quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Nome novo na praça

 

Nome novo na praça

 

Quinze minutos antes de deitar, liga o repelente. Depois das muitas tentativas, chegou ao tempo que lhe serve para, no escuro, contar com o calor da tela do celular. Sempre tem um pernilonguinho que se recusa a sair do quarto, embora a porta que dá pro quintal tenha permanecido aberta grande parte do dia, tem um que fica. O teimoso vem resvalar a tela do telefone, mas ele usa a mão como abano e o gás exalado pela pastilha espalha-se, então, o indivíduo alado sente o gás que o repele. Sem mais o que fazer, o referido inseto luta contra seu instinto, mesmo atraído pelo calor da tela, atraído pelo gás que o camarada exala pelas narinas, o que repele o mosquito é o gás produzido pelo calor gerado pela eletricidade. O que não deixa de ser uma diversão; algo perversa, é só brincadeira contra a natureza do bicho.

Algo bem diferente é usar jujuba como isca?

Tem chovido forte. Tem chovido muito em poucos minutos. É chuva para lá de metro, caso haja quem meça a altura da enchente e compare esta última com a altura da enchente anterior, com a altura da enchente anterior, com a altura anterior, com a anterior, indo até o início, pra que se conclua: tem chovido forte, muito e em pouco tempo, o que acarreta estragos, prejuízos e desespero, uma vez que dias tão chuvosos serão o novo normal, até que o antropoceno encontre o fim.

Como a jujuba pode estar relacionada com o fim da civilização?

O telhado da casa de Eurípedes não veda o aguaceiro. Há goteiras nas duas águas; elas são tantas, e tantas elas são, que baldes e bacias transbordam, inundando sala, quarto e cozinha.

A casa do cidadão fica à beira-rio. Com a chuvarada, as margens não barram as águas do rio.

Logo, a água na casa e as águas do rio viram uma.

Peixe não conhece limite ou o sentido do limite, peixe nada e come.

Eurípedes gosta de peixe, tanto gosta que não tem preferência: seja assado, grelhado, cozinho, cru; sendo peixe, ele quer, ele pode; então, as águas ficam misturadas quando chove; e como tem peixe no quarto da sua casa, adora chuva.

Ele sonhou e duvidou, mas fez a armadilha.

Deitado, vê os peixes que passam nadando. Tem um retângulo no piso, é uma piscina. E os peixes que entram nadando são atraídos por jujuba, são esses que ficam presos. Assim que a chuva passa, ele tira a água do piso e, vendo os peixes no buraco feito no chão, sorri.

O que Eurípedes não sabia, mas ficou sabendo, é que muriçoca dá uma massa irresistível; e, segundo falaram, há uma quantidade muito maior de peixe que é tarado por massa de muriçoca.

O próximo projeto está claro: informar-se sobre as muriçocas; o que as atraem; os alimentos preferidos; o tempo de vida; quais as melhores condições pra conservá-las vivas; sobre, incontestavelmente, o fabrico dessa isca infalível.

Regozija-se: não será apenas o rei da tilápia, uma vez que, dali em diante, será Jujuba Muriçoca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de janeiro de 2025.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Relações misteriosas

 

Relações misteriosas

 

O motorista não precisou manobrar o caminhão para estacioná-lo, era domingo. Sem perda de tempo, os funcionários começaram a levar caixas, encontraram portão e porta abertos. O motorista sentou-se na calçada, recostou-se no muro, tinha tanta coisa para assistir, pena que fosse alérgico a fones de ouvido. No uniforme dos funcionários estava estampado o logo daquela famigeradíssima empresa de mudanças ― o mais vistoso às costas e o menor no cantinho em que a maioria julga sentir o coração, à esquerda.

Compadecido, não exporia os meus cães àqueles funks em volume enlouquecedor: os pugs Marx e Rosa foram os primeiros a correr atrás das pombas; Sebastian e Clara, os collies, nunca as comeram.

Pedindo vênia a você que me lê, é em nome da transparência que informo que batizei os cães por causa de Karl Marx, Rosa Luxemburgo, Johann Sebastian Bach e Clara Schumann.

