sexta-feira, 30 de agosto de 2019

No ponto


No ponto

Caramba, não consegui mandar um material por e-mail. Era para ontem, e não tive tempo. Minha nossa, como a vida está corrida. Nem dá para dar conta do que é preciso fazer com o tempo que a gente tem. Sessenta segundos parecem menos, em torno de vinte ou quinze, de tão veloz que anda a marcha do mundo.
A realidade vigora independentemente dessa cronometragem. Ela segue as leis físicas de seus atributos. Passo a passo, instante a instante. Me parece que está na hora de pegar um atalho, para ganhar tempo. Isso ia quebrar um galhão. Não me conformo com o mundo preso à velocidade do momento.
E o apartamento está mesmo precisando de uma limpeza daquelas. De arrastar móveis, bater as cortinas, passar escova nos rejuntes do banheiro. Uma faxina caprichada. Mas, quede tempo?
Preciso encontrar um tempinho para mim.
Sei como, e dou um jeito nisso. Entro no primeiro ônibus que passa. Vou sentar num dos bancos que ficam acima dos pneus. Por serem mais altos, posso passar a impressão de que estou só de olho na vida fora do veículo.
Curioso, a barulheira toda me faz pisar no freio. Ou melhor, para não me atropelar, tiro o pé do acelerador. Aos poucos, tudo vai se ajeitando e atinjo uma velocidade que me permite a observação de quem é mais um na balbúrdia.
Nada mais urbano.
E vejo as pessoas atarefadas, de zap em zap. O rapaz que engole a batatinha quase consegue mastigá-la duas vezes. A mulher que reclama da cobrança do cartão nunca ouviu falar em Altamira, o que dirá ter R$ 1.068,00 para torrar na janta.
Como o motorista do ônibus, porém, é obrigado a respeitar os semáforos, ele não vai na maciota. Aos trancos e barrancos, vai parando de ponto em ponto feito um alucinado. Como se o mundo fosse acabar num instante.
Interessado nas pessoas, queria exercitar a minha escuta em paz. Vim para esfriar a cabeça, alimentá-la com histórias. Só que o motorista está por demais acelerado. Nem bem sentei e já estou uma pilha, louco para descer.
Contrariado, caio fora da barca. Meu barco é outro.
Não faço caso, volto para casa. A pé. Vou devagar, sem a febre dos condenados que comem os segundos achando que a vida tem prazo de validade. A curtição do momento é viver como se cada segundo fosse um instante a mais e não um a menos. Aprecio o caminho, tantas novidades e redescobertas.
O corre-corre do mundo deixa a gente meio perdida; aliás, bem confusa. Mantendo a calma, com o foco no que faço, não troco os pés pelas mãos nem compro gato por lebre.
Resistindo aos desembestados, aumento a pressão.
Pra já, meto a colher, examino o grude, reconheço o paio e a linguiça. É chegado o tempo de não levar tudo em banho-maria.
Pra encurtar o papo.
Já que agora sou todo pressa em não deixar pra lá que nem casca grossa esconde com quanta bosta se faz um banana, ratifico este osso duro de roer: são perversos os homens que tornam sombrios os dias.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de agosto de 2019.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Duplo sentido


Duplo sentido

Os sinos vêm da sala. Do relógio, a perseguir o silêncio. Come os segundos, os distraídos. Queria ficar sentado no sofá. Tentando achar erro nas notícias que foram preparadas. Cena a cena, com o ensaio do improviso. Falam sem parar.
Tá na cara que é truque, segredou. Ao piano.
Sim, ali tinha um piano. De calda, tinha de ser ou seria um cenário de filmeco, um faroeste vagabundo com uns mexicanos fazendo as vezes do índio.
Oia, os caídos de relógio. Tudo muito falso. Tenha dó!
Nem tinha reparado na fumaça dos canos, sem som de tiro nem sangue na roupa. E as badaladas quebraram o encanto. Seis horas, disseram os sinos do relógio da sala. Embora todos tivessem pulsos.
Que coisa mais brega este Big Ben. Matraca de papagaio.
Os sons gravados na memória. O treco tinha bateria. Tinha cérebro, uma placa. Era um simulacro, não era analógico, que a imagem digital pantomimava o relógio das antigas. Com números romanos, tinha que, em vez de um pauzinho e um vê maiúsculos, o algarismo quatro era quatro pauzinhos.
Por que a senhora mantém o troço na sala, não basta o monstro que ninguém dedilha? E o asno vive acelerado. Haja!
Prevendo a catástrofe, fui para o canto. Fiz a cortina para o rosto. Fiz com as mãos. Só não quis contar até dez. Foi o peixe que comeu a minha língua. A noite prefere cantar a escuridão. Nem lembro em que tom aquela voz quebrou o sigilo. Tem gente que faz a confusão do propósito. Diz no jeito torto ao falar com a gente. Quer saber qual animal tem o saber de voar de noite.
Tem faro de leão, olhar de lince e presas de tubarão.
Foi batata.
Acorda! É águia na cabeça, seu burraldo.
Aconteceu como já era esperado. Isso é assim desde que a buzina veio com tudo. Veio e criou raízes.
Que bicho mais sem noção. Badalar as seis horas quando já se espera a repetição do esperado. Deveria ser proibido um Big Ben de mentira. Uma imitação feita por aí, no Mandaqui ou na Manchúria. Uma batatada tudo isso.
Por isso, na dose certa de paciência da vontade, encolhi no lugar. Ele foi, tirou da parede pro tapete. Foi, escorou o piano no canto das paredes. Levantou o trono com o macaco grande de levantar carro, um jacaré de pesado. Fez.
É macaquice. E só para saudar a rainha. Ter o cronômetro programado. O sotaque pega na gente. Ô raiva.
A vitória foi tremenda. Adeus, hora marcada. Adeus, música agendada. Foi quando a mulher entrou, viu. Ela não disse uma palavra. Sentada no chão, resignada de lenta, juntando os cacos. O que ainda prestava do amigão foi pro lixo. O arrepio do ridículo foi ela cantarolar a música que tinha o Denzel, a do tempo ao seu lado.
Você podia disfarçar, sussurrou o refazedor.
Fiquei passado, parado.
Sem frescurite, a mulher de branco trouxe o quê?
Era estreito em cima e em baixo; o lado de lá e o de cá mais largos; a pele de prata corria brilhante.
No livro rubro do caos, quem vê o aquário vê o gato?
Ai!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 27 de agosto de 2019.

