sexta-feira, 1 de maio de 2026

Cem anos de solidão

 

Cem anos de solidão

 

Bom dia! Chegou e-mail.

Ter endereço eletrônico reconhecível não o isenta de arapucas. A entrada de correio virtual é que nem coração inocente que não trava como porta de banco: farsantes têm acesso irrestrito.

A prudência adverte para precaver-se, uma vez que a identificação da pessoa como remetente talvez não seja algo criterioso.

Quem mandou o e-mail é a pessoa dada como remetente?

Se for mesmo ela, é provável que as notícias sejam o de sempre: alguém da família morreu ou falta grana pra pagar aquelas dívidas que nunca são quitadas.

Faz anos que não se falam.

Seria presunçoso identificar traços na escrita que permitam alguma segurança. Não dá para afirmar quem tenha enviado o e-mail, porque escrever e despachar são atos diferentes.

Apesar das muitas chateações com bugigangas oferecidas sem ter necessidade e dos tantos prejuízos por aceitar que ofertas imperdíveis são mesmo sedutoras, a ingenuidade diz para confiar outra vez que a leitura da mensagem não provocará nenhum revés.

Por conhecer a pessoa há mais de cinquenta anos, a tolice faz crer que não verá o vídeo de um gatinho peralta. Ela estará doente ou avisa que virá visitar-me?

Abrir o e-mail... Apagá-lo...

Como há muitos modos de lidar com o mundo, a curiosidade prefere que o e-mail seja lido. Até porque hoje é feriado!

Eis a mensagem:

Estive doente.

Tive a sensação de que estava muito mal, tanto que desconfiava de que escondiam de mim o quanto eu realmente estava doente.

Fiz exames, tantos exames. Foram desagradáveis, doloridos, e até bem invasivos. Alguns foram feitos mais de uma vez.

Precisei ir de médico em médico. Como se houvesse um mistério no meu corpo, tenho sobrevivido às decepções.

Na condição de paciente, percebi que não era somente o corpo que sofria, a minha mente acompanhava ou agravava o que ele precisava que fosse visto. Certamente ambos — corpo e alma —, em interação indivisível.

Estar doente traz uma urgência que beira o insuportável.

A falta de diagnóstico acelera o processo. Não ter um nome preciso provoca dores, tonturas. Vomita-se tanto. O receio de que a comida vai causar mais sofrimento abala a ponto de ter-se medo de dormir.

E o que me exigem?

É meu dever comer, dormir, medicar-me e, sobretudo, controlar-me. Manter-me controlado! E pensar no corpo e na mente como agentes. Controlar a respiração para que meu corpo doente e a minha alma não trabalhem contra mim. Que eu produza a harmonia que me ajudará na cura do que nem sei o que é.

Que curandeiros são esses!

Pra que o caminho da doença pra saúde seja curto, é preciso querer a cura. Curar-me de dentro pra fora, com a mente agindo pela cura, e de fora pra dentro, com pílulas e sopinha. Tornar-se ativo no processo, acreditando na cura que a palavra positiva gera positividade. Acreditar na transição do negativo para o positivo, do péssimo para o excelente, do abominável para o adorável.

Aprendi: crer é curar-se. Senti que aprendi: vou curar-me pela fé.

Fé em quê, afinal?

Quando a gente sente que o mundo não se compadece das nossas angústias, é neste instante... Foi então que o universo me tocou. E me enviaram esta história que vai comover você também.

“Um homem tinha noventa e nove anos quando um dos seus filhos morreu num acidente de carro.

Ele ficou muito triste. A sua tristeza era tanta que os filhos temeram que o pai fosse morrer.

Os filhos trouxeram papel de seda e linha, cola e tesoura. O pai não quis fazer bandeirolas. Mas os filhos cortavam de qualquer jeito e suas linhas eram de uma só cor.

O pai traçou retas num modelo, cortou as bandeirinhas, colou-as de modo aleatório e cruzou as fileiras pelo quintal.

Vendo o céu colorido, o homem compreendeu que o amor pelo filho morto e por seus filhos vivos não tinha nada que ver com bandeirinhas baloiçando à brisa.

Ele nunca mais fez bandeirinhas.”

Espero que esta história tenha sido cativante como ela foi para mim. Espero que você compartilhe esta história. Envie-a a cem pessoas que considera importantes na sua vida. Mil vezes você será lembrada como a pessoa importante na vida de tanta gente.

Confio em você para que a corrente seja mantida.

