria nada reter. Pra que alimentar o gesto gasto que ofende, mascarando o importante do recado, que é o renovar-se.
De memorável mesmo, apenas o que a solidez da matéria não diz o quanto machuca no calcanhar. Que falta faz o bandeide pra deixar evidente a dor que calo quando deveria expressá-la além do corte.
Disperso os cacos, noite após noite, até que venha algum estalo e me faça lembrar, mexendo meus braços, coordenando meus dedos e a crônica vire o que mais ou menos espero que vire.
Preciso tomar as rédeas deste pangaré metido a xucro. Escoicear não é trotar. Relinchar não é cantar. Preciso aprender a saltar minhas barreiras, preciso enxergar nos obstáculos o estímulo, preciso parar de repetir as palavras.
Que haja invenção, um norte a indicar a direção, a orientar qual o sentido. Que haja o que houver a me levar ao ponto planejado. Hein? O que tenho eu de planejado?
Ir de crônica em crônica. Assim, até que brote da lama a resposta ao desejo. Desejo e não um sonho. Qual? Uma vida feita de cada dia. Como um depoimento sincero dos meus feitos, prenhes de valores, sentimentos e emoções.
Faço votos que a próxima não ignore os problemas cambiais, que a futura traga alegria a quem anda triste, que se torne um porto aos leitores mareados.
Talvez isso, ou posso querer pular na água esverdeada. E se não quebrar o pescoço pulando do quarto andar, aprenderei a nadar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de março de 2020.

terça-feira, 10 de março de 2020

Palhaçada


Palhaçada

Como dar cabo de um desejo? Como lidar com a informação que nos comunica que a realidade não passa de um surto que dura uma vida? Sendo possível que esta verdade seja de fato falseável, como digeri-la mantendo a intoxicação do absurdo? Que a febre não baixe, que a fome ainda arda, que se bata a traduzir-se em atos?
Nada de explicações vulgares sobre essa crueldade que é chegar à cena com a caveira para o plástico, tomado de vida pelo espavento materializado, cortar o barato. Ai atrocidades.
Sentado na beira da cama, os pés nus no piso frio. Ainda que não me recorde como foi que morri ontem à noite, sirvo às abluções.
Com o retardamento do sono, posto que a espertina me acidulou, o muito influenciado que fiquei com o Querido Diário da Maria Velho da Costa, todavia, confundo a esquerda com a direita ― já longe de encontrar o ponto, já achado de pronto ― como a dizer parênteses.
Quando fogem as palavras, espera-se pelo eco.
Tal incômodo diz a mim que morro um fardo a cada gesto. Gesto este que bem pode pregar a peça, piegas de infantil no engenho de autofabricar-se um parágrafo nuvioso, que dou a mim que me cai tão natural. E fosse mascar o ar pegajoso do fumo que escarro o quanto posso, tomaria como torta na cara do barro que ri.
E o palhaço que é?
Eu não sabia que aquilo fosse possível. Aquilo, digo, isso de ficar atento ao que pede atenção. Mas não é só isso, é preciso ficar atento ao que merece atenção. Além de ficar querendo se mostrar, algo fácil de se fazer, é preciso ter mais para mostrar do que querer aparecer a qualquer custo.
Pois tem custo, sim, senhor, isso de não ir além da pantomima em si. Como palhaço sem graça, que mais grita do que diverte.
O pior é que, depois de um tempo vendo o embuste, percebe-se o que até ele admite. Ninguém se diverte com a sua sem gracice.
Como fica evidente a picaretagem, a cena entristece. Em seguida, a raiva roça a língua. O jeito é despir a carapuça, e bufar.
Sei lá no que você está pensando, mas a mim me parece de uma vigarice só. Que perda de tempo dar crédito a uma agressão do tipo.
A gente poderia estar rindo de coisa engraçada, feita por artista de verdade, e não dum pinóquio pestilento.
Isso entope as veias, com o sangue sujo de tanto medo da alegria, de tanta porcaria no corpo. Epa. Não vou cometer o erro de dizer que a origem da sem gracice está no sangue, que isso é coisa que não se faz. As pessoas de atos desprezíveis horrorizam porque agem.
Então, o palhaço besta, que faz besteira, merece vaia e as costas. Melhor ainda, que o seu circo de horrores feche por falta de público.
Ô ridículo por ofício, fede a formol esta trova rasa.
Atchim!
Para não chorar pelos turcos na Síria à espera dos bárbaros nem chorar pelos russos na Síria à espera dos bárbaros, como interromper o fluxo? Será que os bárbaros estão parados pra pensar?
Nem estrondo nem suspiro? É hecatombe, o espirro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 08 de março de 2020.