domingo, 25 de agosto de 2019

Mundo velho


Mundo velho

O mundo e os seus acontecimentos. A vida não para. E os cronistas observam, buscam relações, estabelecem conexões que gostariam de tornar visíveis. Nem sempre contam com a solidariedade dos leitores, já pela abordagem, já pelo assunto. Bem ou mal, a partir de alguns eventos, os cronistas registram o que pensam e há as interações pela leitura. E assim é desde que a escrita passou a nos fotografar, pela observação textual de quem se dispõe a dizer em que pé anda a realidade. Claro, com binóculo ou lupa, isso fica pela curiosidade elementar do comentarista.
O comentarista, diga-se, ou é mulher ou é homem. O leitor, saliente-se, é feminino ou masculino. Quem escreve e quem lê, ressalte-se, cada qual traz a sua etnia, a sua quantidade de melanina na pele, a sua religião ou a sua falta de fé. Com ou sem dinheiro; de riso expansivo ou de seriedade introspectiva; lendo o texto no papel ou nas nuvens. Afora que todas e todos vamos pelo mundão adentro.
O autor (ou autora) e a leitora (ou leitor) da crônica vivem no tempo em que lhes cabe viver. Porém, isso não os coloca no mesmo espaço de tempo. Uma crônica do Rubem Braga pode ter sido lida ou ter sido ignorada por uma pessoa que estava viva com o cronista vivíssimo. Assim como, agorinha mesmo, esta crônica está sendo lida por alguém que acabou de pegá-la para ler no dia 25 de agosto de 2169 ─ posso e especulo.
Em outras palavras, quanto mais eu leio, mais expando as fronteiras do desconhecido. Por exemplo, as crônicas de Ivan Lessa, postas em livro ou vindas de um computador, muito me servem para o permanente aprendizado. Quer me parecer que, hoje, a mente quer refresco ou uma baladinha de louco, só que não paro de pensar. Até quando paro para pensar.
Como funciona a cabeça, não sei. Como é que a crônica faz andar a roda dos neurônios, isso é o que me trouxe até aqui. E passando por este ponto, assim como vim e assim como vou seguir, é por minha conta. Se for o caso, aposto.
Afinal, faço parte do jogo. E jogador, enquanto escrevo, vou fazendo as minhas ilações. Arrisco-me a perguntar se escolho o tema ou se procuro o assunto. Nem um, nem outro. Às vezes, nem sempre. Quando me encontram, já estou sentado e com o lápis afinado ─ mesmo indo à farmácia para apaziguar as chamas gástricas.
Corro o risco porque não me boicoto, dando uma de lesado ou de arlequim de ressaquinha. Entendo que um boicote é ato político, e tolero qualquer posicionamento ideológico. Contudo, o que não aceito é a passividade quando o urgente é a ação.
Aliás, fica fácil mostrar-se hábil com os holofotes. Mas a prevenção vem de outras luzes.
Como o cronista pouco entende de química, meto o bedelho na fornalha alheia. Para que o domingo semeie a paz, chego à florada sem turbulências e precipitações de acidez agravadas, negando água à sede da criança:
─ Biarritz, mamã, tá no Velho Mundo?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de agosto de 2019.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Cordel do abismo


