Conheço as palavras, sei o que
significam, mas soarão falsas se as trouxer à crônica. Soarei hipócrita se
desejar feliz ano novo, com muita paz, muito amor, muita saúde, muito isso e
muito aquilo. Sem esquecer o dinheiro no bolso para o pote de sorvete, o pacote
de talharim e, para o mês que vem, dois quilos de patinho moído.
Adoto o cinismo ao pensar que a vida poderia
ser nova apesar das guerras, das chuvaradas, das emendas chegando atrasadas às
pontes que caem.
Apesar dos remendos, que os pneus rodem
até restar-lhes a única opção: a reciclagem.
Reciclo a esperança, tiro a folhinha da
parede, martelo para afirmar o prego bambo, passo um pano seco, penduro a nova
folhinha, porém não conto quantos feriados cairão na sexta ou na segunda, que
desejo o ano novo como repleto de energia boa, que há de impulsionar-me às
jornadas, haverá de pulsar em mim como objeto não identificado, posto que será
novo, desconhecido, irredutível ao esperado.
Não conto que a esperança aflija-me outra
vez, pois será nova, será desconhecida, e, ao sabor do acaso, será flexível.
Ao azar do gosto, malemolência não
significa adaptação, quer dizer que sambarei e assobiarei ao colher jaca. Ou
seja, só vou apanhar jaca porque a ela irei, apesar de ir assobiando e
sambando.
Assobiando e sambando como o camarada sóbrio
que sou, porque, afinal, embriagados são os outros.
Direi as palavras que conheço, farei com
que sejam entendidas pelo que acredito que signifiquem, mas não me negarei pela
segunda vez e descansarei à sombra da jaqueira.
Apesar de saber que jacas caem, à sombra
de mim, ficarei à mercê da Terra, que vai girar, rodar e extravagar pelo cosmo.
E vagamundearei, comigo inclusive.
Quando as formigas começarem a vir, não
me abalarão, eu boiarei no corpo; elas que façam a festa que precisem fazer, pois
jaca abatida é repasto posto.
Não fingirei que não percebo e
disfarçarei o maravilhamento: a vida é fogo que corre pelo que ainda pode
queimar.
No entanto, não queimarei ponte alguma:
o mundo é jaca caída que chama quem tem fome, quem come para sobreviver.
Sobreviverei sem comer jaca, sem pular
da ponte e sem babar feito bocó enquanto as formigas sumirem com o repasto
caído do céu.
Sei que jaqueira tem raízes, tronco e
galhos, mas não chamarei a atenção sobre o meu corpo à sombra daquele ser em
flor.
A realidade diz jaca, jaqueira,
formigas, sobrevivência e soneira, sei que poderei recolher-me ao songamonga que
pense o instante com o próximo, que há de seguir distante pra que eu,
mentecapto e gracioso, não faça a besteira de lambuzar-me de jaca só pra
assistir às formigas fervendo.
De repente lambuzado, embora isso mostre
o quão besta eu posso ser, seguirei sem tocar Beethoven.
Como não toco piano, nem mesmo o piano
que não tenho à sombra das jacas...
Fala sério! Não tem nenhuma crônica mais
jocosa?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 31 de dezembro de 2024.