O
aprendiz
Por me atraírem os simplórios que não
se preocupam com o próximo passo, olho onde piso, busco serenar os meus ânimos,
ouço o que o mundo tem a dizer. Sem me afogar na correnteza dos acontecimentos,
desmonto e remonto suas evidências. Por isso, à realidade dou crédito pela vida
que posso experimentar.
Impressionado, leio o que acabei de
escrever e assino com a hesitação de costume. Porventura, tal veredito faz
sentido ao predizer o uso da razão frente às coisas do dia a dia?
Abismado pela entrevista do
neurocientista Ricardo Oliveira publicada no Estadão do dia 26 de abril, a
pouco e pouco pela leitura, fui-me descobrindo que, porque tenho emoções morais
como culpa mas não me adapto às relações sociais, tenho um distúrbio de personalidade
que me põe em desvantagem com quem vive numa boa com o mundo ao seu redor.
Porém, o que não se disse é que, feito um misantropo que se apieda, abrindo as janelas
para o sol da manhã, tomando um copo de leite bem quentinho na hora de dormir e
submetendo-me a horas e horas de psicoterapia, hei de me endireitar, ter uma vida adaptada e produtiva. Confiança é a
estrada para a vida nova. Oba!
Admito que gosto muito quando leio
conceitos e julgamentos que me contrariam o senso. Desafinam meu cérebro,
desafiam a minha mente. Uau! Deito fora a compostura, solto a língua ao passar
ao papel o que desejo tecido com o que não sei, porque inédito até o momento em
que as palavras passam a vestir tais ideias com o que vai sendo escrito
enquanto experimento dar existência ao que penso estar sentindo ao estar
sentindo o que penso. Se não desconfio de mim ao me pôr ao natural?
Confessar não é abrir-se à palavra
como quem abre o peito para mostrar ao mundo o coração em perfeito
funcionamento. Quem se confessa, se humilha. Sem o freio do pudor, dizer o que
vai pelo pensamento é abrir mão da própria intimidade. A mim me parece, porém,
que a pudicícia não me quer: discreto; acessível a poucos; a me revelar afetado,
calculado e fingido.
A vida pede o inventor de mentiras que
soem convincentes?
Entrego o jogo, boio nas memórias que mais
me convencem de que estou recordando o que me magoa. Machucado, aceito as
muletas alheias. E é com essa dor de existir, escolhida para mim, que narro as
peripécias de cão velhaco. Ainda mais que sarna inventada também coça...
Com as limitações bem delineadas,
preciso aprender a tirar do fundo do baú o que me foge ao entendimento. E, numa
hora dessas, o que poderia ocorrer se prendesse a respiração por um tempão e
fechasse os olhos com força extrema? Sei, não.
Só digo não achar extravagante nem
tampouco inverossímil querer ir de mãos dadas com Montaigne, porque a novidade de uma coisa, mais do que sua
importância, incita-nos a procurar-lhe a origem.
Viver é aprender a dar razão a quem
não tem?
Acordados, malucos e cachaceiros teimam
não acordar.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 30 de abril de 2019.
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