Deus saberá que você trabalha para o bem, pois os dedos da mão e o oxigênio na mente são armas do bem.

Enviarem uma corrente dessas depois de barrarem o Messias?

Deleto-a sem dó, correntinha do caramba.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de maio de 2026.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A sabatinagem

 

A sabatinagem

 

O sabatinista de gravata amarela:

— O cidadão afirma que acordou às 4:00.

O cidadão:

— Às quatro horas eu fui acordado, senhor.

O sabatinista de gravata verde:

— O cidadão confirma que perdeu o ônibus das 6h45.

O cidadão:

— Às seis e quarenta e cinco o ônibus já tinha passado.

O sabatinista de gravata-borboleta:

— O cidadão confirma que o horário de entrada é 8:00.

O cidadão:

— O alarme disparou às quatro horas.

O sabatinista de gravata cinza:

— O cidadão garante que o telefone tocou 2:45 antes da hora.

O cidadão:

— Não programei o alarme para disparar quando ele quis.

O sabatinista de gravata azul:

— O cidadão assegura que o telefone é culpado pelo atraso.

O cidadão:

— Fiquei com medo de perder a hora.

O sabatinista de gravata marrom:

— O cidadão assevera que o telefone é mesmo culpado pelo atraso.

O cidadão:

— Para compensar o atraso, pedi para sair mais tarde.

O sabatinista da gravata vermelha:

— O cidadão exigiu o direito da compensação pelo atraso.

O cidadão:

— Me ofereci para trabalhar no sábado.

O sabatinista de gravata amarela:

— Ao começar com pronome oblíquo o cidadão ofende-nos.

O cidadão:

— Me ofereci mesmo, senhor.

O sabatinista de gravata verde:

— O cidadão insiste em ignorar o regimento da Língua.

O cidadão:

— Aperfeiçoo o regramento da colocação pronominal.

O sabatinista de gravata borboleta:

— O cidadão avacalha o patrimônio de Camões.

O cidadão:

— Camões deu o verso: “me fez que seus efeitos escrevesse”.

O sabatinista de gravata cinza:

— O cidadão não ignora o enjambement com pronome exposto?

O cidadão:

— Para que haja conexão com o dito anterior: acordei às quatro!

O sabatinista da gravata vermelha:

— Quebro o maldito telefone com o martelo que é meu!

O cidadão:

— Data vênia, sei da próclise por encadeamento, eis que lhes dou a quadra camoniana: “Enquanto quis Fortuna que tivesse / esperança de algum contentamento, / o gosto de um suave pensamento / me fez que seus efeitos escrevesse.”

Ao entregar outro telefone ao cidadão, Sua Excelência:

— Como notável expressão da intransigente amizade desta Casa, declaro encerrada a presente sessão solene deste justíssimo processo de admissão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de abril de 2026.


domingo, 26 de abril de 2026

O demônio do lampião

 

O demônio do lampião

 

Vim com a alma que estava no corpo. Para evitar que imbecil viesse me falar o que nem ele quer ouvir, vesti uma camiseta branca. Com a Mafalda dizendo: “O problema da grande família humana é que todos querem ser o pai”.

Ou o sujeito é analfabeto ou é um filho problemático. Ele se iluminou com aqueles olhinhos me sorrindo:

— Mamãe, me permita uma palavrinha...

Se um cão se revelaria, foi um chihuahua que abanou o rabinho.

E o balanço do rabicho acertou a cadência, falando a mim. Logo a mim que não tinha para onde correr, já que estava na fila e na fila teria de permanecer, por compromisso cívico.

Não ria de mim pelo que eu vou lhe contar.

Foi da boca da própria pessoa que eu ouvi que ela era a mulher que ouviu que o mundo podia ser um lugar gostoso para se viver.

Ela disse que um andarilho tinha uma história que a faria rir. Daí ele disse que a gente pode ser feliz sem acabrunhamentos. Desde que se faça o possível para não ficar exposto, o tempo todo, à alegria nem às chacotas.

Sim, foi-lhe dito que a alegria é uma arma poderosa — deixa a gente se sentindo leve quando a alegria do outro não machuca.

Não vou lhe ferir o ouvido caso queira ir em frente, só que o esforço pra rir será recompensado. E essa promessa que fizeram a mim, eu a repasso a você.

Por gentileza, confie em mim — disse o mendigo à mulher —, agora pense na pessoa que dorme de janela aberta. Ela não dá motivos para fazerem vídeos. Nem quando são comprobatórios de que a felicidade sem fim retrata alguém cujo comportamento é esquizoide.

