terça-feira, 11 de junho de 2019

A tempo


A tempo

Entendo lhufas do clima. As tais mudanças climáticas têm a ver com a formação e o deslocamento das nuvens? Sei que me cumula de ignorâncias o mentecapto a confundir a fresca com o refresco. Em deslavrado afresco, confesso-me estúpido.
Por estupidez, não acurácia, ouço mal a palavra nimbus. Ao ouvi-la, já vou tirando sapato e dobrando a barra da calça. Não espero o aguaceiro todo que a palavra torna implícita quando pronunciada. De nada adianta fingir que nem desconfio que do estrondo escapa o estrago. Sabe aquele fiozinho tão recatado na estiagem? Passa por mim o raio: vai aprontar das suas, o Pilões. Afinal, é de Tamanduateís que são feitos os Tietês.
Portanto, não me resta a desculpa da surpresa. Há rios que viajam nas estratosferas, vindo de biomas distantes, voadores.
Como queria deter o conhecimento que permitisse separar o susto do espanto. Mas a tecnologia da natureza é-me obscura, pedra bruta que cresce no meio do encéfalo. Não entendo.
O bafo quente do nosso manjadíssimo de tantos temporais? O Noroeste chega sem frescura. Chega chegando, prova viva do trabalhão que dá ficar caçando os sinais do olho do tornado. Então, de próprio testemunho damos que o Tropical Canarinho está livre de Katrinas e Etnas. Ô alísio do alívio!
Em matéria de temperatura e pressão?
Fora certos cirros hepáticos, a coisa é erguer as mãos pela bonança dos céus. O sangue não afoga a coceirinha na testa. Se neurônios e sinapses põem tortos os caminhos? Não serei quem há de se dispor a contradizer os profissionais do tempo ─ cientistas, técnicos, e os demais que nem sei nome e função.
Garoazinha... Não me fio na alegria que dura pouco.
Corro o entendimento pelo que registram os meteorologistas em boletins, mas fico a ver navios. Demasiado humanos. Vêm em dilúvio os cálculos, as tabelas, previsões e probabilidades.
O mais são nuvens, nuvens, nuvens. E a névoa dos dias.
Calma, nada. Pois cá vem O Holandês Voador. Numa horas dessas? Calmaria, coisa nenhuma. Bulhufas e pitibiribas! Entra ano e sai ano, as estações conhecem o roteiro? Isso já era. E a torneira seca? Um inverno! Que cineasta poderia vir reparar de jeito? Nem o Woody Allen, para melancolias autodepreciativas, ou o Groucho Marx, para algum inclassificável pandemônio.
Para desembargo de consciência, com mui supremo apreço, entretanto imperioso, é possível acompanhar virtualmente este relator. Desde que fique assinalado, no devido tempo, qual é a preferência da freguesia: chocolate; baunilha; mesclado; outro sabor; odeio sorvete; meu voto não tem preferência.
E sem nenhum telefone, e-mail ou telegrama interceptados, a estupidez direciona o olhar para o que os olhos não divisam: a nuvem que passa é a mesma que evapora em desamparo.
Além de mim, nesta zona onde cresce o Xixová, há quem se pergunte: geada de granizo existe?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 11 de junho de 2019.


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