O
norte da sorte
Por mais que eu tente, não consigo. Há
dias que me esforço, busco a condição favorável. Desejo tanto ajudar a
conseguir que prejudico. A ansiedade atrapalha, confunde, só aumenta a
desventura.
Há dias que nem deveria ter tentado ser
instrumento a canalizar as boas graças do universo; a minha cachola dá pane.
Tão nefasta é a pane que beira a pânico.
Céus, o que posso dizer a meu favor?
Deitei cedo no quentinho da cama na
tarde de sábado, nada. Ainda no sábado, no almoço, enchi a moringa de vinho
ruim, e fracassei. Bati um belo prato de lentilhas regado do mais puro azeite
português, outro fiasco. Por quinze minutinhos neste sábado aziago, só gastando
força, sentei nuzinho debaixo da água fria da ducha. Da sexta pro sábado, os fones
no ouvido pra acordar de susto com o alarme do telefone às três da matina, em
vão. Maldito sábado que não passa nunca!
Embora pareça uma coisa bem idiota pra
confessar, confesso que sou pateticamente idiota. Porque vou insistir, e
insisto, resisto a desistir de converter a urucubaca na danada da sorte que
sorri a quem pensa em ganhar a Mega da Virada.
Custe-me o que custar, hei de ganhá-la,
hei de banhar-me nas suas águas, ó Fonte da Fortuna.
Minha caneta é meu cajado, com a tinta
azul de seu bojo vou marcar os números. Só preciso deles. Caraca, que não os
tenho, ainda.
Quero que venham a mim os números
benfazejos da Fortuna. Que me escolham entre os milhões e milhões de
apostadores. Quero que o Ano Novo me consagre milionário.
Milionário de alma cordata, pois não
peço pra ser o único ganhador. Outras pessoas também podem desejar o prêmio, pois
não sou desses selvagens que cravam os dentes na bolada graúda.
Sereno de mandíbula, não mordo a torto
nem a direito, mas, na hora do acerto, não sou trouxa: não aceito sorriso
postiço, de fina dentadura, quero ser agraciado pelos dentes de leite da nova
era; não quero leão banguela chupando a tíbia da minha canela; não quero
impostores me cobrando o que, de agora pro futuro, luto pra tornar verdadeiro.
Que pesadelo! Por que me escapam as seis
dezenas?
Refaço os passos? Repassarei.
Deitarei depois do almoço de sábado,
dará certo. Ainda no sábado, no café, beberei duas médias, e acertarei no
açúcar. Lamberei do prato o que sobrar da banana amassada, e não terei cãibras.
Sendo sábado, terei ânsias de ir tomar banho. Nas matinas do sábado, a voz benfazeja
cantará as dezenas. Que o tempo pare: na lotérica, chegarei ao guichê, conhecerei
a alegria de fazer a minha fé e saberei ser feliz.
Embora pareça coisa de imbecil, minha
caneta é meu bastão, com ela evito os tombos, dito o ritmo que me embala na
vida, vou no mundo com a ginga que tenho aprendido.
Como batuta bordando no ar o que as mãos
tecem, a caneta marca, baila, é volante à sorte da virada, que tenho de apostar
na hora certa:
ꟷ Às 23:59:59, que o último a sair
acenda as luzes.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de dezembro de 2022.