quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O norte da sorte

 

O norte da sorte

 

Por mais que eu tente, não consigo. Há dias que me esforço, busco a condição favorável. Desejo tanto ajudar a conseguir que prejudico. A ansiedade atrapalha, confunde, só aumenta a desventura.

Há dias que nem deveria ter tentado ser instrumento a canalizar as boas graças do universo; a minha cachola dá pane.

Tão nefasta é a pane que beira a pânico.

Céus, o que posso dizer a meu favor?

Deitei cedo no quentinho da cama na tarde de sábado, nada. Ainda no sábado, no almoço, enchi a moringa de vinho ruim, e fracassei. Bati um belo prato de lentilhas regado do mais puro azeite português, outro fiasco. Por quinze minutinhos neste sábado aziago, só gastando força, sentei nuzinho debaixo da água fria da ducha. Da sexta pro sábado, os fones no ouvido pra acordar de susto com o alarme do telefone às três da matina, em vão. Maldito sábado que não passa nunca!

Embora pareça uma coisa bem idiota pra confessar, confesso que sou pateticamente idiota. Porque vou insistir, e insisto, resisto a desistir de converter a urucubaca na danada da sorte que sorri a quem pensa em ganhar a Mega da Virada.

Custe-me o que custar, hei de ganhá-la, hei de banhar-me nas suas águas, ó Fonte da Fortuna.

Minha caneta é meu cajado, com a tinta azul de seu bojo vou marcar os números. Só preciso deles. Caraca, que não os tenho, ainda.

Quero que venham a mim os números benfazejos da Fortuna. Que me escolham entre os milhões e milhões de apostadores. Quero que o Ano Novo me consagre milionário.

Milionário de alma cordata, pois não peço pra ser o único ganhador. Outras pessoas também podem desejar o prêmio, pois não sou desses selvagens que cravam os dentes na bolada graúda.

Sereno de mandíbula, não mordo a torto nem a direito, mas, na hora do acerto, não sou trouxa: não aceito sorriso postiço, de fina dentadura, quero ser agraciado pelos dentes de leite da nova era; não quero leão banguela chupando a tíbia da minha canela; não quero impostores me cobrando o que, de agora pro futuro, luto pra tornar verdadeiro.

Que pesadelo! Por que me escapam as seis dezenas?

Refaço os passos? Repassarei.

Deitarei depois do almoço de sábado, dará certo. Ainda no sábado, no café, beberei duas médias, e acertarei no açúcar. Lamberei do prato o que sobrar da banana amassada, e não terei cãibras. Sendo sábado, terei ânsias de ir tomar banho. Nas matinas do sábado, a voz benfazeja cantará as dezenas. Que o tempo pare: na lotérica, chegarei ao guichê, conhecerei a alegria de fazer a minha fé e saberei ser feliz.

Embora pareça coisa de imbecil, minha caneta é meu bastão, com ela evito os tombos, dito o ritmo que me embala na vida, vou no mundo com a ginga que tenho aprendido.

Como batuta bordando no ar o que as mãos tecem, a caneta marca, baila, é volante à sorte da virada, que tenho de apostar na hora certa:

ꟷ Às 23:59:59, que o último a sair acenda as luzes.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de dezembro de 2022.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A febre

 

A febre

 

Sem perorações que corroborem o sentimento, asseguro que estou portador de um otimismo revigorante.

Embora não entenda por qual motivo veio a mim depois de um Natal chinfrim, que surpresa agradável é sentir-me otimista.

Passei o final de semana dentro de casa porque estava pronto para recusar convites, tinha argumentos que julgava infalíveis, tratei de ficar longe da caixa de e-mail; fiz o melhor: apaguei-me na paisagem.

Há quem ache belo o sol vindo além dos montes; seu contrário é de lancinante beleza pois a noite fecunda desertos, diz o penumbrista.

Deserto, pra mim, é areia que beira o mar; e reconheço-me instado pelo asco a bater das costas essa porção tão pegajosa.

Sem pessimismo, amo o mar como quem adora ídolo distante.

No calçadão, sentava no passeio, cultuava a massa d’água, sumia, nem pensava, tanto gostava que nem me percebo suspenso, levitando em pensamento, sentado à mesa em que escrevo.

Escrevo, posso estragar tudo, transformar a sensação aprazível em marasmo, não noto que me abismam as circunstâncias, considero-me apto, entendo meu estado mental como imponderavelmente ótimo.

Se tanto apraz, como não me perder à lassidão do satisfeito?

Pois é, a pessoa que se acha no cume do desespero faz do mundo um palquinho de quermesse. Ignora-se farsante, alguém que acha bom puxar o ar rarefeito que o asfixia em pêsames sem luto.

Vá brincar de ser feliz. Ganhe alento, esqueça o pior que tenha feito. Faça-se outro, uma versão melhor de si. Vá à folhinha.

No mês de nascimento e morte de William Shakespeare, eu ganhei Aulas sobre Shakespeare. A orelha informa que o livro reúne a série de aulas ministradas por Auden entre outubro de 1946 e maio de 1947. São 29 aulas, inclusive a de conclusão, listadas no índice.

Mesmo que precise adiar a leitura de Por quem as panelas batem, Ano Bom, lerei este Auden antes que complete um ano na pilha.

