As pessoas que compravam carne tinham
opiniões sobre o jogo de estreia da seleção, à noite. Embora o painel das
senhas indicasse que eu seria o quinto a ser atendido, topei acompanhar o papo.
Um freguês estava preocupado com o
esquema tático. Para blindar a zaga e municiar o ataque, o meio de campo vai precisar
ser armado com três jogadores.
Outro freguês concordou, pois, para ele,
um meio-campo forte pode ganhar a maioria das jogadas. Para derrotar nossos adversários,
isso seria um passo largo.
A senhora da picanha também pediu
costela. Ela queria uma peça sem muita gordura. Ela concordou com o açougueiro
quando ele falou que a seleção teria dificuldades imensas para ganhar a Copa.
Enquanto a balança registrava o peso da
costela, o açougueiro não disse que os defensores das cinco estrelas da amarelinha
voltarão da América com o pentacampeonato reluzindo. Quem disse fui eu.
A açougueira disse que não conhecia a
maioria dos jogadores. Por isso, ela não tinha dúvida de que o técnico acertou
ao chamar o craque mais experiente do time.
O açougueiro discordou, pois o tal
craque foi convocado sem ter as condições necessárias para aguentar um torneio
rápido, difícil, em que cinco ou seis seleções chegaram como favoritas.
Eu disse que isso podia ser usado pelo
técnico a nosso favor, pois a carga de sermos os eternos melhores do mundo sempre
complica.
O açougueiro e uma freguesa concordaram
comigo. Já que a nossa cabeça esquenta quando somos pressionados pela nossa
torcida, que nunca haverá de ficar contente se não levantarmos a taça.
Um freguês que chegou quando a conversa estava
nesse ponto foi logo dizendo que pressão sempre houve ou nem seríamos penta.
A senhora que pediu a picanha não gostou
muito das críticas sobre a convocação do celebradíssimo jogador, cuja camisa
dez dificilmente entrará em campo na primeira fase do Mundial.
O açougueiro que a atendia comentou que ele
não deveria ter sido convocado, já que o técnico disse diversas vezes que só
levaria atleta com condições para suportar uma partida de noventa minutos.
Sem que ninguém ali sequer sorrisse, eu palpitei:
— Veremos o garotão em campo apenas na finalíssima.
A senhora que aprovou a picanha e a
costela escolhidas pelo rapaz bom de faca também concordou com ele que os três
quilos e duzentos e quarenta e nove gramas de contrafilé atendiam ao seu pedido
de três quilos do seu corte declaradamente preferido.
Eu disse que o jogador mundialmente
conhecido levou sete relógios só para os americanos babarem. O queixo caído viria
pelos milhões do conjunto, não pela sua espetacular encarnação de Kali.
Sem que eu dissesse algo sobre o quilo,
e pouco, de patinho moído que me foi entregue, o açougueiro riu gostoso.
A senhora do contrafilé não achou
engraçado brincar com a religião dos povos originários. Ainda que não constem
na Bíblia, ela disse que as colombianas e os colombianos de Cali têm mesmo direito
a venerar aqueles seus deuses.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 14 de junho de 2026.
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