terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Na banguela


Na banguela

Sem mais, um sujeito dispara: Muito sinto o que penso.
Para sua própria surpresa, a mulher topa: O senhor sente?
No ônibus, às 6h30, o diálogo se faz.
Sinto mesmo. Penso muito sobre os meus sentimentos.
E o senhor gosta do que faz?
Sim. Quando dá, decido o que quero fazer e faço.
Como assim?
Olha, costumo colocar bombas nas engrenagens do trem. E como funciona a bomba que fabrico? É simples, e algo direto. Construo um tipo único de bomba. Tem um jeito só, mas minha bomba tem matizes diferentes. Conto com as sutilezas, moça. Porque o sutil está nos detalhes. E a bomba só explode, ela só funciona de verdade, por contar com quem está no trem. Gente que não se contenta em ser só passageiro. Se o camarada for só um passageiro do tipo que fica olhando besta a paisagem, então, a bomba não é detonada. Se a companheira for só uma turista que fica satisfeita com as comidinhas servidas a bordo, então, a bomba não irá funcionar. Agora, se as pessoas topam conversar, ouvem-se, trocam ideias, e formam uma opinião por meio da argumentação, então, a bomba já eclodiu. Entende?
Não, senhor. Estou perdida.
OK. Eu vou explicar melhor. As bombas que coloco no trem não ficam escondidas. Não encaixo num vão do assoalho nem coloco num buraco do teto. As bombas que espalho pelo trem entram nos ouvidos porque saem das bocas. São transmitidas de celular para celular. Até suportam os tipos de computador, seja de mão, de colo, de mesa. São bombas necessárias para fazer andar o trem. Então, sem as bombas o trem para. E daí a gente fica no lugar, pois não faz o trem rodar. São bombas que tiram o medo da gente. Tais bombas são para que as pessoas queiram conhecer outras paisagens, sintam vontade de ouvir mais pessoas, tenham muito mais interesse no mundo. Minhas bombas só estão nas engrenagens do trem porque as pessoas existem. Entendeu agora? Sem pessoas, nada de bombas. Eu enfatizo a palavra: pessoas. Não disse indivíduos. Não falei em exemplares. Repito: pessoa. As bombas que mais preciso são pessoas, pois sem elas a vida morre, o mundo vira pedra. E daí a energia da realidade acaba convertida em brasão de família no bolso da camisa, fica pendurada na parede do consultório, vira um teclado último modelo para unhas manicuradas. Se as bombas somos nós, então, vamos detonar a petrificação. Sem medo, o que precisamos fazer é romper com essa agonia de ir em frente só porque estamos indo em frente. Nós podemos.
O senhor fala com propriedade. Por acaso, é professor? É filósofo? Pois o senhor fala como quem sabe o que diz. Tomara mais gente pudesse ouvi-lo. Pois concordo com o senhor. Todo trem precisa de uma locomotiva.
Sem embargo, à altura do Cemitério da Consolação, ela diz: Trabalha aí? Às 6h45, o estranho salta do ônibus: Fazer o quê!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de fevereiro de 2019.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