Tão logo as margaridas pararam a um passo, enluvei as mãos com sacolinhas de supermercado e atirei no carrinho a pomba abatida pela tão entusiasmada Clara.

Pra não me criticarem condescendente com os bichinhos, invitei-as a que bebessem café, pedissem pãozinho na chapa ou simplesmente me agradecessem, gratas por eu não ser mais um toleirão na praça.

“O senhor é sempre o mesmo, sempre generoso, sempre pagando um cafezinho, sempre ajudando, jogando o lixo no lixo, sempre”.

Para ser sincero, tomamos café, comemos coxinha, reclamamos do calor, clamamos por chuva, nada de temporal que dê prejuízo a quem já tem sofrido uma barbaridade com o preço das coisas.

Em outras palavras: sensato seria eu confessar que, sem ninguém espiando, pensando em dores lombares e joelhos estalando, prioritário é preservar a espinha ereta.

Eis que a ociosidade tem esse poder sutil, o de permitir que o ocioso espie um pouco, só mais outro tantico, até que o arroz com feijão venha à mesa que nem as cuecas lavadas que se penduram no varal.

Como era domingo, como estava a fim de ficar à toa mais um pouco, fui à janela que dá para o beco, fui chupar uva, fui ver o que desse para ver, e eu vi.

Sem caixas pra descarregar, distribuídos de acordo com o cômodo, transportaram tevê, camas, cômodas, guarda-roupas, tevê, geladeira, fogão, mesa, cadeiras, poltronas, retratos, abajures, livros e livros.

Reconheci os móveis, eram antigos. Embora bem antigos, estavam preservados. Aquele mobiliário fora retirado da casa quando morreu aquele que a construiu do zero, pondo abaixo a residência erguida por um fundador da cidade.

O primeiro dono da atual construção nasceu para pescar, e pescava o ano todo. De domingo a domingo, levantando-se antes da aurora, ele só tinha o trabalho de ir pescar a cem metros da porta da cozinha, indo ao rio que, mesmo hoje, corre ainda nos fundos da propriedade.

O mundo são mistérios que a razão tenta emaranhá-los?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de janeiro de 2025.

domingo, 26 de janeiro de 2025

Caçambeiro

 

Caçambeiro

 

Taborda está com a corda toda ― não com ela no pescoço; pronto para capturar quem se distraia pro óbvio do enlaçamento.

Senhor, preciso de um deus que brinque. Dispenso aquela criatura que puna. Sou fonte de desculpas, mas desculpa não é explicação. Eu não tenho de ficar me culpando. Não quero esse deus que entenda por que preciso sassaricar. Não me avexa gargalhar. Creio que a piedade me enfraqueça. Acredite, sou o gozador que não oferece a outra face. Não preciso de um deus que castigue na face oferecida, pois não tem nenhuma humildade naquele que escolhe levar castigo. Quem escolhe a outra face não espera rir melhor, noto aí a esperteza. Falta-me o deus que decifre os hermetismos, que me esconder é coisa de espertalhão. Mas um esperto quer ser estapeado, achando que o deus que atende às suas preces é igual ao deus que pode castigar. Sem fustigar esse malandrão que pula na jugular, venha a ser o deus que não adora ser adestrado. Desespero não ter esse deus que pule antes, que dê o bote certeiro, para desossar a farsa. Não desejo esse deus que faça sombra quando suo, que cave o poço quando tenho sede. Quero um deus que vente, derrube árvores, deslize pedras, traga trovões, relampeje, faça um espetáculo que seja divertido.

Taborda bebe.

Cadê você, abestado?

Taborda seca a garrafa.

A carroça não vai sem o burro que a puxe. A puxar, não ligo. Desde que a carroça avance, puxo até que falhem as forças, com os músculos a latejar. Desde que a lenha vá à padaria, puxo, sou burro que empaca, zurra à cascavel no caminho, porque sei escoicear. Desde que o forno siga assando os pães, prefiro servir feito burro. Preciso de ser útil. Não quero ser reservado, quero ser puxado, exposto no uso.