Upa-lelê!

Só que o maluco não sou eu.

Eu sei que, usada sem moderação, a alegria que fere vira pedrada. Essa pedra lhe acertará a testa quando estiver tirando uma pestana ou assustará quando o espelho for feito em cacos.

Quando a alegria vira um problema, é preciso encontrar a piada que faça rir sem necessidade de explicações.

Foi aí que a mulher parou de sorrir. Olhou-me nos olhos e falou que o andarilho que vendia mel disse o que tinha pra contar.

Ele ainda disse que o causo era pra parecer verdadeiro. Tinha que passar uma verdade que tivesse a força de um pito. Quando precisam tomar bronca, adultos têm que ser sacudidos.

E a mulher disse que o cara chapado de mel contou direitinho...

Só que ele não disse em que cidade aconteceu. Se foi no meio do mato ou na beira da piscina. O sentido muda quando se tem um casal comendo pizza ou há uma família indo pro litoral.

Ô historinha cheia de furos! — eis você, ressabiado comigo e com a crônica. Sem chalaça, ambos lhe damos razão. Sigamos.

A mulher tinha que pular para os finalmentes. Daí que sorri, já com vontade de ir cuidar da vida. E você me interpela:

— O que a historieta dizia?

Era isso: um andarilho achou um lampião. Aberto o registro, em vez de gás pra manga, a luz não se fez. E no ar, cresceu uma sombra. E a fumaça tinha um cheiro doce, de chocolate. O fantasma flutuava. Como não roubou nem comprou, já que o caminho o fez ser o novo dono, ele não duvidou: tinha três desejos pra fazer à aparição.

Como tinha a sensação de que era senhor de um demônio do bem, o homem matutava. E o seu primeiro pedido fora aceito: ele perdeu o medo de falar em público.

Temendo virar uma besta ridícula que nem sabe como controlar a matraca, o segundo pedido veio socorrê-lo: ele não terá dificuldade de posar de gente segura que domina o brilho da lucidez.

Desaparecido o pânico pela verborragia, ele nem precisou formular o pedido derradeiro: na sua gargalhada, reluziam todos os dentes.

Agora, chegamos. Sem lhe cobrar um sorriso, digo que a tal mulher me falou que abriu os olhos e, dando com a ponta do dedo no relógio, ela viu que segurou a fila só por cinco segundos.

Eis a belezura desta história: saindo da cabine indevassável com a leveza de um sorrisão, apenas os mesários que apostaram em todas as possibilidades acertariam em quem foi que ela votou.

Sem chacota! Não cabe a mim dizer se o eleito do seu coração foi o mendigo, o homem do mel ou o demônio do andarilho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de abril de 2026.


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Melhor um textão que bancar idiota

 

Melhor um textão que bancar idiota

 

Uma pessoa que nem eu sabe que é preciso de coragem para dizer que estão escondendo a verdade pra gente. Mas eu vim falar!

Pois é vendo que se aprende a amarrar o cadarço dos sapatos. É vendo que se aprende a escovar os dentes. Também é vendo que se aprende a dormir sentado. Já cochilar em pé, isso se aprende sozinho.

Copiar quem sabe não tem nada de admirável. Ganha-se tempo. E, sem notar que a vida é insatisfatória, vai-se vivendo.

Juízo, porque o ônibus acaba de virar a esquina, não invente de sair correndo com tênis desamarrado. Para não ser chamado de bobo, não veja problema onde não existe: em tênis sem cadarço, basta enfiar os pés. E busão atrasado também pega gente atrasada.

Você chegou aqui. Então, já percebeu que posso ter argumentos e sei organizá-los para dizer dos meus sentimentos.

Como eu compartilho apenas o que acho importante, não entendo por que tem gente que reclama que posto textão. Se tenho tanta coisa para dizer, direi tudo sem abrir mão de usar as palavras necessárias.

Ontem, estive numa farmácia. Precisava de B12. Mas tem que ser a versão “metilcobalamina”. A médica disse que não era para comprar a versão “cobalamina”, pois o metabolismo é diferente. Acreditei.

Então, lá na minha vez de ser atendido, continuei atento.

O homem que olhava o celular fez que ignorou a grávida que trazia na mão um pacote de fraldas. Era direito dele de ocupar-se com a sua leitura.

Eu sei que a cestinha cheia de vitaminas e whey de baunilha não ficaria mais leve, só não precisava sorrir daquele jeito, porque o sorriso que ele fez sinalizou: nesta fila, ninguém terá a preferência.