sábado, 7 de março de 2020

A concha


A concha

Carente de mundo, quer deliciar-se com o Atlântico. Sem telefone. Despido dos compromissos inapeláveis. Munido de guarda-chuva, já que chove muito. De alguma maneira, aconteça menos recalcitrante no esqueleto. Ferido de rotina, com cada osso a cobrar a sua parte às articulações. Faça-se outra, dona terça.
No desgaste compulsório de viver, move-se.
Mendigando mesmo outros apegos, que não as consternações de praxe, encasqueta. Cuidando para que o calçadão ignore o distúrbio. Sem o obséquio de alguma ternura incontrolável. Disposto a acarear o dia. Deixa molhar a ponta do tênis e uns dedos da barra.
Faz pouco do caso. Que o olhar recorte fatias da realidade. Hábito antigo, desprazer recente. Tem consciência disso, e sofre. Recusa-se a alimentar-se de retalhos forçados a incongruências, ao disparate de cavar buracos pra torná-los explícitos.
Insatisfeito, porém discreto. Tratando de manter-se incorporado ao ambiente. Embora os olhos famintos seccionem, e segreguem.
Quando da intuição do erro? Fecha-os, não os cega.
Tarde demais.
Na beira-mar, um vulto. De costas pra avenida.
A tal figura gera o mal-estar. Nem esboça aproximar-se. De longe, interpreta-a. Melancolicamente, parada. Ainda que tema o naufrágio, navega em pensamento. Angústias sufocam sob o guarda-chuva.
Capaz de um truque, percebe qual há de vir a ser.
O sujeito transpira segundas intenções. Manipulador, toma pra si a sedução. Quer que se acredite capaz de consumar uma daquelas.
Sem pedir socorro, vira-se. Há duas pombas ao alcance do chute, que não simula. Como no mundo muita coisa acontece, dirige o olhar de quem o observa. Permite-se a bobeira de compactuar com aquilo.
Então, a escada do posto dos bombeiros torna-se repulsiva. Tem vontade de cuspir no oceano. Só o fato de pensar em não gritar já se faz enlouquecedor. Há fantasmas que não sabem nadar, todavia.
Esta chuva. Tanta água. Por muito pouco, espuma.
Que não surja nenhum guarda-vidas. Dispensável chamá-lo. Pois, o que se há de contar que já não horrorize o bastante?
A história não mente: sofrendo humores, homem some no ar.
Poderia deixar quieto. Ir saciar-se de comida árabe. Mas, a rua em obras; o barulho das máquinas; a algaravia dos operários. A manhã é infatigável, de fato.
Dá para imaginar.
Quem vive a contar histórias solta o corpo no mundo, vai entre as pessoas. Olha, escuta, sente cheiros, engole o brigadeiro, assopra as feridas pútridas. E nojento, chega a lamber a boca.
O que o faz humano, e vicia.
Tanto ao refugiar-se em ruas e ônibus, como ao bloquear e lacrar. Isso, mais o mar que engasga com os algoritmos aptos a seduzir às compras. E o que dizem as pegadas na praia?
Prossiga no encalço, Watson. Talvez se veja aonde isso vai dar.
Porém, por estupidez crônica, pergunte-se ao mar como encerrar 282 mm de chuva numa concha.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de março de 2020.

quarta-feira, 4 de março de 2020

A montanha


A montanha

Apressado. Atrasado. Atarantado comigo. Ai, ai, ai.
Ia preso ao destino, precisando chegar antes do início da reunião, que começaria logo. Faz parte o mundo seguir no respeito às próprias maquinações. Deu o horário? A equipe tinha o propósito, a disciplina, daria início e pronto. Que fosse o caso; havendo quem considerasse atrasos um desplante, abria-se vaga a ser ocupada por outrem.
Pela hipótese, haja fôlego. Desviando de fezes, fui. De pulo aceso nas pernas ligeiras, tendo à vista buracos puláveis, fui. Há as crateras com água, ainda mais com as chuvas dos últimos dias, daí o jeito foi passar ao lado, sem dar uma de João do Pulo.
Empenhei-me em ir, até o poste em questão surgir do nada. Bem na fuça. Disposto a derrubar quem pegasse pelo caminho, tornei-me vítima sua. Sem escolha, estatelei no chão molhado.
Que chovia ontem, como hoje chove, e também haverá de chover amanhã. Mudou o quê? Ô aquecimento global que só faz chuva.
O efeito estufa o brio da minha vergonha, choro de raiva. Mordo o lábio inferior. Ê vício adquirido nas priscas eras. Sobre as quais, aliás, pouco sei dizer pra onde foram, e se continuam lá.
Ontem e hoje ainda e amanhã também, só para reforçar a ênfase, enfiei na cara um ódio dos mais sinceros. E a quem dirigi a fúria?
O poste foi o primeiro que mandei tomar garapa. Com açúcar pra azedar sua diabete. Com muito rancor pra destemperar de vez o dia, sustentei a praga. Contrafeito, na agonia, magoado. Poste do cão!
Julgo mal um poste dignar-se a pegadinhas do tipo. Com a pessoa tendo compromisso, dar com os fundilhos nas águas do verão?
Verão, no calendário. Tem frio, garoa, resfriado, caldo verde. Item a item, com metros cúbicos de lamentações. Ora, ora, sem poder vê-la, estarei subindo a montanha com a paixão destes meus passos?
Um por vez. E somando um e diminuindo um. Não se sujeitando a subtrações nem a adições que anulem a questão.
Existirá tal desenvolvimento? Um entendimento de ir além de lugar e tempo estando neste lugar e tempo? O palco. Da vida e do mundo. Aqui, a cama a rua a fila do caixa o banco da praça o brinde. Agora, o post a canção o jornal a rosa do povo a saudade.
E o que se ignora? A dor desprepara pra próxima. Porque o corpo instala a percepção. Pela experiência, o súbito fica disponível para a carga do imprevisto. Quando a topada derrubar, terei o argumento da vivência. Sobre os ombros, irei carregar a dor do vivenciado.
Certo de estar vendo melhor por ter vivido a queda, caio. Com a consciência indignada, condicionada a saber por experiência própria o significado de cair. Mas, de novo?
A idade não documenta o ridículo. A vida faz-se.
Assim, esta criança segue brincando a infância que muda porque estou em mudança. Leitor da vida, na leitura do mundo, e pela escrita a cada gesto e pensamento. Estou vivo, logo vivo. Faço-me.
E tão aparentado comigo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de março de 2020.

