A
tempo
Entendo lhufas do clima. As tais
mudanças climáticas têm a ver com a formação e o deslocamento das nuvens? Sei que
me cumula de ignorâncias o mentecapto a confundir a fresca com o refresco. Em
deslavrado afresco, confesso-me estúpido.
Por estupidez, não acurácia, ouço mal
a palavra nimbus. Ao ouvi-la, já vou tirando
sapato e dobrando a barra da calça. Não espero o aguaceiro todo que a palavra
torna implícita quando pronunciada. De nada adianta fingir que nem desconfio que
do estrondo escapa o estrago. Sabe aquele fiozinho tão recatado na estiagem? Passa
por mim o raio: vai aprontar das suas, o Pilões. Afinal, é de Tamanduateís que
são feitos os Tietês.
Portanto, não me resta a desculpa da
surpresa. Há rios que viajam nas estratosferas, vindo de biomas distantes,
voadores.
Como queria deter o conhecimento que
permitisse separar o susto do espanto. Mas a tecnologia da natureza é-me
obscura, pedra bruta que cresce no meio do encéfalo. Não entendo.
O bafo quente do nosso manjadíssimo de
tantos temporais? O Noroeste chega sem frescura. Chega chegando, prova viva do
trabalhão que dá ficar caçando os sinais do olho do tornado. Então, de próprio
testemunho damos que o Tropical Canarinho está livre de Katrinas e Etnas. Ô
alísio do alívio!
Em matéria de temperatura e pressão?
Fora certos cirros hepáticos, a coisa
é erguer as mãos pela bonança dos céus. O sangue não afoga a coceirinha na
testa. Se neurônios e sinapses põem tortos os caminhos? Não serei quem há de se
dispor a contradizer os profissionais do tempo ─ cientistas, técnicos, e os
demais que nem sei nome e função.
Garoazinha... Não me fio na alegria
que dura pouco.
Corro o entendimento pelo que
registram os meteorologistas em boletins, mas fico a ver navios. Demasiado
humanos. Vêm em dilúvio os cálculos, as tabelas, previsões e probabilidades.
O mais são nuvens, nuvens, nuvens. E a
névoa dos dias.
Calma, nada. Pois cá vem O Holandês
Voador. Numa horas dessas? Calmaria, coisa nenhuma. Bulhufas e pitibiribas! Entra
ano e sai ano, as estações conhecem o roteiro? Isso já era. E a torneira seca? Um
inverno! Que cineasta poderia vir reparar de jeito? Nem o Woody Allen, para
melancolias autodepreciativas, ou o Groucho Marx, para algum inclassificável
pandemônio.
Para desembargo de consciência, com mui
supremo apreço, entretanto imperioso, é possível acompanhar virtualmente este
relator. Desde que fique assinalado, no devido tempo, qual é a preferência da
freguesia: chocolate; baunilha; mesclado; outro sabor; odeio sorvete; meu voto não
tem preferência.
E sem nenhum telefone, e-mail ou
telegrama interceptados, a estupidez direciona o olhar para o que os olhos não
divisam: a nuvem que passa é a mesma que evapora em desamparo.
Além de mim, nesta zona onde cresce o
Xixová, há quem se pergunte: geada de granizo existe?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 11 de junho de 2019.
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