Amor
de glutão
Burguês indiscreto, comprovando o meu
veredito, costumo tornar público que teimo testar minhas deficiências. Com o
entusiasmo lírico dos apaixonados, caso a caso, vou me apurando pelos
resultados do que busco fazer melhor.
Desejo e gosto do que desejo, pelo que
me apraz, só que não vivo apenas do bom e do melhor, ainda que me faça bem
querer alcançar o que segue distante.
Distante como um belíssimo amanhã, uma
alvorada sublime, pois é isso que me convida a tornar possível o que acho
provável que seja plausível, pois conto que seja moldável por minhas mãos
humanas o que me transcende.
E, com o produto da minha imaginação e
do meu engenho, a cada vez em que me experimento capaz de produzir algo
desfrutável, seja na carne dos meus pensamentos que dançam a canção da vida,
seja na ideia dos meus ossos cantando o chão do mundo, é com isso que vou na
estrada, pelo caminho que vou traçando.
Todavia, quem eu quero enganado?
Há êxitos e há fracassos.
Pelo prazer que me toca produzir, agrupo-os
como agradáveis e desagradáveis, úteis e inúteis, alegres e tristes, como se minha
ânsia de carimbador dominasse a realidade rotulando-a.
Falhando, insisto em experimentar
variações. E torno a fracassar, e não paro. E tento, e falho. Minha falha maior
talvez esteja nisso, em não desistir, insistindo, resistindo.
Convenientemente, poderia seguir pedindo
justiça aos românticos que veem o que muitos não divisam ver. Pelas fissuras,
pelas frestas, pelos vãos, poderia seguir dizendo que vivo para trazer à tona o
luar que eles intuem estar aí, logo ali, bem aqui. E posso tais quereres.
Diante do nariz, cobiçado pelos olhos, sentido
pelos dedos?
A língua aguça o corte, pelo que sangro,
fervo, tempero e reparto.
A boca tem a língua, também tem os
dentes; por isso abocanho, mordo, trituro e engulo.
Começo pelo café da manhã, e repito à
tarde. Dois copos de água para duas colheres de sopa de café, sem um grão de açúcar.
Pronto.
Depois: pro copo de arroz, dois de água;
e o fio curto de óleo com a pitadinha de sal. Pronto.
A mistura? Carnes e legumes. Embutidos e
hortaliças. À vera.
Sempre assim? Mais ou menos. De acordo
com o dinheiro que dá pra atender a vontade. E as vontades são muito variadas,
e muitas.
Mas, a caminhada menos turbulenta pede a
repetição do testado, aprovado e que faz diferença quando ausente.
Fibras animais e vegetais. Cozidos e
crus. Gostos e desgostos.
E tem ovo frito, cozido e poché. Afinal,
ovo é ovo.
Se me prendo a só isso?
Aprendi a alegrar minhas rotinas com a musse
de limão.
Uma vez que o azedinho tira do sério o radar
crítico, fazendo-me comer uma e mais outra e ainda mais uma, tigelinhas e tigelinhas
de amor tão gostoso, oba, é pela gula que muito amo.
Vez ou outra, me regalo que não faço mal.
Agora, o presente que se faz urgente?
Possam as pessoas amigas deliciar-se com
A festa de Babette.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 31 de janeiro de 2021.