Seu Rodrigues, reinvente-se, ponha fé na esperança de que possa amar o próximo como ama a si. Vá logo, leia o Antonio Prata.

Como bom político que muito ajuda quando não atrapalha, prometo, pessoa que me lê, vou ler o Filho do Mario antes de abril.

Se eu menciono a frustração por ainda não ter lido certos livros que auxiliariam a ter uma leitura menos tendenciosa do presente, lamento que esteja comprometido.

Cadê a justa percepção da realidade?

Não vou ficar parado, preciso andar. Porque dar uma caminhadinha boa, de uma hora, me faz bem. Preciso andar e andarei. Não vou correr porque não tenho pressa.

Quero mais é me sentir reconectado com a cidade, com as pessoas que me acenam, sabem o meu nome. Quero ser identificado com quem eu fui, com o menino que nadava no rio, com o coroinha que não sabia o latim da missa, com o rapaz que dormiu na praça depois do baile.

Quero que a memória baile, pois agora:

Tchau 2022, vou indo, só voltarei quando estiver melhor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de dezembro de 2022.

 

domingo, 25 de dezembro de 2022

Mensagem secreta

 

Mensagem secreta

 

Na falta de neve, garoa. Faz frio. Mas, não me lastimo de que garoe e vente frio. Uma boina protege a careca; o moletom aquece; mais que as janelas fechadas, são os goles de café que me animam.

A cafeína no meu sangue acorda a alma pra pensamentos que nem imaginaria necessários ao bem-estar.

Sinto-me bem. Sinto que me é necessário estar bem, pois posso ter a mente clara, calma, sensível ao instante.

Ainda que eu ache empolgante uma ideia emendar em outra, estou sereno, pois estou certo de que penso com a clareza dos cafeinados.

Porque se esforçam em fazê-lo, pessoas animadas espalham o alto astral de modo benigno.

Pra ser honesto, tenho sorte. Tê-la faz de mim uma pessoa melhor, porque reconheço que preciso demonstrar o quanto sou grato.

Quando a gente sabe reconhecer a gratidão que tem a oferecer às pessoas, o coração entende porque bate feliz, porque faz essa música que satisfaz sem provocar suor, pigarro ou piscadelas.

Quando se tem este sentimento de que a felicidade é contaminante, a alegria impele a querer o bem a muito mais gente, a quem nem pensa que possa captar essas ondas mentais que dão leveza.

Ora essa, sei que opinar é irrelevante; sentir-me bem enquanto faço o que posso é o que há de mais importante, pois modifico a sensação negativa só porque está garoando e ventando frio.

Pois, este céu cinzento não me deprime, me tranquiliza, faz-me ver: garoa é bom para plantas, suas raízes.

Por um momento, um instantâneo horripilante, acho que a natureza pode tornar inóspito o ambiente onde neva, chove, venta, cai a energia elétrica, não há aquecimento, o ar a cinquenta graus celsius negativos, ó miserável horror, mata quem esteja obrigado a respirá-lo.

Eu não fiz um pedido malfeito nem o fiz pela metade, o meu bendito pedido foi atendido de acordo com o que mentalizei.

Ainda que o tempo esteja ruim em meio mundo, não vou me culpar por essa garoa gelada, que me permite dormir melhor, comer melhor e até pensar melhor, pois não me sinto culpado se fui ouvido.

Aliás, garoa não é vírus pra deixar a gente gripada.

Dezembro dos sonhos? Hum...

Uma vez que ninguém me convidou pra nenhuma ceia de Natal com algum salmãozinho, que não me desce bem nem quando é servido cru, acordei em paz com o mundo.

Se houvesse aceitado ir, teria comido e repetido. Mesmo consciente do muito que seria afetado, culparia a intragável calda de ameixa sobre aquele peru tenramente assado.

Ora, não estraguei o estômago porque sequer pensei no assunto.

Estou tomando café, comendo panetone, olhando a gata que conta comigo pra deixá-la sair. Na maior tranquilidade, permito-a que saia.

Os pardais voam com o rangido da porta.

A gata solta miadinhos de ansiedade, pois ela espera que aqueles passarinhos retornem.

Se entre a gata e mim houvesse entendimento, ela formularia:

ꟷ Pra quê, diabos, eu existo no mundo?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de dezembro de 2022.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Amor ao próximo

 

Amor ao próximo

 

Um dia fizeram-me crer que o sábio separa o joio do trigo. E fizeram bem de me ensinar que o certo é mastigar de boca fechada. É fato, tive o prazer de ser informado que a pedagogia do amor é o menos tóxico anteparo às moscas que varejam certas matracas que vivem abertas.

Credo! Não hei de ser eu quem irá duvidar de que bafo de ovo podre atrai parasitas, de anjos caídos a porvinhas.

Em respeito a quem desconheça o significado: porva, ou pólvora, é mosquitinho que só dá folga a quem banhado em repelente.

Como tem gente que se incomoda quando, embora não haja picada de miruim nem ovo choco, coço a pança porque me dá urticária engolir macarrão instantâneo sem o pozinho, pô!

