quinta-feira, 25 de abril de 2019

A pedra do destino



A pedra do destino

Quem nada espera, nada alcança? Quando a alegria vence o medo que assombra o trabalhador, pouco importa a redução de danos dos terceiros? Não espero que ajam, ajo.
Então, o Estadão informa que, dos quinze segmentos industriais avaliados pela FGV, dois, o de papel e celulose e o farmacêutico, estão operando acima da média dos últimos meses, mais 43 mil ficarão sem emprego desde março.
No dia 15 de abril, na Folha, Ronaldo Lemos pergunta sobre quem vigia os vigilantes que têm a obrigação moral, mas não a legal, de zelar pelo sigilo de cadastros dos contribuintes, porém 2,4 milhões de dados do SUS vazaram...
Quem inspeciona quem valida notas, informações e que tais que vivem sendo transfiguradas em notícia no mundo dos sítios mutantes e das folhas impressas?
Não desempenho o papel. É você?
De tão pesada, a carga da realidade foge dos trilhos, invade a boleia dos caminhões, desaba nas sarjetas das cidades. Mas para nosso alívio, célere porque sem licitação, o Ministério da Cidadania quer a abstinência da nossa gente, por isso já está fortalecendo as burras de 496 entidades religiosas que seguem o bê-á-bá oficial sobre a dependência química, isto é, R$ 153,7 milhões do erário acodem já esses humanos direitos.
Como o caos está disfarçado de inferno, melhor é abordar diretamente o inconsciente: o que existe de atual no futuro é o mesmo que há no passado, é o instante que se faz presente no momento que passa para poder-se passar ao próximo instante. Além do instante? De igual para igual, um segundo basta ao Z para intuir-se em ideias, valores, propósitos. Para ir fundo...
Que felicidade quando o pensamento casa bonitinho com as palavras que o expressam. Matei o pensamento? Nada. Agora, é parte do jogo buscar outro modo de dizer a mesma coisa, só que usar outras roupas acaba destacando o manequim, pelas medidas e pelo porte. As palavras, umas engraçadinhas, para dizer o dito: de coturno, bota ou botina? Ainda bem que nossa língua ignora sinônimos perfeitos. Então, leitora amiga e leitor amigo, variações semânticas fingem similaridade com tamanho empenho que a leitura empolgada faz uso da máscara do igual, como uma aproximação entre significados.
Claro que entendo, sei, é uma obsessão, a tal da ideia fixa. Como espelho, a cara do obsessivo fixa ideias. Leio-me.
Opinião vira notícia quando ofende, difama ou calunia. Em outras palavras, opinião não é falsa nem quando é fato.
Moralidade é escolha. Para perorar por silogismo: a ação é histórica. Ou seja, pondo outra roupa nesta ideia: a ação a cujo valor corresponde o que faço é que ganha corpo enquanto é executada. Ou seja, para deixar claríssimo que dou voltas com as palavras: realizada a ação, o valor existe.
Vou facilitar o bordado com o fio do pensamento: faço mal a quem quero, da forma que desejo, sabendo que as leis estão aí na praça para me impedir as malfeitorias. Porém, solitário que sou, mostro o dedo do meio, para mais bem deixar evidente o quanto desprezo o lobo que me quer na alcateia.
As leis definem o inimigo. Quero-o próximo, com o rosto na janela do bonde em que não viajo. Tenho pés, a mim me basta andar como quero. Sou do tipo de andarilho que não corre da chuva nem da geada, vou indo sem destino.
E daí?
Em matéria d’O Globo, nesta segunda-feira, dia 22 de abril, o repórter faz um relato sobre a quanto anda o museu a céu aberto que é o Rio de estátuas e homenagens em bronze.
Na Praça Nossa Senhora da Paz há guerra. A pobre menina dos balões sente no corpo a sua irrelevância: os balões, apesar de material denso e mais pesado que o ar, foram aos céus; as mãos, talvez aflitas com o verão tétrico dos 50ºC, optaram ir se recompor em outra paróquia; agora, foi-se uma das pernas...
O que isto quer dizer?
Mutilados ficamos todos nós outros que sabemos que nada é feito porque o descaso com a coisa pública é o patente sinal que indica que os símbolos da pátria, da nação, da sociedade, da comunidade, da brasilidade traduzida em metal estão fora da agenda das otoridades. Lamentável é saber que tais signos pouco representam a quem deveria guardar nossas emoções, nossas lembranças, nossas memórias traduzidas em bronze. O descaso, porém, atinge os artistas cujo talento torna palpáveis, e admiráveis, as ideias e os sonhos que nos identificam.
Gostemos ou não, as esculturas e os monumentos públicos têm a nossa cara, e dizem de nós o que pensamos sobre nós mesmos. Este abandono, ainda mais, põe a nossa cara para o tapa que as autoridades desferem em nosso rosto. E reagimos como? Com a indiferença dos analfabetos políticos. Quem tem de cuidar de patrimônio público é político, né? Não. Quem tem de cuidar de político, para fazê-lo trabalhar pela integridade da coisa pública, é o eleitor, que é cidadão, pagador de impostos e cumpridor de leis e regulamentos. Há que se exigir dignidade e honorabilidade aos administradores, e se eles não as têm para si, tenham-nas por nós, que não somos da sua laia, na falta de postura e na indigência moral dos que nos querem degradados e sintomáticos ao nível deles. Temos de vigiar estes que nada vigiam. Um celular pode ser vigiado 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem o apagão da negligência. Pois bem, quanto custa colocar câmeras para honrar o que pensamos sobre o nosso passado? Quanto vale vigiar por nós que, na labuta, acabamos presos ao cotidiano no qual seguimos eleitos desprezíveis aos olhos de quem não se ocupa do bem público, da coisa pública, da república. Ei, republicanos, quem dita o valor?
Sem respostas, mas cobrados pelo voto.
Mas, enfim, a Gerência de Monumentos e Chafarizes do Rio não pode cuidar dos 1.374 equipamentos públicos, pois, pelas leis patafísicas, o bronze evapora com o sol...
Melhor converter tudo em pedra.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 25 de abril de 2019.




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