Cordel do abismo

Eu estava rindo de uma foto publicada na capa de todos os jornais expostos à leitura pública na banca de jornal. A imagem mostrava que punham ao chão uma estátua de Stálin, aquele bigodudo dado a malvadezas sanguinárias, tramoias ditatoriais, mais um que infernizou a vida do povo, e neste caso, o russo.
Não se ri de coisa séria, rapaz.
Abismado com a censura mas sem faniquito, tento não rir. Mas, do jeito que encaro a vida, seja a minha, seja a alheia, fui pego rindo sem o pudor do comedimento, porque, pelo visto, não é certo rir de coisa séria. Nem ontem nem hoje. Olha que nem era um rapaz à época, se aproximava do meio século então, lá naquele tempo, em 2013.
Coisa séria exige da gente a sisudez dos compenetrados e o semblante carregado, próprio de quem compreende a dor e o sentido do seu ensino. Pois diante dos eventos graves da era, e de todas as eras, não devo rir como se me fossem permitidos o deboche, o sarcasmo, a ironia ou o que raio venha a ter ao ouvir quem censura o riso como fora de hora.
E a hora é triste, vigora o Teatro da Morte. Não se trata de fingimento nem de espetáculo gratuito a um público abestado.
Ô meu jovem, tome pé da situação. Não tem cabimento ficar tirando sarro quando tem mais é que doar a sua solidariedade, pôr-se em fraternidade com os demais. Sendo a pessoa que o senhor é... Pegou o fio da meada ou será preciso desenrolar?
O teatro da vida tem etiquetas, e a elas espera-se respeito.
Como ando preguiçoso, dou corda no despertador do drama cósmico, que a banca virou palco com tantas desgraceiras de varal. Ali, na faixa, à mostra naqueles jornais que não fecharam por terem leitores. Estes, uns gatos-pingados que pagam para ler. Arrisco dizer que eles tenham concluído, e concluo, que a agenda global está carregada. E que peso.
Fiquei sabendo da tal chuva preta. A danada veio sujando os carros parados nas ruas, me contaram ao telefone. A massa líquida trouxe o tenebroso do fim do mundo para as câmeras paulistanas, vi na TV. Serão os céus apocalípticos?
À beira do abismo, e sem mimimi: os rios aéreos existem, formam-se na Amazônia e acabaram de vir desabar no colo de quem nega a emergência climática.
Como desconfio que esta chuvarada seja ácida, nitidamente com as tintas do apocalipse, só irei checar as notícias quando as trevas não estiverem queimando os ares, de alto a baixo. E isso se a banca resistir o bastante para continuar de pé.
Admito o fracasso de não saber onde menos dói em mim a realidade do mundo. Reconheço, porém, que nele estou feito beija-flor, transitando por aí a sugar o que alimenta a razão. Às vezes, sem piripaque nem fuzuê, a coisa pega no breu. Mas não forço a barra do falso desentendimento. Cumpro-me o inútil de fazer de conta que não estou nem aí. Mesmo porque a face que ri do que vê é a face que ri quando me vejo rindo.
Ai de nós! O abismo pisca de volta.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 22 de agosto de 2019.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Teatro da vida


Teatro da vida

Um dia depois de outro, não há nenhuma novidade nisso. E vou em frente com minhas picuinhas e meus desejos; vou indo, sem querer dinamitar o que boia entre estes e aquelas.
Às vezes, anseio explodir muita coisa; por isso, gosto de ler. As vertigens do carbonário passam às entrelinhas, dão na praia das ideias românticas; assim náufragas, o mundo sobrevive. Já o ridículo não tem escapatória, merece vaia ou acordar. Enfim.
Gosto imensamente que leiam para mim, do jeito que for. Se as linhas embaralham, se a ênfase come o fôlego, e daí?
Na sala onde me encontro, uma pessoa está lendo um texto. Cuidando sobremodo da leitura, ela mantém a elegância quando a página trava ou fecha por conta própria. Enquanto o homem lambe sabão, tem batata podre no porão. Já dizia a minha avó que nem pegou a internet.
Cativante, a leitora garante em mim o prazer da audição.
E isso me remete ao pé do rádio, que fui alimentado pelas ondas da Jovem Pan, de São Paulo. Com o rádio comigo pela casa dos meus pais, lá em Ibiúna, e os tímpanos ligados aos neurônios, cresci tomando siso do mundo via Jornal da Manhã. A fidelidade à emissora me fazia escutar o que fosse possível, e tinha um programa, do qual lembro o bordão, é noite, tudo se sabe, cujo nome da apresentadora agora me deixa encucado.
Como você já percebeu, leitora perspicaz ou leitor arguto, se me empolgo com algo, a narrativa vai ganhando interpolações, ou seja, viajo. Deixo-me afetar pelo que leio, ouço ou vejo.
O texto sendo lido de maneira tão cristalina me faz ir ao país das ideias. Entro pela minha mente. Vou derrubando paredes, retirando portas, tirando cortinas, e tudo isso para mais e mais me perder em mim. Escutando atentamente, acabo estimulado a navegar. Singro a simultaneidade de ir ouvindo e pensando.
A leitura chega ao fim. Ouvi-a em silêncio, com respeito. E o que pensei ficará para outra vez. Afinal, não importa se porei em palavras que a escrita é colete salva-vidas. Nem sempre o que o ouvido fisga a consciência abocanha. Nas engenharias da vida, faz água a boca que degusta o chuchu condimentado como marmelada.
Mesmo com a mente à deriva, dou aspas ao que pude ouvir. Bem ali, onde jaz o jornalista que não fui, bate o coração que entra em sintonia com os meus parênteses mentais porque concorda que “precisamos pensar se queremos um mundo de fatos para se contrapor ao mundo baseado nas emoções”.
E mais ainda, como opina Alan Rusbridger, o autor das palavras aspeadas, um mundo que se fundamenta apenas nas emoções, sem que, lógica e coerentemente, a razão dê a devida sustentação a argumentos a favor ou contra o que quer que seja, este é um mundo perigoso.
E como vivo a cultivar os sabiás do sonho, a vida é muito, muito perigosa. Pois... Para quem tomba em bosta de pomba, até cana pesteia o banana. Ô saudade, vó.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 20 de agosto de 2019.




