domingo, 14 de junho de 2026

Fora de jogo

 

Fora de jogo

 

As pessoas que compravam carne tinham opiniões sobre o jogo de estreia da seleção, à noite. Embora o painel das senhas indicasse que eu seria o quinto a ser atendido, topei acompanhar o papo.

Um freguês estava preocupado com o esquema tático. Para blindar a zaga e municiar o ataque, o meio de campo vai precisar ser armado com três jogadores.

Outro freguês concordou, pois, para ele, um meio-campo forte pode ganhar a maioria das jogadas. Para derrotar nossos adversários, isso seria um passo largo.

A senhora da picanha também pediu costela. Ela queria uma peça sem muita gordura. Ela concordou com o açougueiro quando ele falou que a seleção teria dificuldades imensas para ganhar a Copa.

Enquanto a balança registrava o peso da costela, o açougueiro não disse que os defensores das cinco estrelas da amarelinha voltarão da América com o pentacampeonato reluzindo. Quem disse fui eu.

A açougueira disse que não conhecia a maioria dos jogadores. Por isso, ela não tinha dúvida de que o técnico acertou ao chamar o craque mais experiente do time.

O açougueiro discordou, pois o tal craque foi convocado sem ter as condições necessárias para aguentar um torneio rápido, difícil, em que cinco ou seis seleções chegaram como favoritas.

Eu disse que isso podia ser usado pelo técnico a nosso favor, pois a carga de sermos os eternos melhores do mundo sempre complica.

O açougueiro e uma freguesa concordaram comigo. Já que a nossa cabeça esquenta quando somos pressionados pela nossa torcida, que nunca haverá de ficar contente se não levantarmos a taça.

Um freguês que chegou quando a conversa estava nesse ponto foi logo dizendo que pressão sempre houve ou nem seríamos penta.

A senhora que pediu a picanha não gostou muito das críticas sobre a convocação do celebradíssimo jogador, cuja camisa dez dificilmente entrará em campo na primeira fase do Mundial.

O açougueiro que a atendia comentou que ele não deveria ter sido convocado, já que o técnico disse diversas vezes que só levaria atleta com condições para suportar uma partida de noventa minutos.

Sem que ninguém ali sequer sorrisse, eu palpitei:

— Veremos o garotão em campo apenas na finalíssima.

A senhora que aprovou a picanha e a costela escolhidas pelo rapaz bom de faca também concordou com ele que os três quilos e duzentos e quarenta e nove gramas de contrafilé atendiam ao seu pedido de três quilos do seu corte declaradamente preferido.

Eu disse que o jogador mundialmente conhecido levou sete relógios só para os americanos babarem. O queixo caído viria pelos milhões do conjunto, não pela sua espetacular encarnação de Kali.

Sem que eu dissesse algo sobre o quilo, e pouco, de patinho moído que me foi entregue, o açougueiro riu gostoso.

A senhora do contrafilé não achou engraçado brincar com a religião dos povos originários. Ainda que não constem na Bíblia, ela disse que as colombianas e os colombianos de Cali têm mesmo direito a venerar aqueles seus deuses.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de junho de 2026.


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