Aliás, como não se faz omelete sem ovos, sexta de pizza não existe sem pizza. Pelo que eu sei, as sextas de pizza não ganham mais sabor pela borda recheada de queijo cremoso, mas pela família reunida.

Uma família, a sua ou a de quem você queira bem, qualquer família merece respeito, ainda que cultive tradições diferentes da minha.

Em nome do que acredito, eu não mudarei meu julgamento.

Não é risível a ideia de que uma família que valoriza a noite de pizza possa alterar a sua verdade porque o Natal se avizinha.

Quem se reúne para comer pizzas não tem que fazer bico só porque tem quem proponha trocá-las por chester, peru ou peixe, pois a família continuará reunida. Reunida e unida, felizmente.

Permaneça unida, família querida. Permaneça, e verá que o almoço de Natal será domingo. Siga com o programado, que sábado seja o dia de ir às compras. E esta sexta é outra sexta de pizza, poxa.

Mantenha-se unida, lute por sua felicidade, pois a sexta tem que ser noite de pizza. A noite de sempre, porque a ideia de ter pizza vinga sua realidade. E não é bacana imaginar outra realidade, poxa.

Não se cometa a asneira de mudar o que está certo.

Sim, está mais do que provado: noite de pizza é instituição que não cabe questionar, uma vez que a família toda se reúne, come à vontade, repete o quanto quiser, comenta as notícias, palpita, dá palpite, inventa de compartilhar novidades ainda nem postas no papel, ri, avacalha, diz verdades que nem chegam a ser verdades, acredita, incentiva, espera que a próxima sexta continue a ser como esta, outra noite de pizza.

Que a família reunida siga comedora de pizza?

Cacilda!

Papai Noel, que os comedores de peru não antecipem o almoço pra véspera da véspera. Que não sejam estressadinhos os comedores de peru. Eles ceiem no dia certo, pois sexta não é sábado; sábado não é domingo; que vinte e cinco não vire vinte e três.

Papai Noel, que o entregador não atrase. Não travando no trânsito, o entregador não chegue bufando. Pegando a gorjeta, normalmente a família não desconfiará de nada. Por nada, tudo bem.

Bom Velhinho, não ponha minhocas na cachola de quem tem suas obrigações, ou a noite de pizza da família vai azedar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de dezembro de 2022.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Ideia genial

 

Ideia genial

 

Já é Natal!

Nesta época do ano amigos e familiares chegam sorrindo, sedentos de gestos afetuosos; de minha parte, a recíproca é verdadeira, anseio por beijos e abraços.

Algo me faz tomar a iniciativa e, ainda que muitos fiquem surpresos com essa persona menos cínica, hipócrita e zombeteira, tomo-a com o espírito feliz de criança pondo bolinhas na árvore.

Sem acrescentar à lista do Papai Noel outro item tão imprescindível que ia me esquecendo, tenho beijos e abraços pra todo mundo.

Distribuo-os como quem desce pela chaminé, pois acho que todos têm uma alma gentil, que precisa ser despertada do ramerrão do dia a dia para que a pessoa também distribua afetos com a generosidade de quem poderia ter dado, primeiro, aquele abraço tão sincero.

Por gentileza, não me censurem por minha sinceridade.

Que argentinos e franceses sintam-se abraçados por mim, que sou um camarada que chuta o ar, chama o VAR e bebe refri com a garganta arranhada de tanto xingar sua excelência, a mãe do juiz.

Valendo taça? 3 a 3 numa final, putisgrila!

Dezembro poderia continuar sendo o período em que a gente faz o balanço do que deixou de fazer, lamenta ter feito o que fez sem dar o melhor, compromete-se a agir com mais empenho, tudo pra que o Ano Novo traga energias transformadoras, que hão de deixar novo em folha quem sequer vai a pé ao bar da esquina. Até poderia, mas o final deste 2022 está sendo diferente.

Uma vez que me fizeram torcer pelos dois, porque disputaram quem sorriria por último, agradecido pela contribuição para que a final virasse o jogaço que, por hoje e sempre, recordo, felicito-os e desejo-lhes boas festas, caríssimos Mbappé e Messi.

É tri! É tri tri tri! É tri!

Luisinho, como não sou uma pessoa de fidelidades imutáveis como você, só vou me preocupar com as contas de janeiro quando o primeiro boleto chegar ꟷ que ele chegue, de preferência, em janeiro.

Se suas angústias são com a beleza, tudo bem, faça essa tatuagem na batata da canhota: o Messi levantando o Maradona levantando Pelé dando aquele soco no ar; vai por mim, meu camarada, essa tatoo ficará ótima em você, realmente uma pintura.

Que maravilha que existam esses fominhas no mundo, porque eles têm brilho no olhar. Quando ouvem “campeão”, pensam no prêmio, na medalha, nas fotos, nos memes, no dim-dim na conta, estão tão certos disso que dos seus olhos rolam lágrimas verdadeiramente tocantes.

De fato, acho comovente a ideia de que esporte, qualquer esporte, possa transformar a vida da gente.

Independentemente de ter de pintar o meu cabelo depois de vitórias históricas, valorizo a autoridade de merecer a glória dos louros.