A centímetros, o paraíso


A centímetros, o paraíso

A implicância começou com o travesseiro. Muito baixo.
Só poderia ter relação. O travesseiro de algodão, em vez de qualquer outro material ─ sintético ou natural. Talvez não fosse o motivo, mas a altura que tinha era razão para o desconforto. Sem dúvida. Era preciso aceitar esse porquê. As horas do sono entrecortado, com as imagens perturbadoras, servem de prova.
Passar o dia cochilando não faz bem. Não bastasse a feiura de berço. O corpo fica ridículo com o rosto amassado no vidro do ônibus. Sem mais, toca o celular.
Alguém me obriga a engolir a baba. Respondo que a Malala foi alvejada por talibãs, mas não, não foi por isso que, aos 17 anos, recebeu o Nobel da Paz. Foi por sua defesa do direito de meninas do Paquistão poder estudar.
O monitor sequestra para um mundo de infográficos. Nada me parece mais convidativo. Cochilo. A mão escora as ruínas da noite. Porque dá pouca firmeza ao maxilar, a boca começa a produzir ruídos. Conforme testemunhas, ronco.
A mensagem estridente interrompe o reinado de Morfeu. Por resposta, digito. Beber cerveja aumenta o ácido láctico e o gás carbônico, liberados ao suar. Além de cairomônios, que atraem mosquitos. Daí o maior número de picadas.
No grupo do Zap, seres especiais, cujo dom maior é o olho clínico, enxergam na pessoa o que tenta disfarçar. A tristeza, por trás do sorrisinho amarelo; por sugestões de filmes e livros, a alegria. A minha felicidade? Quando não peço nada. É leitura assombrosa, uma vez que as sutilezas dos estados de nossa alma são alcançadas a partir dos emojis que usamos.
O sinal sonoro torna o mundo telepático uma realidade. A tal vidente está clicando. E já emendo que foi na CES, a feira de bugigangas tecnoeletrônicas de Las Vegas, que um automóvel autônomo atropelou um robô. Que falta de senso das coisas. O tal carro reconhece os humanos e os robonoides não.
Na TV, governo propõe a idade mínima para aposentadoria: a de homens passa a ser 65 anos; a das mulheres, 62. Nem cinco minutos, e uma voz comanda a mente. Será possível que metade dos militares aposenta entre 45 e 50 anos?
Daí que não vou correr atrás de outro mundo. Não sou dado a querer nostalgias, por isso não vou pedir por aquela vida que um dia já foi mais tranquila, sem maiores angústias. Não quero voltar à época em que era menos informado. É certo que houve mesmo um mundo assim. Uma era sem celular, sem internet. A vida sem sem daquele mundo? Isso já foi.
Adeus ignorância que prolifera inocências. Mãos alcancem o telefone; vozes solicitem dados; dedos lutem por transparência. Que haja mídia a abrir olhos, ouvidos e bocas.
As horas de tormento? Por causa dos celulares e da WEB, a solução foi trocar de travesseiro. Centímetros mais denso, eis o paraíso. Também gosto de sabiás e riachinhos.
Para cair nas irritações do sono próprio, Doral ou Doril?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de fevereiro de 2019.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Politicamente correto


Politicamente correto

O Brasil do jeito que anda, você sorrindo e eu com cara de idiota. É óbvio. Vamos ter de ter um papinho sobre os valores inquestionáveis para uma vida em comum. Uma vez que essas verdades tornaram-se vidraça para pedras de diversos quilates. E acredito no destino a que nos encaminham as nossas ações. O preço que estamos pagando? Parece-me um baita exagero afirmar que o país esteja condenado a perder a graça. O humor e o escracho, por acaso, estão no fundo das gavetas? Não sei dizer quando darei adeus à percepção da vida como um jogo tenso entre a alegria e a tristeza. O idiota em mim quer sorrir sem ter motivos, sem querer marcar posição como uma afronta ou para ter posicionamento político. É que levo muito a sério o sorriso. Mas sem culpa. Sei que nem é carnaval, mas encho a cara. É sem maldade alguma, só para me divertir. E os chatos vêm dizer que homem mijando na rua é uma vergonha, que é o típico exemplo da masculinidade líquida. Nem bêbado vou usar muro ou árvore como mictório. Peço que não me tome, menina, como um exemplo de pessoa civilizada. É coisa simples. Não confundo brincar o carnaval e achar política em tudo. Acho que levo uma vida normal. De repente, a culpa do gelo derretendo nas calotas polares é de quem gosta de tomar sua cervejinha bem gelada? Daí surgem os que condenam o ar-condicionado, pois causa impacto no meio ambiente. Causa mesmo. O ar fica suportável, ótimo para ver o futebol sem ficar nuzinho. Mesmo porque em casa temos você que faz da gente um reino à parte e olha o modo de falar e os gestos da gente, essas coisas. Sua mãe até curte me ver peladão, admito. Mas de boa, filha, sem esculhambar para a política. Não suporto ficar choramingando feito vítima. Fica difícil. E nem posso falar nada que já vão logo pegando o que não disse para justificar a política deles contra o que acham que falei. Isso é política de marxista que vê fascista em quem não pensa como ele. A discórdia é que nos mantém bem a distância. Política de gente que não aprendeu nada com o que aconteceu com o Muro de Berlim. E não adianta ficar esperneando. Fazendo birra? O que é preciso é ficar alerta. Há muito espertalhão à solta por aí, nas escolas, nas faculdades, são uns vendidos ao comunismo que ficam pondo minhoca na cabeça dos menos experientes que ouvem como se fosse um chamado para atravessar o mar, feito um Moisés que tivesse magia nas palavras. Não, os meninos vão na onda e acabam aprendendo a pensar mais do que deveriam. Daí nossos bebês ficam repetindo, repetindo essas besteiras. Olha, princesa, o papai acha aquela moça que está passando de vestidinho bem bonita, mas não é por isso que ele vai querer assobiar nem pensar nisso. Ando na linha porque já tenho uma princesinha linda de morrer. Quer colo, é? Tá muito quente na cestinha, eu sei. Cadê o sorrisão que eu tanto adoro, hein?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de fevereiro de 2019.


