A
pedra do destino
Quem nada espera, nada alcança? Quando
a alegria vence o medo que assombra o trabalhador, pouco importa a redução de
danos dos terceiros? Não espero que ajam, ajo.
Então, o Estadão informa que, dos quinze
segmentos industriais avaliados pela FGV, dois, o de papel e celulose e o farmacêutico,
estão operando acima da média dos últimos meses, mais 43 mil ficarão sem emprego desde março.
No dia 15 de abril, na Folha, Ronaldo
Lemos pergunta sobre quem vigia os vigilantes que têm a obrigação moral, mas não
a legal, de zelar pelo sigilo de cadastros dos contribuintes, porém 2,4 milhões
de dados do SUS vazaram...
Quem inspeciona quem valida notas,
informações e que tais que vivem sendo transfiguradas em notícia no mundo dos
sítios mutantes e das folhas impressas?
Não desempenho o papel. É você?
De tão pesada, a carga da realidade
foge dos trilhos, invade a boleia dos caminhões, desaba nas sarjetas das
cidades. Mas para nosso alívio, célere porque sem licitação, o Ministério da
Cidadania quer a abstinência da nossa gente, por isso já está fortalecendo as burras
de 496 entidades religiosas que seguem o bê-á-bá oficial sobre a dependência química,
isto é, R$ 153,7 milhões do erário acodem já esses humanos direitos.
Como o caos está disfarçado de inferno,
melhor é abordar diretamente o inconsciente: o que existe de atual no futuro é
o mesmo que há no passado, é o instante que se faz presente no momento que
passa para poder-se passar ao próximo instante. Além do instante? De igual para
igual, um segundo basta ao Z para intuir-se em ideias, valores, propósitos. Para
ir fundo...
Que felicidade quando o pensamento
casa bonitinho com as palavras que o expressam. Matei o pensamento? Nada.
Agora, é parte do jogo buscar outro modo de dizer a mesma coisa, só que usar
outras roupas acaba destacando o manequim, pelas medidas e pelo porte. As
palavras, umas engraçadinhas, para dizer o dito: de coturno, bota ou botina? Ainda
bem que nossa língua ignora sinônimos perfeitos. Então, leitora amiga e leitor
amigo, variações semânticas fingem similaridade com tamanho empenho que a leitura
empolgada faz uso da máscara do igual, como uma aproximação entre significados.
Claro que entendo, sei, é uma obsessão,
a tal da ideia fixa. Como espelho, a cara do obsessivo fixa ideias. Leio-me.
Opinião vira notícia quando ofende,
difama ou calunia. Em outras palavras, opinião não é falsa nem quando é fato.
Moralidade é escolha. Para perorar por
silogismo: a ação é histórica. Ou seja, pondo outra roupa nesta ideia: a ação a
cujo valor corresponde o que faço é que ganha corpo enquanto é executada. Ou
seja, para deixar claríssimo que dou voltas com as palavras: realizada a ação, o
valor existe.
Vou facilitar o bordado com o fio do
pensamento: faço mal a quem quero, da forma que desejo, sabendo que as leis
estão aí na praça para me impedir as malfeitorias. Porém, solitário que sou,
mostro o dedo do meio, para mais bem deixar evidente o quanto desprezo o lobo
que me quer na alcateia.
As leis definem o inimigo. Quero-o
próximo, com o rosto na janela do bonde em que não viajo. Tenho pés, a mim me
basta andar como quero. Sou do tipo de andarilho que não corre da chuva nem da
geada, vou indo sem destino.
E daí?
Em matéria d’O Globo, nesta
segunda-feira, dia 22 de abril, o repórter faz um relato sobre a quanto anda o
museu a céu aberto que é o Rio de estátuas e homenagens em bronze.
Na Praça Nossa Senhora da Paz há
guerra. A pobre menina dos balões sente no corpo a sua irrelevância: os balões,
apesar de material denso e mais pesado que o ar, foram aos céus; as mãos,
talvez aflitas com o verão tétrico dos 50ºC, optaram ir se recompor em outra
paróquia; agora, foi-se uma das pernas...
O que isto quer dizer?
Mutilados ficamos todos nós outros que
sabemos que nada é feito porque o descaso com a coisa pública é o patente sinal
que indica que os símbolos da pátria, da nação, da sociedade, da comunidade, da
brasilidade traduzida em metal estão fora da agenda das otoridades. Lamentável é saber que tais signos pouco representam a
quem deveria guardar nossas emoções, nossas lembranças, nossas memórias traduzidas
em bronze. O descaso, porém, atinge os artistas cujo talento torna palpáveis, e
admiráveis, as ideias e os sonhos que nos identificam.
Gostemos ou não, as esculturas e os
monumentos públicos têm a nossa cara, e dizem de nós o que pensamos sobre nós
mesmos. Este abandono, ainda mais, põe a nossa cara para o tapa que as
autoridades desferem em nosso rosto. E reagimos como? Com a indiferença dos
analfabetos políticos. Quem tem de cuidar de patrimônio público é político, né?
Não. Quem tem de cuidar de político, para fazê-lo trabalhar pela integridade da
coisa pública, é o eleitor, que é cidadão, pagador de impostos e cumpridor de
leis e regulamentos. Há que se exigir dignidade e honorabilidade aos
administradores, e se eles não as têm para si, tenham-nas por nós, que não
somos da sua laia, na falta de postura e na indigência moral dos que nos querem
degradados e sintomáticos ao nível deles. Temos de vigiar estes que nada
vigiam. Um celular pode ser vigiado 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem o apagão
da negligência. Pois bem, quanto custa colocar câmeras para honrar o que
pensamos sobre o nosso passado? Quanto vale vigiar por nós que, na labuta, acabamos
presos ao cotidiano no qual seguimos eleitos desprezíveis aos olhos de quem não
se ocupa do bem público, da coisa pública, da república. Ei, republicanos, quem
dita o valor?
Sem respostas, mas cobrados pelo voto.
Mas, enfim, a Gerência de Monumentos e
Chafarizes do Rio não pode cuidar dos 1.374 equipamentos públicos, pois, pelas
leis patafísicas, o bronze evapora com o sol...
Melhor converter tudo em pedra.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 25 de abril de 2019.
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