Como vencedor que sabe quanto custam as batalhas vencidas, me comprometo a tingi-los. Nem que gaste muito, comprarei uma peruca de fios autênticos. Nem ligo se despertarei inveja com minha cabeleira descolorida.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de dezembro de 2022.


domingo, 18 de dezembro de 2022

Por delicadeza

 

Por delicadeza

 

Temos o sol. Temos um gato, que também toma sol. Não, oculto na jabuticabeira, o sabiá não toma sol, mas o gato toma. Simplifiquemos: o sol aquece o gato, cujos olhos estão fixos no sabiá; o passarinho bica uma jabuticaba, que é doce que nem mel.

Simplifico-me, simplifiquemo-nos.

Pelo que for, busco um hibisco no lusco-fusco do quintal, mas o que vejo é um beija-flor no ipê roxo, florido roxo no seu todo de ipê em flor, pois, pelo que vejo, no vigor da hora, no trivial do instante, é que vigora banal a vida cotidiana, comigo pro que vier.

Por suposto, simplifico-me.

Como nuvens no céu noturno que já vem, eis a cena posta que seja permitido testemunhar: o crepúsculo de outro dia, cuja beleza brota da configuração das cores e linhas do gato malhado que vigia o sabiá que bica jabuticaba.

A qualidade do testemunho depende do espírito que observa; disso eu entendo, pois interpreto mal o instante quando responsabilizo o que me escapole do controle.

O sol sumirá, as jabuticabas ficarão no pé e o gato entrará na casa; e a lua, que nem estava sendo considerada, espia-me com um silêncio misterioso, liricamente tão fascinante.

Capto o ânimo do mundo, ligeiro.

Culpo o crepúsculo por sua beleza que deslumbra. Pelo que faz tal encantamento, cativa-me. Mais ainda, porque as nuvens sem calor não atrapalham percebê-lo maravilhoso, cativo desta trivialidade.

Engano-me ao ajuizá-lo trivial, pois, pelos meus olhos, o mundo diz a beleza. Súbito, julgo banal o instante em que vejo o mundo com olhar enamorado de plateia.

Se fotografasse o que não espero, desabaria em êxtase?

Tiro de meus ombros o peso do julgamento estético, responsabilizo o universo, o momento, a cena armada no quintal de casa pelo êxtase fulminante que me faz perder o chão, suspirar fundo, achar que a vida é mesmo de fazer a gente perder o fôlego e pedir ao sol que o instante de fascinação seja eternamente recordado, que retorne à mente a cada vez que me veja boquiaberto com o espetáculo natural.

Avalio-me em condições de presenciar novamente a cena que volte a se arquitetar nos fundos; que o acaso assim a configure, que ela seja desconcertante.

Sentado no chão da lavanderia, vejo a jabuticabeira carregada, mas o gato sumiu, o sabiá voou, a aurora dará sol.

Quiçá haja sol; a jabuticabeira atraia passarinhos; haja sabiás entre os passarinhos atraídos pelas jabuticabas docinhas; eu sorria abobado com a estupenda coincidência de estar sentado no chão da lavanderia; uma vez que hoje, amanhã e ontem são novamente esse instante em que, compreendo que a sinto, a delicadeza do mundo passa por mim; a cada vez, simplesmente.

A pretexto de filtrar-me suscetível ao contexto, em atenção a mim, atuo sensibilizado, pois palco, cenário e atores fazem-me perceber que a simplicidade do mundo é inalienável ao instante.

Tenho o que tenho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de dezembro de 2022.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Na marca da cal

 

Na marca da cal

 

Com os braços no meio das pernas, encolhidinho, feito feto, ouço o mundo. A garoa não assusta, convida. Escutando-a, penso as batalhas perdidas. Enrolado em mim, figa na cama, creio em mim. Acredito que, a cada derrota, aprendo a mudar o tanto que preciso mudar. Pelo que perco, desato a pensar. Recolhido, sinto o feto que me pensa.

Ainda garoa, ainda ouço.

Quero que o mundo eduque a sentir a sua música, que a garoa lave meu rosto, que deixar de obedecer cegamente não me transborde.

Torno-me tranquilo. Faço-me sereno como garoa na cabeça. Sinto a garoa. Penso-me sem temê-la, garoo.

Quando o mundo for assombroso, vou mijar na cama.

O que estranho é este sol que-vem-não-vem no meio da chuvinha; é sol o que me aconchega no seu seio como se mais amores florissem quando nem aguardo que brotem. Ao imaginá-los risonhos, iluminados, perfumosos, arrepiam. Por senti-los rindo à luz bruxuleante, luminosos ao traçá-los vicejantes, perfumam.

O broto amoroso, que dá à luz perfumes, faz-se flor pelo que adensa, condensa e recompõe-se, faça-me luz.

De rosto lavado, molhado de garoa, os olhos não me enganam: no meio do campo, estou deitado num banco.

Então, o sol do vem-não-vem é a estrela da tarde.

Com o brilho na grandeza de sua magnitude, o sol da tarde acorda fantasmas que despertam demônios. Se fosse outro, se fosse a estrela da manhã, quem acordado demonizaria com fantasmagorias.

Mas estou acordado, eu sinto que estou; e posso ver o campo, notar as linhas; e continuo à espera do apito, da entrada dos times e da bola no centro do campo.

Seu juiz, trile o apito.

