quinta-feira, 31 de maio de 2018


novidades da terra do nunca


embora mortos os pombos,
as notícias voam.
propício a voos suicidas,
o céu convida com aquele azul alvissareiro.

sob a capa da invisibilidade,
camadas e camadas do fogo mais camarada.
as nuvens acumuladas num limão,
e de repente, muito de repente, eclodem as larvas.

seja cumprida a lei,
nem que exale um ligeiro mal-estar.
passageiro, como todo frêmito,
nem é preciso reforçar o tom laranja do tambor.

sol açúcar, o olho abelhudo
diz o mel de suas retinas sanguessugas.
ó sensações caligráficas, ó sinfonias hiperbólicas,
o ocre celular crava a aldeia no barro.


(2014)



sexta-feira, 25 de maio de 2018


lar

prendo a rotina, traço retas com o olhar,
passo pela porta, pela fenda aberta,
as retinas medem as rotas, mas a morte.
penso a hibernação.

sendo a aflição cotidiana, pedestre, do sono aos cacos,
embora ninguém mais o tema,
o poeta em mim compreende o poema:
falta perder-se dos rascunhos;
falta seguir sem dizer as suas mímicas;
sentir-se comprometido, sombra na parede.

se afeito aos rumos do meio-dia, aceito pelo cansaço;
se cachorro abusado pela sarna, dobram-me
as veias do inverno, a língua em riste, os pulsos do entusiasmo;
se um amestrado suicida, enrolam-me
os pensamentos do fogo, as labaredas da lua, a lambida na espinha.

sou outro, e ancestral.
banco o morto pra viver em paz.
aprendo a caverna, sinto a morte em vida.



(2016)