quinta-feira, 4 de abril de 2019

Corpo estranho


Corpo estranho

Nada mais estranho do que o mundo. Olho a rua. Ocupo-me dos passantes. Antes de passar pela rua em que moro, o que estavam fazendo? Vão para onde? O que irão fazer quando lá chegarem? Será que estão indo trabalhar? Que vida esquisita.
Mas não vou especular. Ou errarei pelo nonsense que nutre as sinapses com uns desequilíbrios químicos, na confusão de dopamina, endorfina, sei lá o que mais.
Para falar de outras esquisitices...
Faz dias, começaram a repetir o George Santayana, a frase: "Aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo". Não sei dizer em que contexto foi dita, mas tem validade pela advertência. O tanto de importância e relevância está na construção: PODE lembrar. É a locução empregada, que diz o direito de lembrar, rememorar, recordar. Mas não diz comemorar, celebrar, ou, sequer, festejar. Ficou claro?
Entendo que seja este o teor do aviso. Por precaução, e o faço sem tirar pela violência, volto àqueles dias.
De fato, e por direito, lembro o que houve em 1964 e o que se seguiu ao golpe. Vi caminhões militares passando diante da janela de casa; em seguida, não sei quanto tempo depois, com meu pai e minha irmã, fui ver, onde havia um declive lamacento hoje está o cemitério novo de Ibiúna, e vimos moças e moços do Congresso da UNE que foram presos num sítio, em 68.
Mas foi só no primeiro ano da faculdade de Jornalismo, em 1984, que liguei minhas memórias com o dia a dia da noite que durou até o ano seguinte, 1985. Ano em que Tancredo morreu. E antes de tomar posse como o primeiro presidente que, desde o tal março de 1964, não era um ditador fardado. Um tranco.
Por dever e por direito, busco saberes sobre o que não sei. Não uso óculos tecnologicamente desenvolvidos para limpar da minha frente a poluição de pululantes telas de tantos trecos.
E é na TV que vejo uma fila quilométrica, com mais de 15 mil pessoas procurando emprego e querendo trabalhar. Leio os índices do IBGE; informam qual o método para os cálculos, o mesmo usado mundo afora. Quer pulga, orelha?
Fecho os olhos, a realidade não some. Sou teimoso, a bicha é mais. Nem sacudindo o troço que servia para telefonar...
Eca! Para não fazer miséria pela casa toda, já que a barriga anda descontrolada como a vida, corro ao banheiro. Ufa.
Peralá! Não é porque nasci antes do advento da Idade Mídia que condeno os trambiqueiros digitais. É porque, no admirável mundo das redes, tolices puxam outras. Novidade?
Para posar de Família Margarina, tem gente usando foto de filho dos outros como se fosse dela. Que fofo...
Depois disso tudo, melhor me comportar direito. Se tudo der certo, vou dar jeito na vida. E passar a comer de 3 em 3 horas, dormir 8 horas, e curtir o celular só umas 20 horas por dia.
Ou os ETs que estão de butuca ─ paradoxalmente calados, Fermi? ─ vão escapulir do Hubble a mil zilhões de anos-luz.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 04 de abril de 2019.

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