Como plástico não gera cacos, a garrafa atirada quica no muro.

Gosto de ser útil. Tenho essa necessidade de trabalhar. Desde que ninguém me impeça, não diga para sair do sol. Quero deitar depois de outro dia de trabalho. Mesmo exaurido, vou querer o mesmo de ontem, rir. Bato perna sem medo de dar com quem faça rir, me pagando. Nem ligo que falem, não esgoto os meus braços. Quero acordar quando tiver que acordar, só depois vou carregar lenha. Sigo burro, levo a lenha à padaria. Depois de nocauteado pelo cansaço de andar, preciso sair do lugar, não vou atolar, não vou encalhar a carroça.

Taborda tem outra garrafa de água de coco.

O pior sentimento é aquele da impotência, de ser carroça carregada que fica vazia, ociosa. É desperdício ficar parado no tempo. Sou essa lama que apodrece os pés, as rodas, a que trava os eixos. Com a lenha a sentir que o forno se resfria, sou lenha a ser levada, vou tostar o pão. Desde que o padeiro amasse a massa, cuspa a lama e beba o quanto queira o leite da alvorada.

Debaixo do meio-dia, o lixo esconde o resto.

Amanhã tem mais? Que chatice! Amanhã é já, ou não será.

Nunca lhe deram água de coco?

Caçamba!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de janeiro de 2025.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Bela viola

 

Bela viola

 

Terei ouvido pollo? O garotinho no carrinho, em pé entre bananas e maçãs, terá mesmo dito ‘polho’? Apontando para a verdura, ele disse novamente à mãe: eu quero comer piolho.

O seu pedido não era por pollo nem por polho nem por piolho, era, sim, pelo manjadíssimo repolho.

Um pequerrucho pedindo para comer verdura é novidade para mim, pois ainda hoje, já sendo eu um marmanjo de cavanhaque grisalho, as goiabinhas seguem em alta na minha dieta.

E lá vou eu. Às gôndolas, lá vou eu pegar fritas, amendoim e a dita cuja, a goiabinha da marca que eu como.

Ressalve-se: é preciso tomar o cuidado para não fazer propaganda gratuita; algo que sempre faço, mesmo com a bolacha de maisena cuja marca não mencionarei, ainda que esteja sempre fresquinha.

Fresca na mente é a finalidade maior deste dia: não adiar a reforma da casa da árvore.

Baixei as tábuas, medi-as, comprei-as já aparelhadas e coloquei-as no lugar ― trabalho ao qual me dediquei, pela manhã e à tarde.

Findo o serviço, sentei na área externa da casa: balancei as pernas; não vi a Liga dos Campeões; à vontade, bebi água.

No cubículo coberto, além do sofazinho da sesta e do micro-ondas para pizzas, o galão de água mineral vazio é trocado pelo cheio.

Então, dá-se o incrível.

Entre minha residência e a jabuticabeira onde me encontro, desce aquele troço.

Bato a foto e o Google identifica: este objeto voador é uma aeronave vertical elétrica.

Da engenhoca, sai um escritor cujo nome não citarei, para não levar um processo por chamar a personagem de Ricardo Lísias.

Em seguida, sai aquela personagem que o Ricardo Lísias atreveu-se a chamar de Eduardo Cunha, mesmo não sendo aquele político que está solto por decisão judicial.

Atrás da personagem que não é o Eduardo Cunha solto por decisão judicial sai da máquina futurista uma personagem togada, cujo nome é homônimo daquele juiz togado, precavendo-se de não citar seu nome, para não haver confusão com o verdadeiro Alexandre de Moraes.

Atrás da personagem que não é o verdadeiro Alexandre de Moraes sai do aparelho elétrico mais pesado que o ar a personagem cujo nome é Policarpo Quaresma, conforme decisão autoral de Lima Barreto.

Atrás do Policarpo Quaresma batizado por Lima Barreto aparece o suposto Lima Barreto, que não para de borrifar com uma bomba de flit, gritando sem parar:

Saúva! Saúva! Saúva! Saúva!