De costas no banco, conto com meu nariz a noventa graus do resto do corpo, ou a coluna me jogará no inferno das agulhadas na nuca, os formigamentos descerão pelo pescoço e subirão ao cocuruto, entrarei em curto-circuito e lamentarei a indisciplina de ignorar os meus desvios na postura.

Olho no lance!

Alguém chama. Consinto em aquecer. Embora esteja fora de forma, vou dar o meu melhor. Reconheço que estou preparado pra entrar caso seja chamado. Posso fazer bem o que esperam que não faça.

Embora não botem fé, sei surpreender.

Evoé!

Depois de uma noite de sonhos esquisitos, Meursault abriu a janela sem prever que uma rajada de garoa fria fosse lhe dar um choque, feito tapa na testa, a ordenar-lhe:

ꟷ Vá, Arthur, vá fazer algo que preste.

Ansiando sonhar; seria bom se vagasse por uma praia deserta, pois não temeria chineladas, vassouradas, borrifada inseticida.

Vamos, Gregor, abra os olhos.

No meio da jornada pelo vasto mundo, o Gregor que não sabe quem seja Arthur permanece jogado de costas. Pra lá e para cá, esse Gregor boia que nem rolha em uma tigela cheia de água.

Quando o cuco confirma doze vezes a hora, com o dez nas costas, de calção azul, meião azul e camiseta amarela, Arthur e Gregor partem pro ataque:

ꟷ Seu Rodrigues, cadê o almoço?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de dezembro de 2022.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Fala, Célio

 

Fala, Célio

 

O doutor Honório foi casado com dona Márcia, casal feliz enquanto não tiveram filhos, que nasceram para desestabilizar o harmonioso que havia na relação deles dois.

Mauro Maurício, o primogênito, formado em Direito mas que opera na Bolsa de Valores, gosta de pescaria nas férias e nada o demove de sair cedo pro oceano, embora sua esposa sempre diga que tem outros planos, frustrados pela última palavra do marido, ela segue planejando, desde o casamento há vinte e dois anos, de ir a Miami pra fazer selfies e mais selfies com a Minnie ― se Deus quiser e Ele há de querer ― ou estariam divorciados há muito, quando sofreu o trauma de ser atacada pela frota de caravelas no Ano Novo de 2000 em Boraceia.

O do meio, Paulo Patrício, entrou na maioridade trancado no quarto, jogando violentos videogames, viaja sempre para Paraty, e não apenas nas férias, por ter herdado uma casa, cuja família da paciente doadora não contestou em juízo o desejo posto em testamento, evidentemente pela risoterápica presença, estimulada pelo oncologista, dos Bobos de Branco, cujas palhaçadas a fizeram, nos dias finais, rir muito.

A filha, aquela meninota tão atenciosa e carinhosa com coelhinhos, chinchilas e hamsters, ela radicalizou na puberdade, passou a ler livros de autoajuda, a meditações holísticas, às ações de guerrilheira tão logo integrou-se a uma famigerada ONG; foi essa atuação ecologicamente correta da pirralha que a afastou dos pais, que não pronunciam o nome dela há quinze anos, desde que a pequerrucha serelepe quase morreu afogada em um protesto em Abrolhos; não é que eles tenham decidido conscientemente que nunca mais falariam, só não falam mais o nome, é como se Cecília Sueli tivesse sido abduzida por essa tal de Ciça.

Dona Márcia e o doutor Honório organizavam as bodas de prata, só que o destino interpôs-se, separando-os de modo súbito.

― Que vergonha! Uma mãe de família trocar o marido por um rapaz. Se não bastasse a idade, um surfista! ― Paulo e Mauro bandearam pro lado do pai assim que souberam da atitude que julgaram acintosa.

Chapada de champanhe, xeretando o zap, Ciça não aguentou ficar em silêncio, e foi de madrugada que ela telefonou:

― Dona Márcia! Embora a senhora tenha demorado tanto pra sacar que a felicidade quem conquista é a gente, eu estou muito, muito feliz. Eu quero mais é que a senhora seja muito, muito feliz, dona Márcia.

O tal surfista não é nem nunca foi de pegar onda nem pede dinheiro aos outros. Ele não é de falar a torto e a direito. Até quando ouve ideias debiloides ou pensamentos incoerentes, prefere escutar calado.

Célio, o novo companheiro, não é dado a chamá-la de ‘namorada’, ‘esposa’ ou ‘minha mulher’. Seu nome é Márcia, então, ele a chama ou a ela se refere pelo seu nome.

― Fiz picadinho do pôster do Médici que aquele pústula tinha posto na sala de vocês, Márcia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de dezembro de 2022.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Volta ao mundo

 

Volta ao mundo

 

Se eu adiantasse as dificuldades, teria ido mesmo assim. Afinal, era pra ser uma estadia curta, precisava que fosse. Sem alvoroços com a agenda apertada, era recomendável que permanecesse sereno ainda que outros rumos desandassem as coisas.

E as coisas simples viram dificultosas quando estou carente de uma boa tarde de paz, daquelas com bem-te-vis cantando, cães latindo nos quintais e amoras no ponto.

Eis o problema para o qual eu não encontro outro desfecho que não seja lógico: amoras no ponto incitam a pular o muro; correr de cachorro bravo excita; definitivamente, assustar bem-te-vis é insignificante.

