quinta-feira, 11 de junho de 2026

Cara de sorte

 

Cara de sorte

 

Bati no vidro. O nó do dedo não produziu o mesmo resultado que a ponta da chave. Quem levantou a cabeça foi a pessoa distraída pelo celular. Tornei a bater com a chave. Sem olhar para mim, a pessoa que se maquiava falou com a outra. Pela terceira vez, bati e, gesticulando de tal modo que ficasse entendido que eu precisava de envelope para depósito, gritei que precisava de envelope para fazer depósito.

A pessoa do celular veio até mim:

— Não está comigo a chave do armário.

Saí da agência. Ao atravessar a rua, fui interpelado:

— Acorda!

Ser atropelado por um ciclista vindo na contramão é a última coisa que eu iria querer. Porque as segundas-feiras carregam o anátema de estragarem a semana da gente, não queria que o meu corpo validasse a maldição.

Isso de ser abalroado por um infrator sem que houvesse uma alma para testemunhar que não fui eu que trouxe a má-sorte para o meu dia seria mesmo o “uó”.

Com isso em mente, berrei:

— Ainda bem que estou acordado!

Cheguei na casa.

Até ser convencido de que o motor de oxigenação da água operava normalmente, tive paciência. Então, no aquário, pus a ração.

Tratei de isolar os cães na parte da frente da propriedade, assim eu pude trocar a água das vasilhas. Adotando como parâmetro a minha boca, coloquei o suficiente de ração para que os esfomeados ficassem sem comer até o fim da tarde.

Chegou a vez de cuidar do Iago. E ele, cadê?

Eu chamei. E chamei. Nada.

Fui chamando, e procurei embaixo da cama. Chamei, e fui jogando a bola com guizos. Em vão. Nem no guarda-roupa do quarto de visitas nem ao lado da geladeira.

— Caraca do caramba, Iago. Apareça!

Não fui convincente. E o gato continuou onde estava. Longe de mim o bastante para seguir sossegado. Talvez dormindo. Sonhando. Dando cabo de camundongos — na hora do bote, sonho algum faz o predador perder suas presas.

Sorte minha que o Iago não apareceu. Se ele tivesse aparecido, eu ficaria ninando o bicho até que ele parasse de ronronar e fosse dormir na sua almofada que fica na sua poltrona no canto da sala que é todo seu.

Que sorte a minha. Quando bateu a fome, fui almoçar.

Tudo certo: lavei o prato; tirei minha pestana no sofá.

De volta ao batente, tratei de isolar os cachorros na parte dianteira do imóvel do Luisinho. Daí eu troquei a água das vasilhas. Então, pude pôr a quantidade de ração que calculei ser o bastante para os coitados não passarem fome no frio da madrugada.

Jantando a macarronada que sobrou, imaginei os banhos de mar, uma lagosta alho e óleo e aquelas moças sorridentes que cobram caro só dos turistas que têm sotaque carregado.

Ainda bem que o meu amigo tirou uma semana de sol e praia, pois, se tinha uma pessoa que precisava desestressar, ele era o cara.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de junho de 2026.

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