O que mais poderia desafinar este nosso allegretto?

Se a minha imaginação tivesse a coragem de enfrentar o meu tédio, se eu fosse menos plagiador, eu mudaria a pantomima felliniana, pois é patética a situação: as personagens que saíram, todas contornam o veículo aéreo e, não saindo nenhuma nova personagem, todas entram outra vez naquele objeto voador e, por onde veio, o troço regressa ao espaço, sumindo na brasileiríssima noite escura.

Cidadão que me lê, que finalzinho bem tosquinho, né?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de janeiro de 2025.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Filtro de barro

 

Filtro de barro

 

Uma pessoa parada, sensato seria observá-la.

Pergunto-me o porquê das especulações. Inflo o balão, vejo-o mais inflamável que meus pensamentos. Como execro contaminações por óxido nitroso ou gás sulfídrico, fio que o nó cego lacre o meu bico.

A pessoa parada, ou está irritada com gente que a obriga a esperá-la ou está centrada, a encadear ideias.

É preferível que a calma ajude a ficar parada até que a outra pessoa chegue, apresente suas desculpas ou não se contenha, rindo de você que errou, tendo chegado uma hora antes.

Afoito, você veio uma hora mais cedo porque não perguntou qual o horário. Irritante, não cede que alguém possa comentar a sua conduta. Altivo, menospreza quem pontifica que a serenidade colabora que suas reflexões não exorbitem.

É vero, gente tranquila descomplica-se.

Ela não liga que esteja a observá-la, pois estou com o polegar sob o queixo e o indicador sobre a boca, é evidente minha versão, em carne e dissimulação, da obra O Pensador.

Você que está vindo, talvez você nem imagine que sou o fulano que provoca um risinho interior na pessoa parada, afinal ela entende que o mundo anda assaz complicado, a sugerir-me que eu seja um camarada mais sardônico, que eu compreenda que ela não precisa olhar pra mim para que eu seja percebido.

Você e a pessoa parada talvez comunguem do princípio: não faça o que possa dar pano pra manga, ou o balão inflado, para não explodir, cantará que a vida é boa, que o riso não vai virar choro, que o ar fétido é flato que passa desde que se abram janelas e portas, ou ligue-se o ventilador.

De fato, nem todo nojo faz vomitar.

Para que as ações não a prejudiquem ou façam-na ser vista como gente desequilibrada, ou haja bate-boca que poderia ter sido evitado, o jeito é desligar o ventilador quando houver dentes batendo.

Nem todo desequilibrado tem simpatia por pinguim de geladeira, ou seja, gente biruta conta que o vento que a deixa mais lelé é temido por pilotos, meteorologistas e adestradores de pégasos.

Como não desejo ser cuspido para longe, enviado a manicômio de renome na praça, permaneço imóvel, persevero naquela pose que faria Rodin rodar a baiana, chamando-me de reles imitador.

O que não consigo evitar é saliva acre.

Não lembro direito, se ontem ou hoje cedo, mas eu peguei a caneca e virei uma, virei duas, só que a terceira vez não houve, pois a caneca que peguei do escorregador tinha restos na borda.

Certamente a pessoa parada faria o mesmo que eu fiz: despejei na pia a água que virei uma, virei duas, que virei no filtro usando a caneca que nem deveria estar no escorredor, uma caneca que mal lavei.

Em respeito ao patrimônio emocional que me liga à pessoa parada, peço que continue vindo. Mesmo que tenham ligado às autoridades por causa de mim, que não posso ver uma pessoa parada que viro logo a arremedá-la, sorria quando houver de sorrir.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de janeiro de 2025.

domingo, 19 de janeiro de 2025

Guerra não declarada

 

Guerra não declarada

 

Sentado para escrever, não tem como dominar o fluxo. A mordiscar o lápis, passa de um quarto de hora que seu pensamento são palavras sobre palavras. E a frase de Atanásio Baptista que não o sossega diz: perdedores contam histórias surdas à História.