domingo, 10 de fevereiro de 2019

Aula de Português


Aula de Português

De repente, não mais que de repente. De repente, da calma fez-se o vento, e sobre o Rio de Janeiro desabou um temporal com ventos de até 110 km/h e aguaceiro que, na Rocinha foi de 165 mm, passou do volume previsto, bem acima da média de anos anteriores. Em horas, mais do que em um mês.
Por solidariedade, repasso que o IBGE informa que 444 mil cidadãos do Rio moram em áreas de risco de desastre natural. Ressalto que houve o corte de 77% da verba utilizada em 2013 com drenagem, saneamento, proteção de encostas, prevenção de enchentes. E realço que o prefeito irá ao novo ministro das Cidades, pois Crivella sabe um nada do ministério extinto.
Diante disso, prefiro mudar de assunto. Deliberadamente.
E neste domingo, escolho me separar da vereda trilhada por Vinicius de Moraes no seu belíssimo Soneto de Separação. E vou por outro caminho logo ao fim do primeiro verso, que cala fundo em mim ao dizer que de repente do riso fez-se o pranto.
Tocado com o mundo que me cerca, do soneto do Poetinha, fixam-me distanciamento, perda do contato, solidão, tristeza. E estou precisando me afastar de tais sentimentos.
Entendo, hoje, que preciso recorrer à alegria e à felicidade. Tanto sozinho quanto bem acompanhado. Por isso, amigas e amigos, que os conforte o carinho desta mensagem.
Felicidade... De repente fez-se o pranto?
Que bom que posso dizer umas palavrinhas sobre a jornada de ir do riso ao pranto. Sentindo o que penso e pensando o que sinto. Está assim, dividido e somado, para que o professor em mim possa expressar o que se passa na minha cachola.
Como, por estes dias, são tantas as notícias a me derrubar, fui levado a prestar atenção na quantidade de estudos recentes sobre os danos provocados pelo consumo do que é veiculado nas redes sociais. Prolongado e exagerado, este consumo.
Mesmo sem o perfil dos que ficam antenados em memes de piadistas anônimos. Mesmo fugindo do mel que costuma atrair os fanáticos ─ sejam eles ecologistas, economistas, moralistas, politizados. Mesmo assim, devo cuspir o pirê da batatinha.
Puxa vida. Não seria bacana se o mundo fosse do jeito que a mídia e a internet recortam. Eu, certamente, bateria no peito ter esta vaidade besta de me exibir feito crônica. Soaria datado, assinado com letra torta. Tão patético.
Nossa! Depois de linhas e linhas tentando acertar o passo, só me resta espaço para externar apreço pela Mayra Andrade, cantora que tenho visto e ouvido com gosto.
O que vibra em mim ao vê-la? A cabo-verdiana interpreta-se como artista ao entreter o público, faz-se uma representante de quem canta por vocação, todavia ao apresentar-se pela voz do corpo todo, vai além. Radiante a sorrir, saltitar, dançar, indo ao encontro dos fãs. O talento me encanta, à maravilha. Fugaz e pleno, o choro que é de felicidade conecta-me ao que diz sua Lua.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de fevereiro de 2019.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Vou para Maracangalha



