terça-feira, 2 de abril de 2019

Pedaço de mim


Pedaço de mim

Sabe a pedra do Sísifo? Pois, esqueça. Conhece Enigma? O poema do Drummond do livro A rosa do povo, sabe? Pense nele. Desprevenidas, as pedras seguiam na sua vida de pedra, todavia uma forma obscura barra a caminhada, então, é mal de enigmas não se decifrarem a si próprios, vai daí que as pedras, no esforço de compreender, chegam a imobilizar-se de todo.
UMA PIADA, minha crônica última do passado 31 de Março, fabriquei-a com o deliberado hermetismo dos objetos obscuros. Nada mais enigmático que o evidente. Como a forma que veio deixar petrificadas as inteligentes e sensíveis pedras do poema do Gauche de Itabira, e fi-lo vir, o meu texto, para zombar da tentativa de interpretação. Piada, a crônica; e não o poema.
Para não perder a mão, nesta, corro de explicar enigmas. É que piada contada ou causa efeito no ato ou já era. Era?
Era uma vez a ocasião de um determinado fulano, o capitão anônimo que foi pescar numa angra dessas em que a pesca é proibida por lei. Daí, veio lá um funcionário de órgão específico de inspeção, cuja lavratura de multa imputou ao capitão fulano a ilegalidade praticada. Conforme-se, é a regra. A barca passa, o praça fica. Rasgaram a multa. O multador foi-se porta afora, por ato do superior recém-lotado no cargo.
O mais, deixo às inteligências leitoras que liguem os pontos para obter o desenho, caricatural e grotesco, da hora. Tão logo resulte o quadro em riso, ou não. Assim fisga quem lê, entre a falta e o excesso, sendo texto, o instante feito para efeito.
Avante!
Há qualquer coisa que se move na minha mente, está lá em algum lugar da minha consciência, algo informe, uma presença que diz meu nome com todas as letras. É da sedução, farol do reflexo. Leio o espelho, pisco de volta. Sinto que pisca, que me espelha. Deseja para si a palavra, na petulância de querer-se final. Como não lembrar a poesia pelos calafrios da agitação? É destino, isso não passa de ato humano.
Tropeço no minério.
A jazida do inesperado me atravessa o caminho. São ímã as palavras do João Pereira Coutinho: quem disse que as nossas paranoias têm de ser reais – para os outros? Elas são reais para nós, e o que interessa é a verdade subjetiva de quem cria.
O texto, publicado na Folha no dia 26 de março, fala de Nós e Corra!, filmes roteirizados e dirigidos por Jordan Peele. Não se tire pela preguiça e não se faça de gugoulista, leia a coluna e veja os filmes. Ouse viver com a perturbação de pensar por si a partir das provocações de quem pensa por si. Duvida? Bingo!
Idiota míope, algo me impede de ler a pedra pela lapidação necessária. Permaneça inacessível ao valor do uso, sua bruta. Oposto ao MEC que ─ a ir, voltar, fazer, desfazer ─ é exemplo do que quer quem não sabe o que quer. Fico na mesma?
Volto ao Drummond, sobrevivo à consciência. Sei, rio algum transborda do homem sedento. Pela vanglória, é pescado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 02 de abril de 2019.

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