domingo, 18 de agosto de 2019

Império do sentido


Império do sentido

A semana promete. Mas lamento a perda de tempo com fatos exteriores à minha vontade. Falo da dor que veio até mim e estacionou o seu carro no meu pescoço. Sem licença para transitar por meu corpo. Sem habilitação para pilotar sua catraia nos desvios da coluna. Por fim, com a experiência da minha pessoa dando suporte ao papagaio que está cantando a alvorada do seu domingo.
Dizer dor não é curá-la ou anestesiá-la, é torná-la palpável, localizável, identificá-la na palavra que a define. Dor dá o valor do significado, delimita o raio da ação, e materializa o que o corpo sente.
Dor não é o começo da solução do físico problemático, da carne que se faz inconformada com o esqueleto estrábico. Dor não é a causa do sofrimento, não é o dolorido a ser resolvido com alguma medicação, que não há tarja que retrate o alcance do que os nervos nem suportam ouvir o nome.
Dor dá nome à substância do que é feita a sensação. A dor está contida na palavra dor, não é o dolorido nem o sofrimento. Embora o dolorido esteja na experiência, torne mais perceptível o sofrimento a que está submetida a pessoa com dor.
Dor não é atalho, não é desvio, é foco, é incisão no real, é ilha nas realidades de toda sorte. Dei azar, ela quis brincar em mim, e veio com tudo.
Pois em mim, nesta semana que começa por este domingo, e não por outro qualquer, a dor em carne viva não me engana em suas pretensões. De vir e jogar âncora nas minhas costas. De chegar de mala e cuia para explorar o fundo da enseada. De tomar posse das águas, que todo oceano tem de reserva as maravilhas de pré-sal.
Dor é o fim da confusão, é a metáfora que lateja, é o ponto que pode ser rastreado por ressonâncias. Se pode padecer das influências do satélite natural da Terra, sabe de si por mim a reclamar da sua intensidade.
O mais é esqueleto, ossos, enervações, musculatura, carne torta no retilíneo, lombada não catalogada na reta, é curva que não escapa ao radar dos desregramentos.
Mesmo com a vogal marcada, brasileira na vocalização, na entoação que acentua o detalhe; mesmo sendo dita com a cor da praia onde moro; mesmo com a areia que a brisa traz, dor a gente sente. Ou não faz sentido pronunciá-la sem encarnar no que se diz a dor que constrange a dizê-la em alto e bom som.
O que sinto é que me leva a dizer do meu modo ─ dor.
Então, para devolver ao mar o que me veio com a prosa, dor é o sentido que o corpo experimenta, vivencia, dá realidade à existência, não há dor em essência, como abstração. Porém, dor torna lógico o que me individualiza, põe a minha condição no que expresso, torna pessoal o que o corpo está passando.
Dor não vulgariza, não banaliza, não torna público o que é íntimo, privativo, incomunicável. Ao dizer dor, a dor é minha, é intransferível.
Como a dor não mente, resisto o quanto posso, nem acuso o sal do patético, pois não ponho no papel a lágrima. Eu digito.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 18 de agosto de 2019.


quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Abraços cordiais


Abraços cordiais

Será o Bonifácio? Pelo jeito, era.
Abraçaram-se. Com a efusividade de velhos camaradas que contagia quem está por perto. Servi de testemunha, embora um tanto distraída pelo jornal.
O homem que acabara de entrar na padaria foi logo pedindo à atendente uma média e um pão na chapa, com manteiga e não margarina, faça-me o favor, hein.
Não se viam há tempos, os dois.
O homem que não parava na banqueta foi emendando que as filhas estavam crescidas. Uma ganhando bem numa empresa da Noruega, também pudera, é formada na USP. E a caçula trabalhando numa agência de publicidade em Londres, com uma criatividade impressionante, já tem muitos prêmios. Enfiando as fotos na carteira, a Maria Eduarda está com 32 e a Maria Cecília com 34, o tempo passa que a gente nem vê.
Lutava para conter uma lágrima. Queria netos, Bonifácio, mas o que se há de fazer com a mocidade de hoje em dia, meu amigo. Não teve como, a lágrima escorreu.
Mas, ainda bem que a funcionária trouxe-lhe os dois pães. Num pratinho estava o francês intacto; noutro, o passado na manteiga, do jeitinho que o senhor pediu.
Estupefato, o falastrão franziu a testa. Virou-se. Olhou para muitos, para mim também. Num átimo, mergulhei no jornal a minha bisbilhotice. Por acaso, a senhorita está de brincadeira? Sem dar tempo para ninguém, será possível que você não sabe que média é metade leite com metade café, mocinha?
De imediato, ao ouvir o cliente, o rapaz que estava no caixa tomou a frente, o senhor desculpe, é que aqui, na Baixada, a gente chama o pãozinho de média.
O senhor riu a bandeiras despregadas.
Acho que era assim que se riam os antepassados. Se não os meus, certamente riam os barões e as baronesas que tinham vaga em escola de jesuítas e salesianas.
Como estava dizendo, antes da minha própria intromissão, o senhor riu. E o rapaz riu. Menos a balconista, que já cuidava de atender quem aguardava na fila. E os pães perfumavam o lugar com aquele cheirinho de saídos do forno.
Sem nem mesmo comentar o que palpitava no seu interior. E tinha em mente tecer loas aos avanços da ciência. Pensava na mistura genética de macaco com homem que os cientistas visionários da China andam aprontando. Na próxima vez, amigão, diga que os cientistas são espanhóis, viu? Tinha tanto para falar. E nem uma palavra de incentivo à cauda robótica para idosos não caírem que os laboratórios humanitários do Japão andam testando.
Mal engoliu o que pedira, levantou-se. Tinha compromissos ─ inadiáveis, urgentíssimos ─ com empresários do Porto. Veio especialmente para dar um jeito nuns projetos que andam emperrados já faz um tempão.
Meu café esfriou.
Vê se não some, Bonifácio. Abraçaram-se. Vamos manter o papo em dia, Bonifácio. Saíram-se, cada qual para o seu lado.
Só está faltando dizer que, aliás, o Bonifácio nem se chama Benedito? Então, já posso ir.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 15 de agosto de 2019.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Não alimente o dragão


Não alimente o dragão

Queria me entender comigo, mas nem sempre me agradam as respostas. Às perguntas tortas, tortas respostas. Falho ao querer me compreender, pois configuro apenas a caricatura da pessoa que penso que sou. E queria não temer tanto, mas as cobertas não deletam a madrugada que brota em meus ossos.
Quanta comiseração. Melhor mudar a prosa, estão de olho no que é dito. Até em pensamento, espiam. E em rede.
A cabeça, então, torna-se a prioridade. Não caí da cama, perdi o sono. Viro de um lado para outro. Puxo a manta. Ajeito o travesseiro. Vou ao banheiro. Olho a hora. Tiro a manta. Vou beber água. Olho o celular. Afofo o travesseiro. O lençol não esconde o esqueleto. É tal incômodo, a cabeça.
A cabeça abarrotada de lutas. Tantas batalhas perdidas. A guerra da vida pela vida viraliza vítimas. Uma delas perdeu o sono. Não tem a esperança de que os vencedores venham a se declarar vitoriosos. Como sempre, a ganância os impede de lacrar às claras. Rastreiam o vírus. E cobram a fatura pelo que já um dia foi faturado. É a internet das coisas?
A cabeça percebe que dentro dela está crescendo uma massa esquisita. Um troço que imagino horrível. E a gororoba me dá a sensação de ter um cheiro nauseabundo. É pegajosa. Intromete-se nas palavras. Espalha-se pelas ideias. Grudenta.
Nada invisível, a coisa me quer ausente. Mas...
Cabeça, não faça perguntas. Ou terá de respondê-las.
A surdez da obediência nem pede quem a ordene. A ordem da cegueira nem precisa de quem a oriente. O mudo se faz de calado para mais bem não se ouvir. A mácula do inocente está na perna curta das conveniências. Falso pirata, e bucaneiro de primeira. Mas carnaval a vida toda? Maldição!
Tomado por uma decisão, irei mesmo aonde todo mundo que conheço sabe que pode fazer. Já está decidido, e farei. Irei lá, sem medo. E sem hesitação alguma. Largarei o abismo do sonho tornado pesadelo naquela lixeira. Não irei apedrejá-lo. Preciso socar o peste. Darei as pauladas necessárias, até que suma ali. Vou marretá-lo com convicção. Mas algo me diz que isso vai me complicar. E quanto mais penso no que pretendo fazer, mais a coisa cresce. A fúria alimenta a desgraça? O ódio fortalece o monstro? O ruim da cabeça escapa da caçamba para ir comigo por todo canto? Não seria melhor mergulhar o corpo na vala já coberta de mato? Então, viriam os curiosos de sempre. Achariam o afogado naquela baba nojenta. Com medo de contaminação, porém, não tocariam na carcaça podre. A face do asco me faz acordar. Contido a tempo, quebro o taco de beisebol que nem é meu.
Ê cabeça, cabeçona, cabeçorra. Ê cabeção.
Sem querer, encontrei o bicho que vive para me fustigar. A fera que me enoja quer mais que me finja de morto. O poder de fogo da besta está nas cinzas de sua passagem. Por causa do perigo, vou arrumar uma placa.
Caramba... Justo agora, a bateria está por um fio.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 13 de agosto de 2019.



