A sordidez desse jogo é óbvia: desafiá-lo a derrotar-se; pô-lo contra a inércia de seguir nessa balada de ser farol queimado pela madrugada afora; como quem vive embriagado pelo mundo, naufragar.

Madrugada, tenha dó.

Quer a lucidez de sentir-se ao timão, mas redemoinhos o enovelam em pensamento. Sem a finalidade pela qual trabalha, vai afundar longe das bordas; em meio à névoa que esconde o cais, mesmo de estômago vazio, regurgita, arrota, dá voz ao vazio.

No entanto, madrugada, vem aí mais uma alvorada.

Já se anuncia o dia, que a aurora se deleita a espraiá-lo; por sobre montes, vales e parabólicas, o dia dá outra luz à noite.

A que podia ter sido outra ― se menos silenciosa, menos asfixiante ―, tal noite não vingou. Houve excessivo silêncio, e ideias desconexas abalroavam a nau. Sopesando as forças, tendo em síntese que a nave redundará em naufrágio, há motim.

Sem vontade de balançar-se na cadeira, passa pela varanda, vai lá fora um instante, senta-se no meio-fio.

Ele percebe, algo está diferente.

O caminhão passa devagar, os trabalhadores usam tampões, a rua vai sendo lavada, afinal o asfalto limpo de impurezas diminui o atrito, a via pública limpinha excita, que os automóveis circulem mais velozes, que as freadas abruptas ocorram com maior frequência, que o tempo de vida útil dos pneus seja menor, que a indústria fabrique-os mais e mais, que os operários trabalhem mais e mais, que a grana extra seja gasta no comércio, que as lojas abram mais cedo, que os empregados entrem mais cedo, que as pessoas acordem antes que amanheça, que a gente distraída pelos sonhos descuide-se dos próximos passos, que haja atropelamentos, que o caminhão venha lavar o sangue, que a rua fique limpinha enquanto possa, que o poder seja exercido dignamente, que toda gente exerça o direito de optar, ou pela velocidade ao volante ou pelo impacto instantâneo.

Todavia, a hora é outra.

Abanando o rabo, os cães que não latiram de madrugada são eles mesmos a lamber as mãos que lhes coçam a cabeça.

Abanam o rabo, lambem e continuam sem latir.

Vem um bêbado, andarilho, maltrapilho, ensebado, vem dar-lhe um cigarro, já aceso, já tragado, passa-lhe o cigarro já babado; ele o pega, traga e, já menor e mais babado, repassa-o ainda aceso.

O bêbado maltrapilho que usufrui dos atalhos do mundo, dele, ainda que vá indo devagar, não se sabe qual seja a sua voz.

No pique, Atanásio, são os vencedores que compartilham mil vezes esta verdade: todo mundo sabe que motoristas que fumam têm maior chance de ficarem livres da identificação formal de gente atropelada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de janeiro de 2025.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Reclame depois

 

Reclame depois

 

Noutros tempos, o senhor achava divertido sair correndo depois de ter tocado a campainha. Hoje, o menino grisalho posta um meme como quem aperta uma campainha.

Outrora, uma vez que ele não pensava que tomaria bronca por essa brincadeira, era revoltante ficar proibido de ver Bonanza. Atualmente, mesmo que nem consiga terminar de assistir ao jornal das sete, teima em sentar-se para assisti-lo desde o início.

O orgulho está em fazer bem o que teme conseguir fazê-lo somente a contento, terminando, ainda que mereça congratulações, isso não o põe envaidecido, isso o deixa tranquilo, pois a sua tranquilidade é a de quem valoriza a própria modéstia.

Modéstia à parte, foi de guri que aprendeu as artimanhas que julga positivamente eficazes, como se a campainha tocada fosse a da casa cujos donos não sejam de tirar satisfação por molecagens.

Para que a vida siga serena, o jeito é tocar em frente, é postar mais um meme, outro que faça rir sem a pecha de notícia falsa, sem que o rotulem como obra perpetrada por um reaça das antigas.

