quarta-feira, 23 de outubro de 2013

mesmo
na idade
de virar
eu mesmo

ainda
confundo
felicidade
com este
nervosismo

Paulo Leminski

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Viagem futura

Um dia aparecerão minhas tatuagens invisíveis:
marinheiro do além, encontrarei nos portos
caras amigas, estranhas caras, desconhecidos tios
                                                                       [mortos...
e eles me indagarão se é muito longe ainda o outro
                                                                 [mundo...


Mario Quintana

domingo, 21 de julho de 2013

Os nativistas

Embora  seja o país
Privança de um rei distante,
Que dorme em cama de plumas,
Sob o leque adulador
De cortesãos, confiado
No ouro de nosso suor.

Embora Villegaignon,
Bom cavaleiro de Malta,
Corte a golilha, revogue
A lei da canga servil
E mostre à ovelha espantada
A estreiteza do redil.

Embora Nassau ensine
O curiboca a ser gente
E mude a sua tapera
Em palácio e faça o boi
Voar, convertendo em pássaro
Quem bicho rasteiro foi.

Embora careça pólvora,
Esquadra, falcões, mosquetes,
E andemos sempre descalços,
De arcabuz enferrujado,
Na guerrilha sem quartel
Contra inimigo equipado.

Embora em paga do sangue
Derramado se nos dêem
Três magros vinténs, que mal
Suprem a fome de quem,
Longo tempo jejuado,
As tripas falantes tem.

Embora, vencido o intruso,
Ao cabo de grã peleja,
Pena sem fim, heroísmo
Sem nome, a terra de novo
Volte ao antigo senhor,
Ficando logrado o povo.

Embora assim, combatemos
(Ararigbóia, Negreiros,
Caramuru) contra a insídia
De flamengo ou de francês.
Neste combate aprendemos.
Esperai, meu rei distante:
Há de chegar vossa vez.


José Paulo Paes


sábado, 23 de março de 2013

Circular

Neste mesmo instante, em algum lugar,
alguém está pensando a mesma coisa
que você estava prestes a dizer.
Pois é. Esta não é a primeira vez.

Originalidade não tem vez
neste mundo, nem tempo, nem lugar.
O que você fizer não muda coisa
alguma. Perda de tempo dizer

o que quer que você tenha a dizer.
Mesmo parecendo que desta vez
algo de importante vai ter lugar,
não caia nessa: é sempre a mesma coisa.

Sim. Tanto faz dizer coisa com coisa
ou simplesmente se contradizer.
Melhor calar-se para sempre, em vez
de ficar o tempo todo a alugar

todo mundo, sem sair do lugar,
dizendo sempre, sempre, a mesma coisa
que nunca foi necessário dizer.
Como faz este poema. Talvez.


Paulo Henriques Britto




domingo, 27 de janeiro de 2013

Tem aqueles que

Tem aqueles que cumprem a vida com mais eficácia.
Põem ordem em si mesmos e a seu redor.
Têm resposta certa e jeito para tudo.

Logo adivinham quem a quem, quem com quem,
com que objetivo, por onde.

Batem o carimbo nas verdades únicas,
atiram ao triturador fatos desnecessários,
e a pessoas desconhecidas
de antemão destinam fichários.

Pensam só o quanto vale a pena,
nem um instante mais,
pois depois desse instante espreita a dúvida.

E quando recebem dispensa da existência,
deixam o posto
pela porta indicada.

Às vezes os invejo
por sorte isso passa.


WISLAWA SZYMBORSKA
tradução REGINA PRZYBYCIEN

fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1220200-mapa-e-outros-tres-poemas.shtml