domingo, 11 de agosto de 2019

O incontrolável da vida


O incontrolável da vida

Há tantas histórias que podem ser contadas. E cada pessoa faz brotar um manancial que não se esgota. Enquanto houver vida. E mesmo depois dela, pelas lembranças que não morrem. Tristes; alegres. Adoráveis; repugnantes. De encantos mil; as bizarras. A gente compondo, tomando parte. Como figurante ou protagonista, a jornada permite muitos enredos. Vive-se com o pé e com a cabeça, embora haja um número considerável de histórias, talvez a maioria delas, que revela o quanto a lógica faz falta. Sem ligar para as incoerências, ou, justamente, pelo nonsense de cada dia.
Esta história poderá vir a ser descartada por quem busca uma fábula, com a lição no fim. Haverá quem fique com a pulga atrás da orelha, sem entender o sentido. Já as pessoas sem tempo para nada terão muito a comentar, mesmo que tenham parado de ler no ponto final depois de sentido. Por sua vez, meninas e meninos vão pedir para que seja contada aquela do lobo que convence o criador de boi a fugir do mato.
Haverá quem a leia até o fim? Mesmo sem a substância das histórias exemplares? À falta da essência humana, mais para o adjetivo? Apesar da gaiatice do escrevinhador? Será?
Era para me levar a isso que este sujeitinho me fez perder o meu tempo neste domingo, logo num Dia dos Pais. Faça-me o favor, seu Rodrigues. Podia ter escrito uma história para dizer o quanto um pai é importante para uma família. Ache no bornal de maravilhas as palavras que tornem leve a macarronada. Vamos, conte uma da qual seja possível tirar leite de pedra.
Como quem conta um conto gosta muito de tomar parte das ações, o contador do causo encontra algo. Nesta historieta ele entra no papel de vítima. Pois sofre nas mãos, digo, nas garras dos protagonistas. Dois insetos.
Não são, assim, apenas e tão somente dois insetos. São, de acordo com a zoologia. Para merecer entrar na história, porém, os bichos são mais do que insetos, são pernilongos.
Não são, além disso, de serem pernilongos os ditos insetos, tão só e apenas pernilongos. São mosquitos de fama mundial.
Do além das fronteiras do meu quarto, vieram os dois para afligir o sono. Perdido, ao primeiro zunido. É-me insuportável o ruído. Transmite a mensagem: ó noite, tchau!
Tchau, mesmo. Nem pego no sono, o primeiro vem zunir na minha orelha. O segundo fica à espera, e vem feito o clarim da alvorada. E funciona que é uma beleza.
Para noites intranquilas? Dengue. Para gerar ansiedade? Zika. Para surtar de vez, chikungunya.
Como quem não tem paciência acaba de chinelo na mão, os olhos testemunham o azar tomar corpo. Os pernilongos torram a madrugada toda. Um, o que mora debaixo da cama, é o primeiro a zoar os tímpanos. Outro, o que mantém plantão atrás do guarda-roupa, vira meu despertador.
Citronela danada, faço a crônica terminar bem ao acabá-la naturalmente... sem mortos nem feridos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de agosto de 2019.
















sexta-feira, 9 de agosto de 2019

À luz da procura


À luz da procura

Como cronista, me informando e pensando a respeito, não quero me poupar do vexame de agir do modo que ajo. Muitas vezes, reconheço, nem vejo a bicicleta na contramão. Só que a minha mãe não é a responsável. Sim, preciso dar ouvidos aos conselhos de quem me quer bem. Muita gente, aliás, me pede para pôr a cabeça no lugar. Sabem como eu sou. Pelos frutos, me envergonha ter de corrigir as precipitações. Palavra, isso de desfazer equívocos, bem, coça que nem pigarro. E nem fumo.
Olha só.
Estava refletindo e, numa crônica de Martha Medeiros, veio o Sêneca falando comigo na maior intimidade. “Perguntas-me qual foi meu maior progresso? Comecei a ser amigo de mim mesmo.” Pronto! Agora, sim.
Vou parar de reclamar das dores nas pernas. Preciso mais é parar de ficar me questionando se posso retomar a caminhada. Preciso reconhecer que não é o tendão de Aquiles que anda fazendo corpo mole. Preciso colocar a saúde em primeiro lugar.
Portanto, o primeiro passo é escrever esta crônica. Logo.
Vou ouvir o que as pessoas que nunca antes tinha visto na vida têm para relatar. Afinal, gente como a gente, sabe por si quando o calo dói, a cabeça pesa e a barriga ronca. Vou parar de falar, sem nem mesmo a obrigação do minuto de silêncio.
Ou seja, o segundo passo é escutar, prestar atenção, sem a comichão do assunto para outra crônica.
Como o INPE não monitora os neurônios autofágicos, enfio o pé na realidade. Que a folhinha continue a voar as datas e as efemérides, uma depois da outra, sem dó e sem filtro. Pois?
Distraído de mim, o mundo me possibilita enxergar com os óculos de outrem. Visualizo nuvens rubras, girassóis ocres e, é óbvio, enxergo com nitidez absurda aquele que considero meu mais fiel autorretrato. Nele, seguro o cachimbo, sem o lóbulo da orelha esquerda e tenho uma barba cor-de-abóbora, ou estaria mais para anil?
Já posso voltar para frente do computador. Porque encontrei a lâmpada fluorescente para a cozinha. Isso depois de bater perna no Boqueirão, que o chuchu do momento é o tal do LED. Mas quis comprar a da minha escolha. Ponho gosto nisso.
Que cabeça!
Preciso ir à quitanda da esquina para tomar nota dos preços de legumes, verduras e frutas. A lista do que deixarei amadurecer mais uma semana? Não cabe no papo do mico-leão-dourado, o filhote único que se esconde no bolso.
Volto da rua. O sol de agosto revela os segredos, tão seguro da primavera que está agendada para setembro. Faz pose de estrela, permite-se o espetáculo do crepúsculo. O fim da tarde diz o friozinho da noite pela candura da aragem.
Cadê a blusa, hein!
Todavia o que me deixa mais amigo de mim é poder assistir a tudo isso deste lugar privilegiado, escrevendo esta visão do dia. E comendo com gosto uma ameixa vermelha, então?
Para terminar, pergunto aos meus botões:
No país do futuro, por que a quimera não voa?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 08 de agosto de 2019.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Querido diário


