A
marca humana
Sentado ao volante, com alma gentil, tão
logo notou o jovem a ponto de precipitar-se degraus acima, o meneio grisalho, pontuado
pela mão ajustada ao tom moderado, seguro, sem ser agressivo nem parvo, era
mais convite pra sair da garoenta tarde gelada que entrada autorizada.
Subindo, tirando o cartão da carteira,
era menos por cortesia que o rapaz cumprimentou quem foi capaz de uma recepção
acolhedora. Era porque nem pediu pro chuveiro quente lavá-lo dos pensamentos
ruins que tivera durante a noite de sobressaltos intercorrentes, o bem-estar ia
pingando enquanto sua mente constatava paulatinamente que a falta de sol e o
vento frio daquele dia não o poriam melancólico. Por isso, o seu boa-tarde veio
sóbrio, nada forçado, simples.
Já que aos sábados os ônibus daquela
linha não eram de lotar, não quis sentar-se sozinho naquele banco às costas do
motorista. Assim que cruzou a catraca, cuidando pra não amassar o uniforme nem
vazar a marmita, ajeitou a mochila como travesseiro.
Para quebrar o aborrecido cochilo contra
o vidro, a realidade, como viveiro de circunstâncias limpas do óbvio e
decepcionante presente lido pelo hábito, trouxe a fuzarca.
Saracoteando-se toda pela esquina, solta
pela calçada, tomada por uma alegria brincalhona, seguida pela mãe que tutela suas
ações sem os rigores de gente exasperada, vinha uma infância a sorrir, bambolear
e revelar que a vida bem pode ser passarela, tablado e palco a quem, inocente e
instintiva, arrisca-se a conhecer o mundo com baita leveza.
Bailando sem afetações, desengonçada,
cantando a sua música de sons inesperados e incongruentes, todavia, melodiosos
e harmônicos, a criança entrou mostrando o buquezinho de raminhos murchos e uma
medalhinha de latão vulgar como louros olímpicos.
ꟷ Que maravilha! Tô vendo que o garotão
ganhou em primeiro.
ꟷ Que nada, motô, ele ficou no último
lugar.
ꟷ Não, mãezinha, não fiquei em último. Ganhei
em quinto.
ꟷ Isso, filho. Dos cinco que
participaram, você tirou o quinto lugar.
ꟷ A diretora disse que quem não foi é
que perdeu, motô. Eu fui, por isso, sou vencedor. Ela diz a verdade ou não
seria diretora, né?
ꟷ É isso aí, garotão. Se a diretora
disse, então, tá certo. E emendou sem
malícia: Meus parabéns, dona. Seu filho tem um entusiasmo difícil de ser visto
hoje em dia. Até a criançada parece ter perdido a felicidade bacana de tomar
parte das coisas sem a obrigação de ter que vencer a qualquer preço.
Quando ia acrescentar que sua filha de
sete anos chora se não tira a maior nota no karaokê, o farol do ônibus parado
atrás piscou porque uma buzina apressadinha resolveu passar por ambos para, enviesada
a dar ré, tomar o lugar de quem marca passo, esperando a hora de sair do ponto.
Se há tempo para acelerar, há tempo para
atrasar, uma vez que, ao fim e ao cabo, tempo há para aprender a viver de modo
justo.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de julho de 2021.