terça-feira, 23 de abril de 2019

Um complexo simples


Um complexo simples

De ofício, como titular desta ação cultural que desencadeia a presente, provoco a crônica do corrente dia, 23 de abril, a se manter equilibrada, racional o bastante para ter no bom-senso a Estrela da Manhã, como guia e farol. Afinal, porque vivo para escrever, sigo na rotina da leitura do mundo com os sentidos. No entanto, para transformá-la em texto capaz de ter quem o leia, recusarei vulgaridades, banalidades e obviedades, apesar de danado, o oficiante.
Despido da graça do riso fácil, do humor fleumático, do olhar irônico, tenho, ao menos, a petulância de querer-me atento aos sinais dos tempos. Embora tal entendimento não ande lá muito bem da veneta, trato de ir à flor dos nervos, sem invisibilidade.
Assim, tomo inevitável a conclusão que é melhor mesmo ir sozinho, afeito mais à discrição do observador do que dado aos gritos dos celerados, que, incapazes para dominar as próprias chamas, imolam-se a olhos vistos.
Com a licença necessária, estimada leitora e prezado leitor, volto à crônica anterior para dela pinçar duas passagens. Diz a primeira: se lambo o mundo com todos os sentimentos; diz a segunda: a enfermidade está na demasiada fraternidade.
Começo pela última. Pois, uma vez que valorizo sobremodo quem odeio, o meu ódio é para bem poucos. Procuro preservar a sanidade, construindo as distâncias que me permitam ficar na minha, retraído mas alerta. Afinal, quando estou na presença dos odiados, estou fora de casa e isto contamina o meu juízo.
É o desconforto do confronto que me faz passar por cima da indiferença. E me ponho vivo, de olho nas pessoas, curioso em saber o que pensam, pronto a interpelar o que dizem. O ódio é o filtro pelo qual separo o ruído de fundo, distancio-o do que preciso escutar com cuidado. Faço questão de ouvir. Para não perder uma vírgula, me aquieto. Retesando os meus neurônios e dispondo dos meus tímpanos para as sutilezas, percebo as entrelinhas nas pausas da respiração. E sem me deixar cair no entusiasmo, o ódio me resguarda do pior que há em mim, e me motiva a interpretar o contexto e a localizar quem fala.
Da escuta passo à argumentação, escolho as palavras, não falo por falar. Sem levantar a voz, mantenho a objetividade. E quanto mais a irritação me faz pensar contra a minha vontade, mais vou abaixando a voz, mais vou falando devagar. Mil vezes ficar quieto no rancor de pessoa incomodada com essas ideias alheias, mas é a mobilização da mente enfiada num corpo que reage à interação com objetos do ódio que me tira da inércia de permanecer mudo, posando de indiferente.
E...
Ao fim e ao cabo, todo este processo de repulsa me leva ao diálogo com quem menos quero papo. Amo odiar quem me faz vivo, a pensar as circunstâncias, a dar o melhor de mim, a me incentivar à discórdia, à discussão, ao debate.
O antagonista virar protagonista? Merda!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de abril de 2019.

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