No
ponto
Caramba,
não consegui mandar um material por e-mail. Era para ontem, e não tive tempo. Minha
nossa, como a vida está corrida. Nem dá para dar conta do que é preciso fazer
com o tempo que a gente tem. Sessenta segundos parecem menos, em torno de vinte
ou quinze, de tão veloz que anda a marcha do mundo.
A
realidade vigora independentemente dessa cronometragem. Ela segue as leis
físicas de seus atributos. Passo a passo, instante a instante. Me parece que
está na hora de pegar um atalho, para ganhar tempo. Isso ia quebrar um galhão.
Não me conformo com o mundo preso à velocidade do momento.
E o
apartamento está mesmo precisando de uma limpeza daquelas. De arrastar móveis,
bater as cortinas, passar escova nos rejuntes do banheiro. Uma faxina
caprichada. Mas, quede tempo?
Preciso
encontrar um tempinho para mim.
Sei
como, e dou um jeito nisso. Entro no primeiro ônibus que passa. Vou sentar num
dos bancos que ficam acima dos pneus. Por serem mais altos, posso passar a
impressão de que estou só de olho na vida fora do veículo.
Curioso,
a barulheira toda me faz pisar no freio. Ou melhor, para não me atropelar, tiro
o pé do acelerador. Aos poucos, tudo vai se ajeitando e atinjo uma velocidade
que me permite a observação de quem é mais um na balbúrdia.
Nada
mais urbano.
E vejo
as pessoas atarefadas, de zap em zap. O rapaz que engole a batatinha quase consegue
mastigá-la duas vezes. A mulher que reclama da cobrança do cartão nunca ouviu
falar em Altamira, o que dirá ter R$ 1.068,00 para torrar na janta.
Como o
motorista do ônibus, porém, é obrigado a respeitar os semáforos, ele não vai na
maciota. Aos trancos e barrancos, vai parando de ponto em ponto feito um alucinado.
Como se o mundo fosse acabar num instante.
Interessado
nas pessoas, queria exercitar a minha escuta em paz. Vim para esfriar a cabeça,
alimentá-la com histórias. Só que o motorista está por demais acelerado. Nem
bem sentei e já estou uma pilha, louco para descer.
Contrariado,
caio fora da barca. Meu barco é outro.
Não faço
caso, volto para casa. A pé. Vou devagar, sem a febre dos condenados que comem
os segundos achando que a vida tem prazo de validade. A curtição do momento é
viver como se cada segundo fosse um instante a mais e não um a menos. Aprecio o
caminho, tantas novidades e redescobertas.
O
corre-corre do mundo deixa a gente meio perdida; aliás, bem confusa. Mantendo a
calma, com o foco no que faço, não troco os pés pelas mãos nem compro gato por
lebre.
Resistindo
aos desembestados, aumento a pressão.
Pra já,
meto a colher, examino o grude, reconheço o paio e a linguiça. É chegado o
tempo de não levar tudo em banho-maria.
Pra
encurtar o papo.
Já que
agora sou todo pressa em não deixar pra lá que nem casca grossa esconde com
quanta bosta se faz um banana, ratifico este osso duro de roer: são perversos
os homens que tornam sombrios os dias.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 29 de agosto de
2019.