Querido diário

Grogue, titubeando, passo pela fresta que há entre o sono e a vigília. E é com uma espreguiçada e um bocejo que acabo por acordar. Consigo organizar as ideias. Hoje é dia de crônica. A terça-feira promete uma nova leva de assuntos palpitantes, outra rodada de comentaristas aturdidos, excessos de toda ordem. Isso tudo vindo da ribalta, das coxias, da plateia, do pipoqueiro, está vindo dos confins do teatro. A vida do mundo me atropela para fora da cama.
O computador facilita a minha vida tornando-se funcional tão logo os programas indispensáveis estejam todos abertos. Abro o arquivo em que meus textos costumam ficar à espera de vir à luz na data certa. A crônica desta terça-feira, porém, não está escrita. Faz-se necessário escrevê-la, pego o lápis e o papel, e preciso de uma isca que me fisgue para dentro das palavras.
Que coisa...
Na crônica anterior, publicada no domingo, simulei que me faltava o rumo. Fui navegando ao correr das frases, tirando das águas as palavras que me iluminavam o caminho das pedras.
Nesta crônica, entretanto, estou mesmo caçando vento para inflar as velas da minha nau. O moinho que trago comigo é que começa a girar suas pás. Assim o vento vem da minha cachola e me levando a querer saber das novidades de sempre.
Litoral adentro, subindo a Serra, além da Sé, do Arpoador, da Pampulha e do Alvorada. Ganho asas, perco esperanças. A realidade continua a ranger os dentes, a moer os engenhos, a intoxicar quem a espreita da janela do trem ou quem a apalpa a checar se a podridão da fruta a faz perdida do desfrute.
Impensável não dispensar meu parecer deste momento, de sublime horror, diria uma cronista nossa. Como, ao que parece, os broncos, os cafajestes, os ferrabrases e os estapafúrdios de assalto ocuparam os coretos, rasgaram as partituras, tomaram os instrumentos, baniram as praças, suspenderam os bancos. Cadê os pombos, tão ociosos de ideologias, que vinham tão só pela quirera? Pouco resta, a não ser lamentar pelos dobrados e pelas bandas que tocavam com o furor dos crentes.
Agora, por evidente, resolvi trazer um sonho que na virada da noite passada para o dia de hoje me deixou um rastro de tijolinhos amarelos, ou avermelhados.
Percebo. Já a minha ilusão escapuliu-se, pardal de asas de quimera. Foi-se para o país dos estilingues banidos. Lá onde os passarinhos e as avitas voam na paz dos céus de azul de metileno, ou desmaiado.
Nem percebi. Só não vou me arriscar a nomear a que altura minha perplexidade chegou. É que tenho labirintite e um medo danado de espantoso de andar sobre as nuvens.
Acaso me fosse possível lembrá-lo, ou da andorinha.
A crônica voou. A Terra é azul. A Lua é o primeiro passo. O Planeta Vermelho? Afeito a polêmicas, o cronista dá um jeito de enfiar um bruxismo. Vai ter gente tornando chato o planeta.
Sem lero-lero, abro o jornal.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 06 de agosto de 2019.

