domingo, 14 de abril de 2019

Compreensível


Compreensível

Em nota sobre o poema O que amarga, Flávio R. Kothe, tradutor e organizador d’A poesia hermética de Paul Celan, diz que a arte é concreta, singular, mas tem nela a elaboração peculiar do abstrato e universal, de um modo inacessível ao conceito. Ainda, o suicídio de Celan em 1970, ao fim e ao cabo, menos que um drama pessoal de um sobrevivente da Shoah, é visto mais como colaboração com o inimigo na guerra contra o terror de Estado praticado mundo afora.
Entendo. Mas: há artistas que, pensando-se a si mesmos, pensam para o outro; e outros há que, pensando-se pelo outro, pensam-se. Ambas as práticas trabalham a consciência, e isso independe da sua atuação, comunal ou egoica, a posteriori.
No papel virtual, corro às folhas. Soltas na realidade, a mim me dão suporte aos pensamentos que tomam o discurso pelas rédeas, em desenfreado jorro que afoga a lucidez na razão.
Na grita em que me calo, balbucia quem não se controla, vê em mim a brecha para ganhar neste mundo qualquer sombra que lhe sirva de veículo. Para manifestar-se em desacordo com os rumos do mundo. Como se buscasse o quê? O palco...
Desempenho meu papel. A pessoa que escreve, posso mais que a rebeldia, mas quero ir? Posso ir além da revolta, se irei? Pego da pena, a arma que aprendo manusear, mirar, disparar.
Penso. Para que a realidade ganhe existência. Sinto.
Uma pizza portuguesa, para começar. Ressalvando-se: com o número igual de fatias para ela e para ele; com a conta paga por ela, por ele ou por ambos; antes de ir-se, agradecer quem trabalha no atendimento. Como se vê ─ pizza é um começo.
Então, basta mudar os hábitos, inventá-los outros e terei um mundo educado e gentil? O mundo é vasto e o meu coração, diminuto. O sangue que levo nas veias e artérias não herdei de ninguém. Todavia? Faço por mim, agindo. Achando que posso, e não posso. Já é muito tolerar os modos. Dá um trabalhão a quem se dispõe servir-se de outros modelos para que venha a tornar-se quem se quer: novo. A caminho de mim. Porque há de rebelar-se contra ódios, gratuitos ou justificados. Pois há de revoltar-se contra amores, servis ou ajustados. Porquanto há de revolucionar-se além das órbitas, previstas e calculadas.
Na esfera pública da intimidade, o plano é...
O povo? O que disparou 80 tiros e o que os recebeu. Povo, das camadas populares, pobres, sem poder. Povo, o que veste uniforme, almoça, janta e toma banho. Povo, os encharcados de álcool a queimar nas ruas. Faz jus a?
Quem se acha dono, reduz custos. Na Educação: de R$ 24 bilhões para R$ 17 bilhões; dos 21 mil cargos comissionados no governo, foram cortados 14 mil em universidades públicas.
Diz-se o que não se diz? Não entendo o que digo, entendo.
Ao delírio das coisas, o meu ofício é a metamorfose.
Com a percepção do afeto, em mente e por palavras, é lícito a arte fugir à ordem ou agir contra a norma.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de abril de 2019.

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