Ele não é gente que saliva por erros do passado, até porque os pais lhe ensinaram que a punição de ir pra cama sem sono virava o castigo de ser impedido de testemunhar a explosão de Dona Redonda.

A vida educa, e pessoa educada sabe que as alegrias perdidas não movem moinho, elas só remoem pão amassado por teimoso.

Teimosias à parte, o velho que toca campainhas como se estivesse postando verdades irrefutáveis é gente que cobra os joinhas que faltam para passar de um milhão de curtidas.

Bicho, ter um milhão de amigos é o maior barato.

Embora vá às redes para mais uma bola fora, para outro gol contra, é uma sensação maravilhosa dar em primeira mão que o mundo pode ser um lugar bacana para viver, basta que a gente não se envergonhe das coisas que precisam ser compartilhadas, sejam mostradas, ditas e tornadas públicas sem medo de cancelamento, até porque o mundo de hoje não é o mesmo mundo de ontem.

Em vez de pavões misteriosos, pessoas com problemas.

Como a campainha toca quando tocada, a alegria do tagarela é não segurar a matraca.

Então, o idoso sente-se no dever de compartilhar o que pensa, pois isso de arrebanhar para si a autoridade de quem viu a série do começo ao fim, é isso que o faz apresentar-se apto a ligar os pontos sem abrir as pernas ao entretenimento.

Como cabe ao crítico ultrapassar os chavões que enquadrem o que seja campainha ou meme, o menino grande que dorme a hora que quer não se acabrunha diante do seriadinho assistido.

Então, a fotografia que mostra o menino observando a cena não diz que ele não viu a faca fazendo o xis no braço para que a mãe sugasse o sangue, embora a imagem autorize o flagrante.

O jeito é embirrar em querer ir aonde até o sangue lambido pareça indicar que a justiça deseje tanto dar acesso, ou a obra teria outro título que não esse: Disclaimer.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de janeiro de 2025.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Carpas

 

Carpas

 

Arrependido de ter acessado o jornal, ainda mais depois do almoço, ainda com a comida sendo digerida, com todas aquelas notícias dando um violento retrato da realidade, escolho sair.

Claro que esta saída é fuga.

Incomoda-me cochilar vendo tevê, escapulo, porque os problemas daqui, e não apenas desta cachola, não têm aqueles tons apocalípticos que o mundo carece de permanentemente habituar-se a tê-los.

Não me habituo nem me acostumo, necessito de saber que o amigo melhorou da espinha que o acupunturista deu jeito, quero encontrar a amiga contente que a netinha tenha sido batizada antes de completar um aninho, aproveito para pesquisar os preços do modelo de tênis que uso desde que passei a lutar contra os cadarços.

Levo a sério o meu bem-estar, já que não apelo ao cinismo estando calmo; e sobre os meus calos, submeti o meu gosto à necessidade de respeitá-los a cada passo.

De loja em loja: comprarei o modelo cuja fôrma não maltrate meus mindinhos; pelo preço que me permita pagar à vista o par cujo número é o meu, não peregrino, saio lucrando.

Poupo ao gastar pouco e exercito-me.

Não se trata apenas de saber quanto custa, é que, depois de alguns assaltos, aprendi a andar com trocadinhos, assim, quando informado do valor, corro buscar a quantia certa.

Se o assaltante se irrita, prometo trazer o dobro da próxima vez.

Se me acovardo, mesmo que dobre o tempo gasto para ir e voltar, altero o trajeto.

A flexibilidade que adoto não é humilhante, uma vez que me perfilo entre as pessoas que se apouquentam quando, sem avaliar o instante, condescendem ou intransigem.

Muita gente acha que vacilo, mas, sem titubear, pondero.

Décadas atrás, eu trabalhava na área da saúde, era um agente de combate à dengue. Indo de casa em casa, verificando calhas, ralos e geladeiras, entrei numa residência cuja fachada me enganou.

A casa era cercada por mato alto, as paredes precisavam de pintura e a sineta do portão não tinha badalo.

Quem atendeu às palmas foi um idoso que falava mal o português.

