domingo, 7 de junho de 2026

Sem trote

 

Sem trote

 

À primeira vista, aqueles homens estão brigando.

Não são simpáticas essas pessoas que saem no braço por qualquer besteira. Gente simpática opta pelo diálogo. Quando a boa gente parte pra troca de sopapos, isso me faz reavaliar o uso eventual da violência, porque há situações em que é complicado entender-se nem mesmo aos gritos.

E aqueles dois não só gritavam, empurravam-se, atracavam-se e, para o meu mais secreto horror, até se esmurraram.

Tirando a miopia dos apressadinhos que acham motivos de sobra pra qualquer um espancar outro qualquer, seja lida a evidência do fato: homenzarrão bombado apanha de mirrado barrigudinho.

Dado que sou dado a afoitezas quando irritado —  havia meia hora que esperava o táxi que o aplicativo localizara a dez minutos da minha localização —, tirei o celular do bolso quando o tumulto estourou no lado ensolarado da rua.

Deixo de lado a impaciência, empunho o telefone e divirto-me.

Como me amansava fotografar, ia postando fotos do entrevero que continuava engraçado ali, na banda ensolarada do logradouro.

Se não fosse pelo registro da pancadaria, teria ido ao ponto de táxi que fica perto — a dois quarteirões do ringue improvisado.

Já que a minha atuação às escâncaras fez de mim testemunha, os dois altercadores vêm ter comigo.

O baixinho diz por quais motivos precisa ser violento:

― Pediram que eu pegasse uma mulher nesta rua. Eu vim e não vi nenhuma mulher de vestido vermelho e bolsa vermelha. Me passaram um trote. Tudo bem, isso acontece. Mas telefonaram de novo. Eu teria de vir a esta mesma rua, agora para pegar um passageiro que estava usando muletas por causa do gesso na perna esquerda. Porque estava a quatro quadras daqui, eu vim. Outra vez foi trote, pois eu passei pelo número que me disseram e não vi ninguém. Quando passam trotes um depois do outro, aí a coisa muda de figura. Eu fico fulo da vida. Então, pela terceira vez, me fizeram vir pra esta mesmíssima ruazinha do cão, porque estaria esperando uma moça de vestido vermelho com a perna esquerda engessada, só que ela não tinha bolsa vermelha, reforçaram: a bolsa dela era amarela. Novamente eu vim, e fiz de ponta a ponta a danada da rua e outra vez não tinha moça alguma me esperando com sua bolsa amarela. E eu cheio de esperanças pra alegrar meu dia.

Com jeitão de que pode deixar grogue quem conheça a potência do seu murro, o grandalhão dá soquinhos na boca, pigarreia e diz:

 Não se engane. Sei qual o meu papel nesta história. Quando este cavalheiro disse quem ele é, compreendi a situação. Uma vez que sua senhora e eu temos algo intenso, ele tem razão para insultar e agredir. Ao marido traído não seja negada a desforra, só isso. Tomei a iniciativa de socar o queixo dele, afinal sou o amante da esposa dele.

Apontando pro telefone que o meu sovaco não esconde direito, com vozeirão de barítono, ele tasca:

― Por acaso, o cidadão tem o meu número?

Como observador amador da realidade, no ato, eu atalho:

― Não fui eu, senhor. Só gente com crédito que passa trote.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de junho de 2026.

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