É claro que gentileza não implica em fazer-se de palhaço, porque a decisão de comportar-se assim ou assado não é dever, é direito.

Nestas horas, converso comigo mesmo. E eu digo pro gato que me olha achando que vou dar petisco: prudência, sem mais ninguém para servir de exemplo, tomo a iniciativa de agir como sempre: quero sentir alegrias. Sabe aquelas alegrias que põem a gente no lugar da grávida que segura um pacote de fraldas? Preciso dessa alegria.

Dá para fazer do mundo um lugar mais luminoso mesmo sem ficar dizendo amém a todo instante, mas não tem janela aberta que impeça a chuva de molhar o chão do quarto.

Se está molhado, enxugue-se o chão. Depois do tombaço, repare: tem luz acesa com sol brilhando... Se lâmpada é desperdício, apague-se. Se o banho vai durar dez minutos, não pense na represa por dez minutos, banhe-se!

Porém, olhe o alerta! Não seja enganado: você paga a conta da luz que o governo cobra caro!

E a gente tem que compartilhar as nossas boas ações, assim quem é da turma de quem não cumprimenta quem chega sem cumprimentar vai ficar encabulada. Daí a gente olha o celular. Entendeu?

Agora, se a pessoa começa a falar o que pensa mesmo sem pedir licença, é preciso pegar o telefone. Se for o caso de falar mais alto, que se fale! Se é pra gritar, a gente grita até a babaca falar baixo.

Só não tem graça acreditar que a pessoa que não enruga a testa é paciente. Quando ela não responde a ofensas, mais do que palerma, ela é complacente. Deve achar que o seu coração pulsa por amor.

Quem ama sente o quanto a instabilidade que o amor provoca. Só que manter no tornozelo uma correntinha de prata não equivale a exibir coleira de ouro no pescoço.

Daí eu olho a minha cara no espelho. Estou de testa franzida, sim. E tenho que falar o que penso, mesmo que só eu esteja ouvindo.

Daí eu penso: sensatez, quando a franja no olho incomoda, ela seja aparada. Se as entradas vão ficando indisfarçáveis, raspe-se a cabeça. Esta pessoa que usa barbeador elétrico não está dispensada de saber como não se cortar com uma lâmina de barbear. Raspo-me.

Já de cabeça raspada, sentei a bunda diante da tevê.

Estavam dizendo que três ou mais pessoas que se juntarem para praticar um crime formarão uma quadrilha. Disseram qual o número do artigo e tal, só que não gravei. Estava pensando. Corri descobrir onde a internet costuma esconder esse tipo de informação. Porque civismo tem que ser prático, achei e copiei: Artigo 288.

Se vim aqui e postei o que estava pensando, cometi crime?

Não sei se excesso de vitamina faz mal e não disse para magoar a moça. A grávida é que devia ter exigido para passar na frente. Daí não deixaria ela passar, pois é meu direito garantir o meu lugar!

A minha cabeça começou a arder. Fui ver o que era. A gilete cortou bem no cocuruto. Joguei fora a maldita!

Há quem cuspa na mão pra que a saliva ajude a limpar o corte, mas isso não serve se estiver chupando bala. Eu chupava bala de morango. Então, pra não acabar com a careca melada, dispensei a saliva.

Como a água estava gelada, os pelos da nuca arrepiaram. Bravo comigo por ter me cortado, resolvi terminar esta postagem com a frieza do meu intelecto afiando a frase para soar cirúrgica a mensagem que você vai ter que pensar para não perder o significado oculto:

Só babaca entra em banheira cheia de leite longa vida.

Entendeu, né? Está bem na nossa cara: eles não param de falar só pra gente não acreditar no que eles não estão dizendo.

Que bom que não precisei desenhar que somos do bem!

Agora: trate de copiar e compartilhar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de abril de 2026.

terça-feira, 21 de abril de 2026

O time dos sonhos

 

O time dos sonhos

 

Sábado passado houve temporal. Nuvens escuras fizeram o cerco. Raios sobre raios retumbavam: as portas do inferno serão o aguaceiro tremendo. Choveu granizo, e isso durou uns dez minutos.

O sol voltou. O cheiro da chuva desapareceu. As pessoas voltaram às ruas. As maritacas eram o sinal de que o fim do mundo ficou para a próxima.