O octogenário nascera na Terra do Sol Nascente, viera para Ibiúna havia setenta anos e mudou-se pro Piratuba há meio século.

Na casa, olhei atrás da geladeira e orientei que não sobrasse água em pratinho de vaso.

Pedi para verificar o quintal.

Nos fundos, havia uma piscina de areia.

Dentro do retângulo, com uns dez centímetros de largura, tinha dois caminhos de igual comprimento: um era de pedregulho e um de grama mascarenha.

Se fosse um relógio, a vereda dos pedriscos ia das oito a uma hora e a vereda gramada partia das sete para chegar às duas.

Triangulares, tinha um tanque de carpas entre nove e doze e outro entre seis e três.

O que provocou estranhamento foi o que ele disse, que ambos não eram dois, eram um.

Caso quisesse alimentar as koi, o senhor Shigeo solicitou-me que tirasse a terra das minhocas que eu mesmo coletaria.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de janeiro de 2025.

domingo, 12 de janeiro de 2025

Testemunha ocular

 

Testemunha ocular

 

Durante o café, ele pensa.

Manterei a paciência ainda que veja o caminho óbvio a seduzir-me a trilhá-lo embora suspeite que, começo de ano após começo de ano, cairei na mesmíssima arapuca que a cabecinha apraz montar.

No primeiro dia útil, vou tirar dinheiro da poupança. Não hesitarei e não admitirei cansaço, uma vez que manhã e tarde estarão reservadas ao melhor exercício que funcione como desintoxicação.

Vou comprar dois jogos de lençol e dois jogos de toalhas, comprarei um pacote com quatro escovas de dentes, vou comprar meia dúzia de tubos de creme dental, comprarei as cortinas pros banheiros e pra sala, embora precise me lembrar da boina novinha, uma que a mim repagine descontraído aos olhos das pessoas que acham que não passo de um melancólico enrustido.

Mostrarei que não mais me resguardarei das rugas que o meu rosto teima em carregar, mesmo comigo a negar a ideia que o meu rosto tem esta herança presumida ao escancarar a minha idade.

Quase disse “a idade que tenho”, o que seria um equívoco, porque o mais correto, creio, seja dizer “a idade que me tem”, porque o tempo não é meu, eu é que sou dele.

Digo à inocência que sou inexperiente em matéria de dissimulação. Insisto em pensamento que meus sessenta anos vividos ainda não me ensinaram a controlar as reações.

Culparei o espelho cujas reflexões são concretas? Para cúmulo da lucidez: veja-se, pessoa imóvel, ao mirar-me.

Depois de escovar os dentes, encarando a imagem, ele diz que não comprará nada se estiver estacionado um carro verde na frente da sua casa. Se o carro for rosa choque, um daqueles carrinhos ridículos que só existem no cinema, será do Austin Powers.

Ele não é bocó para adotar cores berrantes, ainda mais que nasceu para caminhar, não pra dirigir um objeto estigmatizado.

Se lhe desse vontade de gastar o dinheiro da poupança, compraria uma máquina elétrica, pois o A da sua Remington fica desalinhado em relação às demais letras, pairando acima da linha.

Ele quer terminar o texto que imaginara, nele a personagem diz que é melhor não dizer nada, que é melhor pensar melhor, mas sem parar na rua, uma vez que a sua sombrinha laranja se destaca em meio às tantas sombrinhas pretas, brancas e cinzentas.

Ele diz a ele próprio no espelho que não é nenhuma maluquice dizer que está bem, mesmo que o reflexo franza a testa, faça bico e meneie a cabeça, estamos bem, mesmo que não estejamos, estamos.

Ao espelho, ele queria dizer: quando houver uma folga, precisamos conversar, você e eu, precisamos de um bom e demorado papo, ou as coisas ficarão complicadas, difíceis de lidar, daremos vexame.

Ele penteia o cabelo, abotoa a camisa e, para conferir que não tem sujeira nos dentes, sorri, até ele faz sorrir ligeiramente.

A despeito disso, belo é assistir a um mini cooper sendo guinchado por estacionamento em local permitido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de janeiro de 2025.