domingo, 9 de junho de 2019

Feito prato


Feito prato

Um sonho de cada vez. A caminhada na praia... O ar que a manhã despeja sobre o cinza meio azulado do mar ou a prosa mansa do mar com o friozinho azul? Preciso passar pro papel. Coar a ideia. Sem pressa alguma. Escrevendo a partir do que penso querer dizer. Não entro a escrever só porque leio. Gosto de ler, nem tanto do que leio. Tem cabimento, sim. O leitor e a leitora desejam o guisado em pratos limpos. Para isso, nutro de palavras; sinais gráficos; figuras de linguagem, de pensamento. Preservo quem lê com a cabeça e o coração. Ô coisa! De olho nas regras, burlo; jogando com limites, aposto; exploro o filtro, arisco. E os ângulos suspeitos, pontos de vista contraditórios e argumentos tão bem desenhados? Cuido do retrato que o texto fabrica, menos da boa pinta do cronista. Não me condenem por cubista nem me amarrem à lógica euclidiana. A forma é para bolo, e crônica não tem receita. Se a elegância do cronista está em ficar discreto ou feito funâmbulo de bêbado no espalhafato do tombo retumbante? Sem perder o rebolado, provocante. Ao entrar na dança, rodo a baiana. Embora os dedos teclem com a fúria dos indignados, é bacana os pratos girando na ponta das varas. Ah! Pró ou contra... Quando terminar o texto? Ao largar pela metade? Faço pose, o holofote me chama. Nas vezes que pareço que tenho decorado o texto, estou na corda bamba. Já disse alguém por aí que a gente sabe se o sal está na medida quando experimenta. Se a vizinhança fica espiando? Faz parte. O sujeito deixar todo aquele sol lá fora... Por que fica com a fuça metida na tela do computador? Fiquem sabendo que a minha língua também não se aguenta de ferina. Domino-a, ou tento. E o tal Mr. Hyde... Vou por mim, entendo do lúcido no confuso, do alívio na angústia. E sem a condescendência do palhaço que erra a mão ao fazer graça, chuto o pau da barraca. Vou sem a indulgência de me tomar por arauto de um mundo que vive de segredinho. Quando dou pelo fim? Armo o bico, pigarreio. Parei de fumar, não de tomar café. Volto, e leio tudo. De novo. E vou do título ao ponto final. Tudo? Tudinho. O sonho acolhido por palavras a mais, a menos. Se bebo da água colhida na concha das mãos? Bebo. Só que não me satisfaz. E ponho gosto que a crônica vá pela praia pensando na rede. E que, lá pelas sete, o vento do temporal anuncie a frente fria. Assim. Nem tanto pelo que escrevi e nem tanto pela vaidade que me abraça, porque o papel se faz de espelho para mais bem escoar as palavras. Se torto está o nariz? Trato de enfatizá-lo. Para que minhas ideias, mesmo as tortuosas, não torturem? A lida está em lapidar para que o sol aqueça o que se lê. Mas tem caco pelo texto todo... Quanto ao resmungo, entendo. Já a espuma? O meu angu até pode tomar caldo, não o cronista. Aliás, a crônica está servida. Bom apetite.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de junho de 2019.


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