O problema é que, de vez em quando, pedras e telhas têm um papo simplório: pro chão coberto de gelo virar vídeos nas mãos de quem se extasia com eventos naturais, é preciso que, deitado na cama, a noite seja vista como um monstro de milhões de olhinhos a tremeluzir.

— Lindo, mas dispendioso — asseverou-se o prejudicado.

A carteira foi aberta. O dinheiro dava para duas cervejas. Convinha que fosse bebê-las onde houvesse gente bem-relacionada. Precisava de indicação de quem é bom como reparador de telhado.

— Albertino. Porque ele vai pedindo o material já prevendo o quanto ainda vai precisar pro serviço ficar pronto.

— Claro. O Albertino é econômico.

— E o telhado vai ficar tinindo em quinze dias.

— No máximo!

— Então, sabendo que o gasto vai ser menor, você não precisa ficar encabulado de querer nos pagar outra cerveja.

— A gente vai beber com você, porque agora todo mundo sabe que não há malícia alguma da sua parte.

O camarada pagou. E foi bebendo tanto que a sua carteira tomou a iniciativa de ser pragmática: o cofre do banco se sujeitou a arreganhar-se com o “abre-te, sésamo” dito em língua de pau d’água.

Por volta das sete e meia do dia seguinte, bateram palmas.

— Meu amigo, vim fazer a medição do telhado.

A confirmar que era mesmo o homem certo para fazer o trabalho, o Albertino nem fez mesuras com o boné.

Ele subiu. Olhou as telhas esburacadas.

— Você reparou que nem tirei a trena do bolso?

O camarada nem respondeu.

— Você está com um problemão. Tem cupim na estrutura. As vigas vão ter de ser trocadas. Os caibros também. As ripas já deviam de ter sido queimadas.

Albertino coçou a cabeça. O boné fez o bailado que, sem papas na língua, o coração traduziu como inevitável o “abre-te, sésamo”.

— Preciso que você faça o serviço, Albertino.

E os sete dias viraram quinze. E a quinzena tornou-se um mês. E a turma do bar assegurava que o Albertino não desperdiçava material e sempre fazia o melhor.

— Não tem obra do Albertino que mereça reclamação.

— Se o Albertino fosse problemático, ele estaria aqui, bebendo com a gente. Mas não! Ele sabe das suas prioridades.

Foi aí que aquela foto foi mostrada: em pé, atrás das três crianças agachadas, Albertino abraçava uma mulher.

— Meu amigo, não pense que eu falar com sinceridade é papo de bêbado. O Albertino é o marido que minha irmã nem podia sonhar que o céu colocaria no caminho dela. E eu, meu bom amigo, nunca tive de ficar chateado com a Doralice, porque ela nunca mais teve de me negar uma cervejinha.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de abril de 2026.

domingo, 19 de abril de 2026

Bala certeira

 

Bala certeira

 

Pediram a minha opinião sobre o que a Maricota teria feito. Falaram que ela teria sido vista conversando com um pastor. Criticavam-na pelo despudorado flerte com o Esdras, sobrinho do pastor Samuel. Juravam que, à vista do povo, na fila de pesar banana e batata, a cinquentona estava aos muxoxos com um rapazote de trinta anos.

Não faço questão de saber o que a tia Maricota faz com a banana que ela compra, com quem ela toma sopa de batata, não ligo que me contem, bem como pouco me importo com quem vem me contar que a minha tia não comprou nem banana nem batata.

Não pergunto o que a minha tia Maricota comprou, teria comprado ou desejaria que lhe vendessem sem assuntarem por quais razões ela nutria desejos pelo que paga em dinheiro quando adquire o que tantos queriam também.

Meus dedos pensaram por mim...

Papai me ensinou que trapos são úteis quando formam uma colcha, e jogá-los fora seria burrice. Tem também que a beleza pode vir de uns pedacinhos de pano já surrados, já naquele estado bom para cobrir um cão quando faz frio.

Mamãe, por sua vez, me educou para a discrição. É vulgar espalhar que a colcha não estaria em cima da cama sem as minhas mãos. Ter vídeo com o Bidu dormindo aquecido é só pra receber joinhas.

E eu também não deveria ter dito que a Maricota nunca postou fotos de torta de banana.

Dizem que certos joinhas têm importância. Asseguram que somos responsáveis pela pouca repercussão do que deixamos de aprovar. A sociedade precisa saber o que aprovamos. A curtida é necessária para que mais gente saiba que não nos envergonha clicar positivamente.

Houve gente que fez graça.