Ora, ora, juntando lé com cré: se o descrito for fidedigno, a fuga dos passarinhos é coisa à toa, pois chegar a isso é que são elas.

Antes que enverede mais pelo tronco, cuido da referida ida.

De saída, já no carro que me levava ao litoral, foi ao colocá-los que constatei que os óculos certos ficaram na gaveta.

Não me desabona a afobação, pois um dia antes da viagem peguei o estojo e, sem a curiosidade de abri-lo para verificar se as lentes eram nos graus da última receita aviada, deixei-o ao lado da carteira.

Poxa, não pude me fantasiar a caráter. Ainda que eu goste tanto de zanzar pela praia de boné, chinelos de dedo e lentes espelhadas, sem nenhum traço borocoxô, espontâneo feito um caiçara da gema, encarei o calçadão.

Embora não me tomassem por turista, sentia-me um.

Mas ninguém teve dó de mim, mesmo comigo com a mais genuína cara de mané. Sei fazê-la, compondo-a como se aguardasse respostas às perguntas que, no fundo de mim, brotam das tristezas.

Anjinho de chinelo de dedo, óculos de intelectual e boné do Chicago Bulls, ansiava silenciar-me:

ꟷ Gente gentil que goza das gostosuras que não gosto nada, sofro gasturas como vampiro viciado em chá de alho.

Já que o sol tinha ressecado a alegria da minha língua na casquinha mesclada, partiu da carteira dar-me autorização a beirute, duas esfihas de carne, fritas grande e suco de abacaxi de 500 ml.

Não discuti com as merrecas, não debati com minhas caraminholas, recusei as jujubas da turminha à porta ao entrar na lanchonete.

Já muitas vezes estive sentado àquela mesa, no canto direito, tendo às costas e ao meu lado direito as paredes do L.

No salão, sempre lotado antes da pandemia, nós outros éramos: as mulheres numa das mesas centrais e eu.

Uma delas comentou que, depois que lhes deixou comer, o homem recendia um maravilhoso horror.

Era freguesa que pedia pra comer sem que viessem oferecer o que não desejava comprar, ainda mais manjando um maná dos deuses ꟷ batata frita com guaraná.

Como o mundo nem eu paramos, atravessei a avenida.

Sem meus amigos, cônscio de que nas terras interiores da alma há diques formatando-a à felicidade infindável, certo de que haverá de ser doce enquanto for preciso vir de longe, eu saboreei a torta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de dezembro de 2022.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Reversão

 

Reversão

 

ꟷ Por que a seleção perdeu?

ꟷ Fácil! Porque jogou com o time reserva.

ꟷ Errado. Perdeu porque entrou em campo de azul.

ꟷ A camisa azul foi a causa da derrota? Que bobagem.

ꟷ O respeito que a amarelinha impõe é pela tradição de ser penta e nenhum outro país tem cinco títulos de campeão.

ꟷ Como se o nosso escrete campeoníssimo não tivesse perdido em Sarriá ou pra Bélgica do De Bruyne e muitas outras vezes. Esta edição no Catar é a vigésima segunda Copa, certo?

ꟷ Meu caro, não foi a titular que perdeu, foi a azul.

Se você pensa que estou fazendo graça, engana-se. O diálogo que pus acima deu-se num ônibus.

Dois homens conversavam como se estivessem bebendo no bar da esquina, sem preocupações com quem os escutasse.

A graça está na descontração de velhos camaradas praticando este esporte muito apreciado que é jogar conversa fora.

Os atletas do papo-furado são gente de tirocínio aguçado, homens aplicados, complicados, simplificados, ativos, passivos, compassivos, monoglotas, poliglotas, glutões, anoréxicos, simpáticos, emblemáticos, éticos protéticos, moralistas a toque-de-caixa, nossa gente tão amiga, aquela turma sempre enfadonha, quem se conhece, quem se tolera, quem não suporta a TV, quem aceita cheque em branco, quem assina embaixo, quem escova os dentes antes de dormir, quem não reza nem na janta, republicanos, monarquistas, eleitores sem título, banguelas, tagarelas, ranhetas de punhos de aço, anacoretas de salão, profetas de proveta, estetas de perdidos perdigotos, práticos patéticos, políticos apoéticos, tantos bacanas, caras sacanas, tanto disso como daquilo e mais um pouco, todo este mundo é praticante de conversa fiada.

ꟷ Jogador profissional que cobra lateral com o pé na risca?

ꟷ Está na regra, tem que bater a reversão.

ꟷ Reversão, que nada! Isso é bisonho.

ꟷ Bisonho, bizarro, bizantino, bisugo. E daí?

ꟷ Daí que esses futebolistas deveriam ter compostura.

ꟷ Tá falando do quê? Das dancinhas?

ꟷ Claro que é! Onde eles estão com a cabeça pra comemorar o gol com aquela coreografia de menino mimado.

ꟷ Não seja chato. Não tem nada de errado eles dançarem.

ꟷ Você aprovando essas dancinhas de internet, tenha dó.

ꟷ São engraçadas.

ꟷ Não tem nada de engraçado esses milionários zombando de todo mundo com passinhos infantis, mal improvisados. Coisa de bocó.