Vou para Maracangalha

De cara, aviso que a ansiedade pede passagem. Por isso, a crônica especula em voz alta, mostra a sua garra e, se houver tempo, dá de comer na boca, que o medo está louco para virar pânico. Portanto, não vamos nos enganar em vão: do pânico a se descabelar pelo time errado é um passo ou um salto, que se quebra bem na hora em que a loja está fechando. Depois tem gente que acha que é implicância ou uma... coincidência.
O tarja preta, sem receita nem bula, salta do jornal O Globo desta terça, dia 05 de fevereiro. O colunista Carlos Andreazza preconiza como obviedade comparar o parlamento a empresa ou família. Concordo que o Congresso é composto de pessoas, discordo do jornalista, porém, quando avalia que, se a matéria humana, fresca ou curtida, é ruim, ainda que haja exceções, impossível será um conjunto bom.
Com camufladas presas draculinianas, na Brasília renovada, há raposas na pele de raposa que cantam novatas e novatos à ultrassecreta transfusão envelhecedora.
Não fosse a praxe, da Câmara e do Senado escutaríamos o clamor em tom menor com sabor do novo. Mas não vou pegar essa onda, para não perder a razão ao ouvir Malandra no lugar da ladainha das sereias palhacianas. Que ânsia!
Muitos conduzem a política ao previsível, às favas contadas, sem caixinha de música que mostre mula sem cabeça atuando como a Gilda, da Rita Hayworth. Mas na política, como em tudo mais, o abominável nem sempre gera o abominável.
Alimento o coelho cartomante da cartola, Alice?
Para minha própria danação, puxo do Solano Trindade que intelectual se acomoda sem reencarnar. Dou por mim que sinto escusável o medo que toma conta das respostas automáticas a me defender do que seja surpresa, ataque ou afronta. Olha que não exijo de mim uma autoridade na defesa. Diante do perigo, presença de espírito é: correr. Pelo que me amo, sebo!
Se a circunstância me afrouxa a perna curta, minha palidez espanta assombrações, fantasmas e outros aparvalhados, pois a esperança vence por medo de sucumbir no meio da rua. Nem arma de brinquedo eu porto na bolsa a tiracolo nem sei de cor algum versículo para amedrontar quem teme a ira dos céus.
Fiquemos com a bolsa. E com o celular, no bolso.
Que treco fundamental para a ordem democrática do mundo atual. Arrisco dizer que a paz entre as pessoas de boa vontade depende do imediato acesso ao pensamento contemporâneo. Sem dúvida alguma, as ideias são constantemente viralizadas nas diversas redes. Aí canta solto o sabiá. Que beleza!
Então, para negociar longe das postagens, o recomendável é bancar o pecador arrependido. Afinal de contas, entre gente de bens, tudo tem jeito. Como quem manda tem juízo, siga no samba: Mora na filosofia. Morou, Maria?
Antes que a imagem suma pelas entrelinhas, Anália, o azul da gravata do camarada ao lado do Rodrigo Maia é moda.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de fevereiro de 2019.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Auto de fé


Auto de fé

Disse um dia, num recanto da Paris dos meus sonhos mais loucos, um bistrô tomado de gente interessada no vinho, talvez branco, na temperatura ideal que não sei qual seja, disse, tão logo se livrou da taça de champanhe, por certo era champanhe que todos bebericavam fazendo pose, foi então que o Picasso largou o seu Bordeaux favorito, certamente um tinto seco, para dizer aos presentes, embriagados o bastante para nem notar a boina bacanérrima da púbere Marie-Thérèse, foi em tal estado de lucidez que o andaluz vaticinou que “a arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade, pelo menos a verdade que podemos compreender”.
Em verdade, digo que ficaria sem ar, e até faria aquele ar de inteligente, acaso me encontrasse lá. Como não estava, tenho de me emendar com alguma razão para escrever o que entra na página que estou escrevendo. Ocorre-me mudar o adágio: me diz com quem ando e ele dirá quem sou.
Claro está que o anexim atende a preceitos hodiernos, pela toxicidade semântica pós-cartesiana a instituir-se o excêntrico fardo. Hein? Traduzindo este Coelho Neto: nossos dias pedem que nos identifiquemos com quem somos, a partir das relações sociais. Mesmo que me digam que beber é fugir dos embates ideológicos? Falem à vontade, todavia eu cresço do meu jeito.
Assim, dou à escrita o principado do viver. E passo um terço do dia sentado, de lápis na mão, coçando a nuca, pigarreando, indo tomar água, vindo trocar as palavras. Mas não por ofício.
Escrever é minha vida. Isso rompe com as horas dedicadas e ultrapassa os limites do racional, do mais indicado à saúde.
E admito a minha entrega absoluta à escrita. Sofro, padeço, incorporo, encarno. Contudo, sem os sofrimentos do miserável, sem as maldições do azarado e sem as dores dos sifilíticos.
Pouco me importa a literatura, sigo possuído pela loucura da minha perdição. Todo submisso, me entrego à escrita.
Ando doente de palavras? No demente, o alienado.
A concórdia universal não depende do que faço. Faço, sem a pretensão de tirar quem se recolhe ao papelão. E continuo a fazer, trazendo um pingado anônimo a quem me ignora.
Minha paixão é insana, desumana, pouco dada a afagos. É amor que não me defende das injustiças do mundo. Se as vejo vindo em minha direção, pico a mula.
Por vezes me embriago na bem-aventurança de pensar que as palavras fazem por mim o que não faço. Talvez seja terçã a febre que não passa enquanto escrevo. Me entorpece a mente. Mil demônios! Não consigo parar de escrever. Mesmo quando pouco tenho a dizer aos cidadãos e às cidadãs que depositam no que tenho escrito um crédito que não mereço. Digo isso por trapaça sentimental? Por lirismo. Agora que sei...
Adeus, apostólica missão marxista.
Afinal, os juros dos boletos vencidos estão vibrando o meu celular, este silenciado tratante jamais emudecido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de fevereiro de 2019.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Pétalas solidárias