Sugeriu-se que eu não fui convidado para a torta de banana na casa da minha tia. Jurou-se que nem era eu o fotógrafo.

Se a pessoa não aparece em foto alguma, a lógica tem que apontar o óbvio. Sem constrangimento: gente que entra em foto sem revelar a sua presença só pode ser vampiro.

Em minha defesa, comentei numa postagem:

— Vampiro não tira foto porque duvidariam que o seu belo rostinho sequer foi manipulado por quaisquer aplicativos.

Uma vez que ficou descartada a conjectura de que eu nem saiba como usar muitos dos recursos disponíveis no meu celular, alguém não deixou passar:

Quando o vampiro não morre com estaca cravada no coração, uma bala de prata dá jeito no monstro.

Maricota postou:

Eclesiástico 7, 19: Humilha profundamente o teu espírito: porque a vingança da carne do ímpio, será o fogo e o bicho.

Veio o corretivo: Nem para citar a Bíblia direito! Todo mundo sabe que o versículo exato é: Humilhe-se profundamente, porque o castigo do injusto é fogo e vermes.

Veio o corretivo do corretivo: Se é pra corrigir, a verdade tem que corrigir. E a versão certa é: Humilha profundamente o teu espírito, pois o fogo e o verme são o castigo da carne do ímpio.

Como comentário a cada mensagem, tia Maricota colocou a foto de uma fatia da sua torta de banana.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de abril de 2026.


quinta-feira, 16 de abril de 2026

A frase do dia

 

A frase do dia

 

Até a pestana da tarde, o dia não trouxe novidade alguma. Quando acordei para um sanduba de salame, a TV ainda estava ligada.

Falavam da prisão de um motorista.

Supostamente, ele trafegava sem cinto de segurança. E pelo código de trânsito do lugar, o cidadão deveria estar protegido de impactos.

Passei a mastigar com gosto.

Ao que parece, o detido usava cinto. Foi a lâmpada da frente que o delatou: o fato de um veículo dobrar à direita sem a devida sinalização consta das violações do código vigente naquelas plagas.

Levantou-se a primeira questão:

— Uma vez determinada a detenção, por que o guarda não aplicou tão somente a multa?

A minha apatia enfiou-se goela abaixo, deixando um vãozinho pros meus perdigotos comentaristas.

Uma segunda dúvida surgiu:

— Que poder tem um guardinha para mandar para o xilindró quem apenas jogou fora a embalagem de chiclete?

Aumentei o volume.

Disse a comentarista:

— As informações não batem. Segundo um ciclista, o carro quebrou à esquerda quando o sinal era amarelo. Essa guinada irregular fez com que o rapaz caísse e ralasse as duas rótulas.

Falou uma terceira analista:

— Não se usa mais “rótula”. Hoje a gente diz “patela”.

O outro comentarista voltou à carga:

— Deixe-me entender melhor a situação. Pelo que você contou, o relato desta suposta vítima já a condena. Ela ralou as ‘patelas’, porque pedalava sem joelheira. Eu entendi direito? Ele se autoacusou?

A primeira comentarista retomou:

— Ninguém aqui é leviano pra tirar ilações sobre o uso de joelheira. É fundamental averiguar se o código de trânsito vigente estabelece a obrigatoriedade desse item de segurança.

O analista destacou:

— É preciso averiguar se o ciclista está falando a verdade.

A segunda comentarista disse:

— Espera-se que as autoridades exijam laudo técnico que mostre onde o corpo apresenta ferimento. E qual é a causa provável.

Para o primeiro comentarista, ficou patente:

— Se o infrator converteu à direita sem dar o alerta de conversão, então, o automóvel não podia ter entrado na esquerda. Acho que nem a física quântica conceberia tal aberração.

Riram. E a escalada escalafobética desacelerou-se:

— Se violaram o sinal ou jogaram o lixo pela janela...

— Ou se um rapaz quase foi atropelado...

— Temos que dizer ao público: estamos longe da verdade.

Falando a quilômetros do incidente, um repórter disse que, segundo as suas apurações, o nome do agente será mantido em sigilo.

— Então, ninguém sabe se o nome do oficial é Belo?

A transmissão caiu.

Especularam que o Guarda Belo seria da Turma do Manda-Chuva. Falou-se que o nome do agente era o mesmo de personagem do Urso do Cabelo Duro.

Urso do Cabelo Duro!

E a frase do dia foi dita sem falsa melancolia:

“Os 16 episódios duraram a minha infância inteira.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de abril de 2026.