ꟷ Bocó é gente que não se diverte nem quando mostra a alegria de ter feito algo bem brasileiro.

ꟷ Não me divirto quando faço o que tenho que fazer.

ꟷ Certamente. Você é desses que exigem ter reconhecido o mérito, que cobram uma fortuna porque são reconhecidos como profissionais de talento. A você que é o Chatonildo Padrão do Ano, parabéns!

ꟷ Chatonildo com louvor, porque eu não escondo o pombo na roda dançante. Você tem que aplaudir a amarelinha, escudo protetor, manto de um povo vencedor.

ꟷ Vença, povo brasileiro!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de dezembro de 2022.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

O melhor da festa

 

O melhor da festa

 

Não sei como você se sai quando a pessoa que abre a porta não é quem lhe fez o convite. Perde a voz ou se deixa afetar por recordações que sabia inapagáveis como as velinhas teimosas sobre o bolo; se não, faz o quê, assopra barbaridades? Eu sequer invoco o 7X1.

Costumo me apresentar como gente boa, pois não sou do tipo que invade lugar a que não fui convidado. Insisto, que sou um indivíduo que sabe qual o modo educado de agir perto de tanto penetra que faz piada quando poderia pigarrear ou coçar o sovaco; isso eu não faço nem que a saia justa me caia direitinho.

De jeito algum, pois eu não sou de descer as tamancas. Nem passa na minha cabeça que a porta seja batida na cara de alguém gentil, que nem exijo ter franqueado o ingresso ao rega-bofe.

Não aplico a pilantragem de sorrir amarelo ao pé do ouvido, porque sou esta pessoa que vim a pedido de quem me chamou pra vir.

Ora, a patuscada começaria antes do almoço. Poderia aparecer pro desjejum. Canapés e aperitivos seriam servidos no deque da piscina.

Como eu não sei nadar nem pretendo que me atirem à água quando estiverem bêbados, fui à festa com horário pra chegar e pra sair.

Não tinha de ficar empolgado com as prováveis jogadas bonitas, os raros lances espetaculares, a miraculosa goleada estupenda. Isso não ocorreria nem com a força hipócrita de ateu transfigurado pelo espírito do vinho sorrateiramente inofensivo no ponche.

Ponche sem álcool é água aromatizada.

Se tivesse pesado o sentimento de estar errado no lugar errado, eu teria avaliado mau o começo a mim que vim com o coração agasalhado no bandeirão de torcedor, porque sou realmente brasileiro de sangue quente, não fujo da cancha, nem quando metem 7X1 na gente.

ꟷ Vai ser 7X1!

Eu disse sete? Sim, eu disse.

Mas, não estava prevendo resultado. Aliás, é assédio moral atribuir licantropia ao sétimo filho, ainda que ele tenha nascido na lua cheia do sétimo mês. Acrescento que seja hipótese especulativa que a lua entre em plenilúnio no sétimo dia às sete da noite da sétima semana do ano.

Se cair, é mero movimento cósmico, não um esquete cômico.

ꟷ E o tal do Cai-Cai, hein?

Sóbrio de tantos 7X1, este canarinho não canta de cor e salteado.

Quando o raio cai muitas vezes no mesmo lugar, parece meme que roda sem dar pausa a quem pede o porre.

Ninguém me ouve, pois a pessoa que eu pensava estar interessada nas minhas sabedorias de palpiteiro está comendo outra salsicha.

Faço cara de que sei me pôr no lugar de quem corre tirar foto, pois o momento precisa ser registrado. Não conheço quem vem comigo pra longe dos celulares que pipocam fotos e mais fotos. Essa pessoa sabe reconhecer quem faz cara de que a festa fica melhor com ponche e um prato de fatias de picanha no alho.

ꟷ E tem que ser 7X1 pra realmente valer!

Festa com sabor de vingança embrulha o estômago, até engulo que os deuses do futebol lhe digam amém.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de dezembro de 2022.

domingo, 4 de dezembro de 2022

A lição

 

A lição

 

Se o sol bonito aguentar mais hora, vai dar quente o dia ꟷ matutava o homem agachado sobre os calcanhares.

Com um graveto fazendo a vez de cajado, ele estava equilibrado; e só alternava a perna esticada por causa do formigamento que daria em câimbras, que não queria viessem agastá-lo ainda mais.

Estava como achou que poderia ficar com menor agitação. Tinha já se ajeitado com a espera. Porque sabia esperar que os céus lograssem enviar algum bando, fosse de quero-queros ou andorinhas. Queria ver o voo, é que pela formação assuntaria breve ou longo o tempo.

Punha esperança que chovesse. Que chovesse logo, e por um dia. Mas caísse aquela chuvinha boa pra terra, pros bichos, pra descarrego do ar. Que andava abafado, prenhe de maus sentimentos. E tanto tinha de ruim que nem nuvens vinham, nem leves nem aterradoras.

Havia meio ano de aridez, de preces ignoradas.

Do nada, levantou-se uma nuvem de poeira. E um carro parou.

Do lado do passageiro, um homem de óculos escuros, boné e fones de ouvido desceu, e urinou no mato. Como algumas gotas respingaram na sandália franciscana, bateu-a, xingou alto. Voltou pro carro como se a estradinha fosse o melhor lugar do mundo para amaldiçoá-lo.

