Esgotamento
“De folga hoje?”
“Tô de licença médica.”
“Tem o quê?”
“Cansaço.”
“Cansado? O ano mal começou e o senhor
tá cansado, é?”
“Tô, rapaz, tô bem cansado. Cê vai achar
que faço graça, mas falo sério. Não foi só a lama do temporal que acabou
comigo, passar o final de semana limpando casa só piorou a bagaça toda.”
“Agora que comentou, não é que tem razão?
Cê tá tão acabado que até espelho corre da sua cara feia.”
“Não brinque. Passei a madrugada de
sexta tentando salvar o que desse, mas perdi cama, sofá, o beliche das
crianças, geladeira, fogão, máquina de lavar, até a casinha do cachorro.
“Nossa! E agora, meu chapa?
“Pois é, rapaz, tomei um prejuízo e
tanto. Não tenho ideia de como vou fazer pra comprar tudo de novo.”
“Vai ter que trabalhar em dobro.”
“Tá tirando onda com coisa séria, rapaz?
Caraca, tenha compaixão. Com mulher e três filhos pra dar de comer, estou
ferrado.”
“Não tô tirando uma, não. Falo sério,
seríssimo. Se quer ter tudo de volta rapidinho, você vai ter que encarar dupla
jornada. Limpar a escola e limpar vidro de escritório. Não vejo outra saída,
cara.”
“Comprar as coisas que perdi não é
problema. Meu salário dá bom crédito pros boletos, mas o que preocupa é o meu
físico.”
“Tá querendo enganar quem? O seu muque é
de quem malha.”
“Que nada. Já era aquele jovem que tinha
braço pra colocar guarda-roupa em carroceria de caminhão. Aquele moço não
existe mais. Agora só sinto é dor no peito quando me esforço além do que
posso.”
“Meu amigo, tome de vez o sorvete antes
que ele vire suco.”
“O que é isso, cê pensa que tô
alucinando? Rapaz, gente que nem eu, que nunca nadou em dinheiro, conhece da
vida que suco tem mais é que ser bebido, jamais jogado com copinho e tudo.”
“É bom mesmo que cê não jogue lixo de
plástico por aí, pois a chuva vem e leva tudo pro bueiro, a água fica
bloqueada, o volume não escoa e o alagamento vira inundação e ninguém sai
ganhando com isso.”
“Rapaz, eu sei bem o que é certo. Não me
trate feito criança porque não sou nenhum debiloide. Se eu não tivesse vivido
minha vida inteira em área de risco, poderia ficar chateado com você. Conheço
na carne o que é acordar de madrugada com facas feito jacaré vindo na minha direção.
Vem cá, cê tem coragem de negar que estas cicatrizes no meu rosto não provam
por “a” mais “b” que o mundo me ensinou o que seja sofrimento?”
“Tenha dó, Augusto. Tá querendo que eu ria,
né?
“Mas precisa botar o dedo na minha fuça?
É falta de respeito, rapaz. Não acho legal da sua parte porque você vive onde
vivo. Então, o que passa na sua cabeça de sair acusando que o maior culpado
pela nossa desgraça somos nós mesmos?”
“Não torra, meu! Não falei que é sua culpa.”
“Certo, Manuel. Eu sei que você não faz
o tipo de quem bota banca apenas pra parecer bonito na selfie. De minha parte,
lhe agradeço por sua sinceridade honesta.”
“Como convidado não paga, leve uns
picolés pra tropa toda.”
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de fevereiro de 2023.