Papai
Noel não desce chaminé
Com o atrevimento de quem está seguro do
que pensa, digo que a crônica Esse seu olhar de Otto Lara Resende deu um
clique na minha cachola: com gente querendo incendiar, o bombeiro certo é
aquele que usa das chamas para preparar o terreno, para exterminar pragas, para
não tornar terra arrasada o nosso chão tupiniquim.
É óbvio, não sei o quanto do sangue
tupiniquim trago correndo pelo meu corpo, o texto do Otto, porém, levou os meus
olhos para o fascínio do Center Três pegando fogo, pois sim, da janela do
apartamento que ficava na Peixoto Gomide eu testemunhei, bebendo meu vinho
branco de cada noite, observei, euforicamente fascinado.
Como não vim falar do vivido, passo ao
Seu Rodrigues.
Ainda há pouco, ele precisa de mais. Vai
à despensa, não tem mais. Terá de sair. Chega à loja mais próxima da sua casa,
mas está em falta a caixa do tamanho que precisa.
Nesta última semana de novembro, precisa
postar os livros pra que eles cheguem antes do Natal.
Para não tornar a bater perna à toa,
busca na internet onde poderá comprar. Telefona, diz o número, repete-o, falam
que, em estoque, têm dezenas de caixas do número que precisa.
Vai lá e compra. Parando para papinhos
rápidos com uma pessoa e outra, acelera para casa, pois será brinquedo montar
as caixas.
Vai ao correio e posta os pacotes.
Aliviado, ele pode sentar-se no sofá pra
mandar os zaps informando do envio dos livros. Ele manda um joinha depois de
lida e respondida cada uma das mensagens enviadas.
Vida que segue a quem faz a sua parte;
bem ou mal, faz aquilo que tem planejado que fará.
Sem powerpoint mixuruca, o sujeito vê
tevê.
Em pauta, as 884 páginas do relatório da
PF. São seis os núcleos: o núcleo de inteligência paralela; o núcleo de
desinformação e ataques ao sistema eleitoral; o núcleo operacional de apoio às
ações golpistas; o núcleo responsável por incitar militares a aderirem ao
golpe; o núcleo de oficiais de alta patente; o núcleo jurídico.
Pela fome que sente, Seu Rodrigues quer
assar pizza.
Tamborilando os dedos nos tijolinhos à
vista da chaminé, ele se dá conta de que as Festas já estão próximas.
Sem mais, lembra-se de certa cartinha pro
Papai Noel. Em vez de um presente, ele queria patins, patinete, bicicleta, snorkel,
pé de pato, ambulância a fricção, caminhão de bombeiro, a roupa do Zorro, o
Lobo do Vigilante Rodoviário, sim, um pastor alemão de verdade.
Nesse ano, sensível como bom
capitalista, Papai Noel trouxe o que teria de ser agradável à família toda:
embora a mesinha de sinuca nem figurasse em lista alguma, virou febre até a
virada ― Viva 1970!
Hoje em dia, as crianças que sabem que
Papai Noel não existe dão pulos de alegria quando adultos que sabem que Papai
Noel não existe assam uma pizza depois de outra, assim o Papai Noel que não
existe não tem como descer pela chaminé, embora ratos subam e desçam.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de novembro de 2024.