domingo, 1 de março de 2020

Cinema tartamudo


Cinema tartamudo

Mais anil e menos ingênuo em meus despropósitos de compositor, tentarei reger-me por outra banda sonora, Anna Akhmátova.
Sobre a terra devastada, trato por comestíveis a batata, inhame e mandioca, raízes roçadas por afilados dentes submersos no terreno. Dessa mocidade encalacrada entre expectativa e frustração, supondo o sono tornar digeríveis os pesadelos entre apneias, apanho aquele beijo a encher os 200 m2 da tela. Hitler e Stalin beijando-se na boca e AMURAL, bem grandão, ao lado ou abaixo. Suspiro, transpiro, induzo meus olhos pra marca registrada em tela. De uma arrebatadora fome ácida, reconheço universitária esta realidade, anestesia que cega de tanta carência de caroteno, Anna Akhmátova.
O gratuito do mundo acorda a noite ensopada de fé, bife batido no sal com seus fraternais entreveros à mesa. Em casa, meus pais a se entreolharem. O coroinha sobreposto na roupa, com os paramentos a recobrir minha devoção medíocre às comunhões do trigo, pro louvor ao Sebastião do maio local. Dando ouvidos à Mata Atlântica, labirinto verde a subir e descer morros, do Zelão ao Pocinho. Nestes invernais vapores de fevereiro memórias gracejam, Anna Akhmátova.
Dado a instantâneas súplicas amaras diante da pequena bailarina maspiana, baixo a terra com o Bardi a bordo. Podia ir encarar o quilo com vista pra 9 de Julho, e fui, outro juveniilista em cabeleira Robert Smith, lobo mobilizado a singrar os mares no ventre de Leviatã. Das perplexidades dos 80 pras deste 2020, preciso aprender a padecer racionalmente do virulento do ódio, Anna Akhmátova.
Considero os afetos, tomo o pulso de mim, ao meu alcance estão Kierkegaard e Husserl, porém não pretendo complicar o que muito já me baratina. Porque não me querem acomodado, os meus objetivos salpicam a razão com desajustes. Como não neva na tropical Ibiúna, a imaginação arranja um trenó puxado por huskies. Sinto-me alguma Sibéria, silencio pelo Tarkovski que filtro em palavras, e tomo o tempo como obra metafísica, Anna Akhmátova.
Obtuso porque obscuro, submetido a desejos não pronunciados a céu aberto, digo que a sequência das fotos borra o entendimento, faz da água que mofa o fogo que me sublima. À lente da memória, passo nevascas. Ainda que a folhinha registre o ignóbil, semeio ventos pras messes de abril, Anna Akhmátova.
Na Rússia, viro o copo pra vodca dos mujiques. Ou um tipo vulgar de tacape, mas nada sei da caça a cervídeos das estepes. Acendo a luz. Que o lume brilhe ao aquecer. Que a justiça abrace os ofendidos por calamitosas omissões do amor. Chamo à clareira. Não me barra a camada almiscarada de desconhecimento. Desabrocho. Abundo das elegias consternadas, Anna Akhmátova.
Por horror à marcha do que não baila, Anna Akhmátova, desplanto o tesouro da poda, arvoro a coda, foco o alcantilado no meu canto.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de março de 2020.