Feito
prato
Um sonho de cada vez. A caminhada na
praia... O ar que a manhã despeja sobre o cinza meio azulado do mar ou a prosa
mansa do mar com o friozinho azul? Preciso passar pro papel. Coar a ideia. Sem
pressa alguma. Escrevendo a partir do que penso querer dizer. Não entro a
escrever só porque leio. Gosto de ler, nem tanto do que leio. Tem cabimento,
sim. O leitor e a leitora desejam o guisado em pratos limpos. Para isso, nutro
de palavras; sinais gráficos; figuras de linguagem, de pensamento. Preservo quem
lê com a cabeça e o coração. Ô coisa! De olho nas regras, burlo; jogando com
limites, aposto; exploro o filtro, arisco. E os ângulos suspeitos, pontos de
vista contraditórios e argumentos tão bem desenhados? Cuido do retrato que o
texto fabrica, menos da boa pinta do cronista. Não me condenem por cubista nem me
amarrem à lógica euclidiana. A forma é para bolo, e crônica não tem receita. Se
a elegância do cronista está em ficar discreto ou feito funâmbulo de bêbado no
espalhafato do tombo retumbante? Sem perder o rebolado, provocante. Ao entrar
na dança, rodo a baiana. Embora os dedos teclem com a fúria dos indignados, é bacana
os pratos girando na ponta das varas. Ah! Pró ou contra... Quando terminar o
texto? Ao largar pela metade? Faço pose, o holofote me chama. Nas vezes que
pareço que tenho decorado o texto, estou na corda bamba. Já disse alguém por aí
que a gente sabe se o sal está na medida quando experimenta. Se a vizinhança
fica espiando? Faz parte. O sujeito deixar todo aquele sol lá fora... Por que fica com
a fuça metida na tela do computador? Fiquem sabendo que a minha língua também não
se aguenta de ferina. Domino-a, ou tento. E o tal Mr. Hyde... Vou por mim, entendo
do lúcido no confuso, do alívio na angústia. E sem a condescendência do palhaço
que erra a mão ao fazer graça, chuto o pau da barraca. Vou sem a indulgência de
me tomar por arauto de um mundo que vive de segredinho. Quando dou pelo fim? Armo
o bico, pigarreio. Parei de fumar, não de tomar café. Volto, e leio tudo. De
novo. E vou do título ao ponto final. Tudo? Tudinho. O sonho acolhido por palavras
a mais, a menos. Se bebo da água colhida na concha das mãos? Bebo. Só que não
me satisfaz. E ponho gosto que a crônica vá pela praia pensando na rede. E que,
lá pelas sete, o vento do temporal anuncie a frente fria. Assim. Nem tanto pelo
que escrevi e nem tanto pela vaidade que me abraça, porque o papel se faz de
espelho para mais bem escoar as palavras. Se torto está o nariz? Trato de
enfatizá-lo. Para que minhas ideias, mesmo as tortuosas, não torturem? A lida
está em lapidar para que o sol aqueça o que se lê. Mas tem caco pelo texto todo...
Quanto ao resmungo, entendo. Já a espuma? O meu angu até pode tomar caldo, não
o cronista. Aliás, a crônica está servida. Bom apetite.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 09 de junho de 2019.
Nenhum comentário:
Postar um comentário