Chovendo
no sapato
Direto ao ponto que fica na rodoviária,
porque sapatos precisam de graxa regularmente, uma vez por semana. Não sou
homem de ostentar tênis em batizado, o que muito me envergonharia. Não fica
nada bem padrinho aquém do esperado, que a palavra conselheira, para que não se
questione o garbo da autoridade, demanda o rigor de terno, gravata, camisa de
colarinho limpo e sapatos apresentáveis.
Convite aceito, quero engraxado o par escolhido
pra cerimônia.
Passo pela praça, onde fui desembestado,
e tão menino.
No tempo que andava mais descalço do que
arrastando chinelo, era eu quem oferecia os serviços batendo escova na caixa, e,
como agrado à clientela, o trabalho em dobro de tinta e graxa gerava desconto.
Além do mais, divertido era cantar o pano no couro, até ficar um brinco.
Descalço entre descalços, porém com as
unhas aparadas, recordo o cerco dos descontentes, pois eu poderia trabalhar no
bazar da minha mãe. Todavia, minha prosa era fácil e, por obra e graça dessa
lábia tão loquaz, eis que já ia tirando a poeira dos sapatos de meio mundo.
Fui defendido no direito de engraxar,
nem que fosse pelo cigarrinho de chocolate e meia dúzia de dadinhos, que isso
era assunto meu. Que terceiros trocassem figurinhas com os bons homens da terra.
E essa gente era boa de papo, e boa em gorjetas
minguadas.
Pois agora me recordo, chovia há dias e
o barro untava tudo que ia cruzando as ruas, pelas alamedas e vielas, por poças
e alagados, que todos os caminhos acabavam na Matriz, esse umbigo a fiéis e outros
devotos, os trabalhadores com hostilidades a hóstias.
Numa guerra contínua.
Em nome da paz universal, que sapatos,
carteiras, bolsas e cintos sejam fabricados com couro bioético, que o engenho
humano escolha replicar bovinos, jacarés, cobras e lagartos.
Como não pego em armas nem as vendo, e
porque calço sapatos, vou àquele ponto, ao que já não há na rodoviária.
Removido por pessoas que gostam de pisar
com firmeza, uma vez que, do salto alto das suas prerrogativas de fino trato,
elas dão leis pra que sejam cumpridas a valer, não no sapatinho, que nem aperta
o calo.
Tomado de raiva ao ficar vendo latas-velhas
atulhadas de sardinhas abatidas, pico a mula.
Passo por um carrinho de churros, o
cheiro é fogo; e um de pipoca, já o barulho dá água na boca; mais outro, o de
maçã do amor, um dente dói desde ontem.
Surpresa! O carrinho do milho faz parar.
Tem curau, pamonha, tortas doce e salgada,
biju, polenta, sorvete, espiga no alho, tem hambúrguer de milho.
A folha de milho, o biju, vem quente da
infância.
Experimento o x-milho, e dou nota dez ao
sanduba.
Tentado a aprovar a polenta recheada de
ricota: é uma pepita!
De repente, o rádio toca Being Alive. Nuvens
chegaram que nem vi. Bernadette Peters, do nada? Uma euforia súbita me pega sem
chapéu, e penso. O corpo sabe de cor, está chovendo no meu sapato.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 30 de novembro de 2021.