Acerto
de contas
Eventualmente tomo como ofensivo o comportamento
de gente que caga regras sobre eleições limpas, paródias dionisíacas e um
dedinho da prosa mais encaixadinha para os dias correntes.
Hum. Correntes de ouro, prata ou bronze?
Sou de carne e não de ouro. E a minha
carne tem prioridade quando a vagabundagem quer imperar, bato-me por aí, porque
a rua me viciou há tempos.
Assumidamente dependente dos eventos
fortuitos que encontram em mim cama e café, curto à beça a informalidade com
que as gentes tratam de situações que se revelam engraçadas.
Nunca fui menino de ouro nem argentino,
pude o prazer de deslizar na lama quando as tardes de chuva eram de fuzarcas.
Como envelheci, eu mesmo lavo as roupas
enlameadas. O que não me impede de caminhar ainda que chova, ainda que passe
por rua de terra, e muito embora, errado o passo, eu caia de cabeça na lama.
Dois ou três palavrões cortam o drama.
Acho um porre a ladainha dessa gente que
passa o dia acusando o desleixo da prefeitura, que há muito deveria ter
asfaltado todas as ruas pelas quais ela passa.
Vou ao léu. Sem outra intenção que a do
meu corpo a pedir a dose diária de contato humano. Que as pessoas, afinal, são
boas loroteiras quando falam de si, dos vizinhos e dos primos distantes que
votam em quem a gente quer ver pelas costas, tão detestável.
Como sói acontecer...
Depois da caminhada debaixo da chuva
fria, já as olheiras enfeiam, a barriga entulha, por estar febril, com dor de
cabeça e dor nas juntas, a palavra que acredito seja a que melhor defina o meu
atual sentimento é: felicidade.
Saiba você que estou feliz porque meu amanhã
será outro.
Dispensado da caminhada de uma hora, ficarei
no sofá. Sem ter a consciência pesada por ver o Doutor House, beberei café frio.
Tossindo dia e noite, tendo alcançado esse futuro transfigurado, irei ao médico.
Eu não temerei a verdade. Confessar-lhe-ei
a minha decepção com a natureza, a punir-me sem ter motivo, a cobrar de mim que
sofra sem por quê.
Porque não estarei com frescurite, manterei
a seriedade da cabeça baixa enquanto tomar um cata daqueles, não resmungarei ao
prever o quanto custarão os exames que bienalmente me disponho a fazê-los e
agradecê-lo-ei pelo lembrete que tenho trinta dias ou a minha próxima vinda
será uma nova consulta.
De vez em quando, percebo que a
felicidade muito se assemelha a desses alunos que gostam de mostrar aos pais os
exercícios corrigidos sem tinta vermelha; o que, todavia, mais veneram em seus
cadernos é a tinta verde dos acertos.
Já que vadiagem é práxis, o vagal cede,
por sua conta e risco, que a hora passe, a febre baixe, a tosse cesse, o mundo
também se mexa, a alvorada venha rósea.
No duro, o certo é enfrentar as
muriçocas das picadas já lavradas, pois há de haver quem classifique o Jerome
Brouillet de blasfemo pelo clique do Gabriel Medina levitando em Teahupo’o.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de julho de 2024.