O homem de cócoras não dominava a telepatia, só ele soube:

ꟷ Se o calorão atrair mais varejeiras, a carniça está fresca.

Com um lenço, enxugou o rosto e o pescoço.

Ele arrancou capim. Mordiscou a raiz e cuspiu. Fez de novo e tornou a cuspir. Gostou do que fez; e outra vez arrancou o mato, mordiscou a raiz e cuspiu. Faria novamente se outro carro não tivesse surgido.

Do lado do passageiro, toda de rosa, uma mulher de quedes, short e viseira desceu, abriu a porta traseira, e, sentada numa pedra, deu de mamar a um bebê, que berrava até apoderar-se do seio.

Tal acocorado da beira do caminho nem ligava que fosse domingo; em pensamento, sabia que vive tranquilo quem criado tranquilo.

Quisesse entender o mundo pela realidade, estaria sem saída, pois um novo automóvel veio parar a poucos metros de onde ele estava.

De fato, aquilo não era nada razoável.

Nunca, e se tivesse cabeça para reparar nesse tipo de coisa saberia que passara dos setenta anos, enfim, nunca tinha visto tanta gente de fora nem mesmo num domingo.

Desta vez, o motorista desceu de um fusquinha. Não um fusquinha qualquer, era modelo 66. E tudo era original ou parecido com o original: os pneus, as calotas, os espelhinhos, a buzina.

Sim, sim, antes de sair daquela máquina maravilhosa, a mulher que a pilotava deu buzinadinhas de saudação.

Era encantadoramente educada. Disse bom-dia. Pediu a gentileza de uma informação, se a chácara Maritacas da Serra estava perto. Deu a mão ao despedir-se. Sorriu. Acenou. Novamente buzinou e acenou.

Que maravilha de pessoa ꟷ por instantes, o sujeito do caminho não pensou no ônibus que não vinha nunca nem nas costas travadas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de dezembro de 2022.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Gente do céu

 

Gente do céu

 

Ainda que a honestidade me submeta à dolorosa consciência, conto a verdade. Digo que sou decadente a quem me vê em cima da escada. Mesmo que não entenda como não tenha previsto que uma maçaroca de folhas secas, pedrinhas, terra e fezes de pombo iria acumular-se na calha, trato de retirá-la com minhas mãos nuas.

Além de relapso, imprudente. Dói-me confessá-lo, mas anuo.

Nem parece que a casa foi limpa ontem. É óbvio que eu sei que as aparências revelam que jogo contra o patrimônio. Se tiver que perder quinze minutos, cuido eu do que é meu. Não aceito que a sujeira toda seja jogada na minha cara, como se eu nem ligasse pra imundície. Pois é uma questão de honra eu mesmo limpar de novo o que a tempestade de verão tinha deixado limpinho há menos de vinte e quatro horas.

Pelo sim pelo não, orientado pelo rastro imundo, faço correr a água da mangueira pela luz da calha e o quintal fica limpo.

Não dou graças à alma humilde que aprende observando o mundo, pois, pessoa humilde que eu sou, não o faço para que me parabenizem por esta minha tão singela disposição.

Não preciso mentir pra que a mim me compreendam verdadeiro na minha confissão, que estou mesmo disposto ao bem.

Apesar da dolorosa certeza de que a verdade dói quando a professo a quem não esteja a fim de ouvir-me dizê-la, não espalho mentiras nem faço com que os meus opositores estejam certos sobre mim.

Sim, senhor, eu limpei a calha com água de mangueira porque água corrente tem esse poder de levar pelo ralo o que houver de levar, ainda que eu bem tivesse notado que cabia a mim manter a casa limpa.

Visto a malha de bailarino do cotidiano. Calço as sandálias de gente que batalha por uma vida mais autêntica. Divertem-me as maritacas lá no telhado. Eu a saúdo, ó realidade que o esgoto não apaga.

Se posso ir adiante justamente por que não sei aonde vou indo, eu vou? Estou indo, sim, pois me conduz o próximo passo.

Será que mais ninguém tem medo de assombração? Ninguém vai aparecer para dar um fim ao barulho das correntes? Será que terei de ficar apavorado ao extremo pra que venham me socorrer das aflições? Alguém teria uma vela para iluminar os caminhos à frente?

Pego o meu telefone. Posiciono-o acima da minha cabeça. Preciso me comunicar. O sinal melhora se aderno num pé.

Pelo amor de Deus!

A noite não para de passar. O sol já foi faz tempo. A lua não nasce. As estrelas não brilham.

Como? HELP!

Não desperdiçarei a chance de ser ouvido. Quero que ouçam. Peço que acudam. Cadê que não vêm! Ai caraca, já passa da hora. Venham, onde estão? Não temam, venham!

Não atendem por que não entendem ou por entenderem é que não atendem de modo algum, que será?

Se eu tivesse me interessado por aprender o código, saberia que a diabólica lanterninha muito ordinária pode ter passado a perna em mim e telegrafado ao carregadíssimo cosmos noturno de infinito plúmbeo:

V.O.G.O.N.S.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de dezembro de 2022.