Quinze minutos antes de deitar, liga o
repelente. Depois das muitas tentativas, chegou ao tempo que lhe serve para, no
escuro, contar com o calor da tela do celular. Sempre tem um pernilonguinho que
se recusa a sair do quarto, embora a porta que dá pro quintal tenha permanecido
aberta grande parte do dia, tem um que fica. O teimoso vem resvalar a tela do
telefone, mas ele usa a mão como abano e o gás exalado pela pastilha
espalha-se, então, o indivíduo alado sente o gás que o repele. Sem mais o que
fazer, o referido inseto luta contra seu instinto, mesmo atraído pelo calor da
tela, atraído pelo gás que o camarada exala pelas narinas, o que repele o mosquito
é o gás produzido pelo calor gerado pela eletricidade. O que não deixa de ser
uma diversão; algo perversa, é só brincadeira contra a natureza do bicho.
Algo bem diferente é usar jujuba como
isca?
Tem chovido forte. Tem chovido muito em
poucos minutos. É chuva para lá de metro, caso haja quem meça a altura da
enchente e compare esta última com a altura da enchente anterior, com a altura
da enchente anterior, com a altura anterior, com a anterior, indo até o início,
pra que se conclua: tem chovido forte, muito e em pouco tempo, o que acarreta
estragos, prejuízos e desespero, uma vez que dias tão chuvosos serão o novo
normal, até que o antropoceno encontre o fim.
Como a jujuba pode estar relacionada com
o fim da civilização?
O telhado da casa de Eurípedes não veda
o aguaceiro. Há goteiras nas duas águas; elas são tantas, e tantas elas são, que
baldes e bacias transbordam, inundando sala, quarto e cozinha.
A casa do cidadão fica à beira-rio. Com
a chuvarada, as margens não barram as águas do rio.
Logo, a água na casa e as águas do rio
viram uma.
Peixe não conhece limite ou o sentido do
limite, peixe nada e come.
Eurípedes gosta de peixe, tanto gosta
que não tem preferência: seja assado, grelhado, cozinho, cru; sendo peixe, ele
quer, ele pode; então, as águas ficam misturadas quando chove; e como tem peixe
no quarto da sua casa, adora chuva.
Ele sonhou e duvidou, mas fez a
armadilha.
Deitado, vê os peixes que passam nadando.
Tem um retângulo no piso, é uma piscina. E os peixes que entram nadando são
atraídos por jujuba, são esses que ficam presos. Assim que a chuva passa, ele
tira a água do piso e, vendo os peixes no buraco feito no chão, sorri.
O que Eurípedes não sabia, mas ficou
sabendo, é que muriçoca dá uma massa irresistível; e, segundo falaram, há uma quantidade
muito maior de peixe que é tarado por massa de muriçoca.
O próximo projeto está claro: informar-se
sobre as muriçocas; o que as atraem; os alimentos preferidos; o tempo de vida; quais
as melhores condições pra conservá-las vivas; sobre, incontestavelmente, o
fabrico dessa isca infalível.
Regozija-se: não será apenas o rei da
tilápia, uma vez que, dali em diante, será Jujuba Muriçoca.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de janeiro de 2025.