Um dia qualquer
Sábado é para sair por aí para o que
vier. Sabe aquilo da casa para o trabalho? Não é dia disso. Vale mesmo é saborear
a diversão dos descobrimentos. Vendo-a sem os vícios do dia a dia, a cidade revela
o que nunca escondeu a quem a vê no que tem de urbano. Mesmo sendo a mesma, é
outra.
Vou-me pela avenida. Cheia de pessoas
que anunciam que vendem o que não compram. Na esquina, com a minha cara de quem
diz para onde?, nem marco passo nessa
toada. Achega-se de mim uma mulher que me desconcerta, a manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda engoliu o mamparra...
Sem saber o que responder, sorrio. Mamparra?
Sigo caminho. Um automóvel freia
brusco. O motorista mete a mão na buzina. Volto para o meio da rua, certo do
erro de achar que a velocidade da luz me
protege contra o enigma. Quiçá até o Murilo Mendes me chamasse nefelibata.
Já estou na Praça Luís de Camões. Nunca
antes na minha história de navegador citadino tinha vindo cá.
Cadê o Poeta? Não gosto disso. Não o
encontro. Ajeito os óculos para o olhar de águia, lince, coruja. Ufa! Que
safado... Atrás da horta? Da folhagem do jardim. E de pés serrados. E sem a
cabeça. O que fizeram com vossa mercê...
De óculos escuros, bermudão e sandália
de couro, na maior intimidade, pegando-me pelo braço:
─ Julga-me
a gente toda por perdido, vendo-me, tão entregue a meu cuidado, andar sempre
dos homens apartado, e de humanos comércios esquecido.
O idoso ficou olhando para mim,
carente da interação. E eu? Me faço de bobo, dando bobeira mesmo. Não gaguejo,
porque sinto uma bolha, de ar e saliva, que me vem à garganta. Só me restar
sorrir e acenar-lhe.
Quem será?
No momento, quero mais é sentar. Para
ganhar um ar.
No calçadão, sento. Uma senhora
mirrada também faz o mesmo, e sem pressa. Seu cachorrinho olha para os demais
que saracoteiam para todo lado. Ela não o põe no chão. Sem mais, solta que há o estar da pedra, há o estar do corpo, há
peso e forma: os frutos apodrecem. Me deseja um bom-dia e vai-se embora.
Para onde?
Mudo de lado no banco. O Atlântico
está convidativo. Mas a areia... A criançada correndo... Os vendedores...
Melhor ficar.
Chupando sorvete, as mãos lambuzadas,
eis que me chega um homem intimidante. O bigode intacto parece afiançar e
enfatizar que dizem que finjo ou minto tudo
que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Na nuca, sou picado por um bicho que
não sei de onde veio. Foi embora. Dói. Coço. O inseto que me observa não sabe o que vê. Planeja coisas para mim que
não são do meu conhecimento.
De quem são tais palavras? Sem o
celular, em casa vou procurar. Se não me esquecer, vou procurar. Palavras
picam?
Que sábado é esse?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 23 de junho de 2019.
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