domingo, 11 de novembro de 2018

A voz fundamental



A voz fundamental

É de quem tem o que dizer; ou é de quem acha que tem o que dizer e não para de repetir isso; ou é de quem pensa que o que tem para dizer é importante, basta dizê-lo para ser ouvido.
É a do primeiro violino quando o oboé já contou a sua parte, uma vez que uma ária, para contralto ou soprano, estaria fora de lugar, pois se trata de uma sonata para piano. Beethoven, a lua de novo?
É a da oradora da turma, eleita por colegas, quando todas as famílias dos alunos estão à espera das suas palavras, as mais recomendáveis para que a esperança ganhe fôlego com a nova geração. Falando como quem tem tudo para não se calar.
É a da mãe no domingo, que ela sabe que a macarronada só dá para a família, quando o cunhado vem juntar suas quatro barrigas ocas com as oito bocas residentes. Daí o acolhimento, pois tudo tem jeito quando damos um jeito.
É a do pastor, de Bíblia na mão, pensando que já um dia foi de usar calças curtas e camisa com o nome da escola, que ele foi de aprender que é dando que se reparte. Embora, por conta das circunstâncias da vida, tenha-o esquecido entre um depósito e outro. E pensar que teve a memória boa, até para ouvir-se.
É a do poeta que olha as formigas indo e vindo, sem parar, no trabalho pesado antes do inverno, durante o inverno, no meio da noite, em pleno meio-dia. É que a natureza anda apressada com as providências que não podem ser deixadas de lado, mesmo com o presidente eleito, mesmo com o preço do tomate, mesmo que chova na caatinga logo agora, às vésperas da Black Friday.
É a da criança descalça, nariz escorrendo, vindo pedir à saída da missa, a pedir pela sua alma, não a dela, a sua, a de quem me lê e olha para o celular, preocupado com o trânsito do final deste e de todos os domingos, faça sol ou chova. Além.
É do bem-te-vi que pousou no parapeito da minha janela na manhã de ontem, quando eu ainda estava deslumbrado com o céu estrelado da noite, percorrendo distâncias entre a lágrima e a saudade da minha cama. Na imagem, em pé no parapeito, com os nervos retesados, com um certo tremor nas coxas, pelo esgotamento da decisão postergada.
Aedes, ouvir-me responder com os reparos dos louvores não traz espinhos à palavra, nem neste domingo nem nas feiras de banal extração. Quero abonar o sentido da busca do basilar no mudo ou está perdida a oportunidade do silêncio?

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, dia 11 de novembro de 2018.