Pétalas solidárias

Em dezembro passado, numa coluna do Roberto DaMatta, li que “a vivência da igualdade demanda conflito e coragem”. De pronto, cacei exemplos para esclarecer as ideias. Quanto mais busquei o entendimento, mais me senti a correr atrás do rabo.
O rabo é para indicar que padeço de alguma demência que nem sei dizer se já está catalogada por médicos, doutores e os mestres da saúde. Ou o calor fritou os meus miolos, de vez.
Como sempre, para puxar em mim o fio da meada que virou um emaranhado por eu andar à minha roda, veio a realidade.
Estava tomando suco de manga, e admito que, por timidez, sorri quando reverberou em mim a Mayra Andrade a cantar o teu pudor foi transmitido e será neutralizado. Na hora, associei a delícia da música com o prazer da minha beberagem, e, até confesso, ruborizei ao captar que pouco importa a cor do ouro, na corrida ao teu afeto, a medalha sempre é bronze.
Filtrado pelos 40 graus deste janeiro, pareço delirar.
Mas, à mesa ao lado da minha, sentam uma jovem mãe e a sua filhinha, de uns três ou quatro anos, por aí, a julgar pelas perguntas dos olhinhos. Dirigidos ao próximo, assombrados.
A pequerrucha, à deriva entre a TV e mim, fica exposta a todas aquelas violências. E como são torpes essas imagens de Brumadinho, e retratam um crime cometido contra as gentes de Minas Gerais, são o massacre hediondo contra as pessoas que têm o cotidiano à mercê dos negligentes da Vale e dos fiscais malandros e dos omissos que não fazem a justiça andar.
Quando perguntada, a mãe que, zapiando absorta e lépida, dispara que esse Brasil aí, filhota, vai mudar com o Bolsonaro. Tocada pelo sofrimento, a criança suplica misericórdia, contudo a imbecil, teclando, descarrega: Deus castiga os pecadores.
Do fel, fazer mel? É urgente um antídoto, porque me recuso a ser envenenado pelo que despeja esta energúmena.
Para meu alívio, ouço o porta-voz dos Bombeiros de Minas, o lúcido e articulado Pedro Aihara: “estamos trabalhando como se essas pessoas fossem nossas mães e nossos pais”.
Pelo respeito às pessoas e pela voz da igualdade, sou grato ao tenente. Pois não há acaso, há escolha nisto: somos gente.
Como uma história está conectada a outras, eis que me vem à ideia a da veterinária do Guarujá, do litoral paulista, que foi a Brumadinho para ajudar. Se dela não sei o nome, sei que ama a vida e o seu ofício. Posso dizê-lo, uma vez que, durante dias, ela deixou comida para um gatinho arredio. E só no terceiro dia o assustado bichano parou de correr da médica.
A vida segue em Brumadinho. Nesta sexta, sete dias após o desastre, à hora do estrondo da terra aprisionada pela cobiça, componentes do resgate espargem amor em pétalas, colhidas à coragem de quem se doa ao mundo, apesar dos espinhos.
Vendo a cena, não nego minhas líricas lágrimas indignadas, que brotam por nós ─ vivos e mortos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de fevereiro de 2019.