Pedaço
de mim
Sabe a pedra do Sísifo? Pois, esqueça.
Conhece Enigma? O poema do Drummond
do livro A rosa do povo, sabe? Pense
nele. Desprevenidas, as pedras seguiam na sua vida de pedra, todavia uma forma
obscura barra a caminhada, então, é mal
de enigmas não se decifrarem a si próprios, vai daí que as pedras, no esforço de compreender, chegam a
imobilizar-se de todo.
UMA PIADA, minha crônica última do
passado 31 de Março, fabriquei-a com o deliberado hermetismo dos objetos
obscuros. Nada mais enigmático que o evidente. Como a forma que veio deixar
petrificadas as inteligentes e sensíveis pedras do poema do Gauche de Itabira, e fi-lo vir, o meu texto,
para zombar da tentativa de interpretação.
Piada, a crônica; e não o poema.
Para não perder a mão, nesta, corro de
explicar enigmas. É que piada contada ou causa efeito no ato ou já era. Era?
Era uma vez a ocasião de um
determinado fulano, o capitão anônimo que foi pescar numa angra dessas em que
a pesca é proibida por lei. Daí, veio lá um funcionário de órgão específico de
inspeção, cuja lavratura de multa imputou ao capitão fulano a ilegalidade
praticada. Conforme-se, é a regra. A barca passa, o praça fica. Rasgaram a
multa. O multador foi-se porta afora, por ato do superior recém-lotado no
cargo.
O mais, deixo às inteligências
leitoras que liguem os pontos para obter o desenho, caricatural e grotesco, da
hora. Tão logo resulte o quadro em riso, ou não. Assim fisga quem lê, entre a
falta e o excesso, sendo texto, o instante feito para efeito.
Avante!
Há qualquer coisa que se move na minha
mente, está lá em algum lugar da minha consciência, algo informe, uma presença
que diz meu nome com todas as letras. É da sedução, farol do reflexo. Leio o
espelho, pisco de volta. Sinto que pisca, que me espelha. Deseja para si a
palavra, na petulância de querer-se final. Como não lembrar a poesia pelos calafrios
da agitação? É destino, isso não passa de ato humano.
Tropeço no minério.
A jazida do inesperado me atravessa o
caminho. São ímã as palavras do João Pereira Coutinho: quem disse que as nossas paranoias têm de ser reais – para os outros?
Elas são reais para nós, e o que interessa é a verdade subjetiva de quem cria.
O texto, publicado na Folha no dia 26
de março, fala de Nós e Corra!, filmes roteirizados e dirigidos
por Jordan Peele. Não se tire pela preguiça e não se faça de gugoulista, leia a
coluna e veja os filmes. Ouse viver com a perturbação de pensar por si a partir
das provocações de quem pensa por si. Duvida? Bingo!
Idiota míope, algo me impede de ler a
pedra pela lapidação necessária. Permaneça inacessível ao valor do uso, sua
bruta. Oposto ao MEC que ─ a ir, voltar, fazer, desfazer ─ é exemplo do que
quer quem não sabe o que quer. Fico na mesma?
Volto ao Drummond, sobrevivo à
consciência. Sei, rio algum transborda do homem sedento. Pela vanglória, é
pescado.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, 02 de abril de 2019.
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