domingo, 4 de agosto de 2019

No calor do momento


No calor do momento

Admito que tenho calafrios só de pensar. O cursor do mouse está piscando sobre a folha de papel em branco. Já que letra a letra a coisa está engrenando, a crônica não precisa pegar no tranco. Consigo até entrever o caminho, e sigo por aí. Sozinho. Sem mapa e sem cantil, vou com a convicção de quem gosta de borboletas. Isto é, vou com a fibra dos pusilânimes, dos que sonham sem sequer tomar o café passado ontem. É que não bato ponto, não assino caderno de presença, nem boto a digital numa bugiganga qualquer. Conforme às minhas circunstâncias, informo a nenhuma chefia que estou no batente.
O olor...
O STF determinou que a demarcação das terras indígenas compete à FUNAI, órgão do Ministério da Justiça. A decisão cumpre a lei, pois, ainda e sempre, continuamos com o estado democrático de direito.
Vou além. Penso que o índio, cuidador nativo destas plagas, é quem poderia tomar conta das gentes que desembarcamos na Terra de Santa Cruz de 1500 para cá.
O ponto...
Quem conta história evita a queda do céu, de acordo com o pensamento dos nossos irmãos pré-cabralinos. Quem narra a beleza do sol flutuando na água do rio sabe o quanto é nociva a espuma ao longo de quilômetros do Tietê poluído. Quem diz que a onça vai dormir na barriga do curumim depois de uma boa porção de mandioca conhece o revezamento das chuvas com a estiagem, daí vence dias a pé para chegar onde pululam lambaris e pupunha. Quem usa chinelo, veste calção, morre de gripe e pinta o dorso diante da necessidade é que entende, de fio a pavio, o que significa Terra.
E eu com isso?
Tomo parte na turma dos que produzem os gases do efeito estufa. Reconheço qual o grau de parentesco com a cambada de motosserra que pira quando sai derrubando as árvores. E não há vergonha que faça parar os tratores que rasgam as matas. Sem parar a destruição, satélites espiam a derrubada das florestas. As planilhas inflacionam os custos dos linhões de força. Molhar a mão turbina o fluxo que gera muita energia. As autoridades cortam a fita que nos enforca. O crime, porém, é progresso, discursam paletós e gravatas de todas as cores. Como não dá para aplaudir com as mãos no bolso nem vaiar irá provocar a justiça, as manchetes são mesmo garrafais. Com o que a imprensa anda ventilando, o cafezinho poderia ter sido adiado. Aliás, o copo de plástico deveria ter sido descartado. E jogaremos torta na cara da emergência climática? Faremos vento com discursos? Provocaremos chuva com perdigotos? Ainda não dá para fritar ovo no asfalto? A lâmpada queima do nada? O ar-condicionado no talo é para poder dormir em paz? Que paz?
Para colocar juízo na nossa cabeça, precisamos de quem tenha experiência. Como o planeta é um só e não antevemos o fim do mundo, precisamos, e não só, dar ouvido aos indígenas, ou melhor, os ianomâmis, pancararus, crenaques, charruas...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 04 de agosto de 2019.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Sexo, amor?


Sexo, amor?

Sexo. Com um friozinho na barriga. O coração vem à boca pelas palavras maviosas que desabrocham com a voz melíflua. Afora os trejeitos afetados. Tanto açúcar no cérebro, o excesso afeta a mão que entrega o cartão, o meu.
Sexo. Falta chão para sentir o café derramado na calça. O enlevo que me embala, pelo perfume que nem sei qual seja, é sonho que me consome. Padeço da atenção que lhe devoto.
Sexo. Os olhos chegam a lacrimejar quando a musa entra na livraria, atrás de um presente para sua cara-metade. Como se ela, a garota dos painéis espalhados pelo Brasilzão, viesse do Olimpo para curtir a Praia do Forte. Preciso de folga.
Sexo. O choque de mil volts dá-se quando os nossos braços cometem a imprudência de uma resvaladinha ao querer pegar o pacotão de fritas na gôndola. Com a plateia contida por dois brutamontes de firma especializada, vindos do Rio. Deliro.
Sexo. Alguém teve a ideia maravilhosa de botar o último CD lançado. A divina endiabrada rebola para escapulir dali num pé. Afinal, quero os holofotes sobre a minha estafa ou não?
Sexo. Não vou ficar vendo o mesmo clipe o resto da tarde. Que o crepúsculo traga a noite que se condensa com Sangue de Coca-Cola. Quero mais é mergulhar nas histórias que me alimentam os cães da fantasia que fazem festa comigo.
Sexo. Não ligo a TV, não acesso a internet e não capitulo de celular em punho. Resisto à perdição do momento. A prioridade do instante? Avançar no capítulo que estou quase acabando.
Sexo? Sexo nada. Nada?
Amor, pega para mim aquele pacote de fritas que está ali na parte de cima? Pego, meu amor. Empurra o carrinho, a lista na mão: lado a lado. Pessoas que dividem os afazeres domésticos, curtem cerveja no gargalo, e vão de luz acesa ou apagada. Tais personagens bem poderiam viver no prédio.
Amor, e sem medo posso dizer que é amor?
Amor é o que sinto quando acordo e corro ler o que escrevi na noite anterior. Há textos que sobrevivem ao sono, capazes do sorriso sereno, encorajador. Contudo, outros há que travam mal começo a leitura com meus olhos desanuviados. A ambos, porém, preciso provar que os amo, dando a demão do legível.
Amor, e amor daqueles que contamina a gente que nem me conhece direito. Em lançamento de obra alheia, tomando como se fosse minha, me pede uma foto exibindo o livro. Por mim, é um sinal do amor.
Tem também o amor aflito, porque não fiz a solicitação de reserva. Toma as minhas pernas, controla meus pés e me faz engolir a distância de casa até o sebo. Uns dois quilômetros, por aí, venço-os num súbito. Todo esbaforido, suado. Com as ondas de cansaço e com o esgotamento dos nervos e tendões, testa-me a carne cinquentona. No entanto, o título capital para o andamento da fabricação do próximo romance ronrona no meu colo. Já posso bebericar o cappuccino. Além da capa, este amor palpita.
Amor... E quando rola sexo, então?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 01 de agosto de 2019.