Bati no vidro. O nó do dedo não produziu
o mesmo resultado que a ponta da chave. Quem levantou a cabeça foi a pessoa
distraída pelo celular. Tornei a bater com a chave. Sem olhar para mim, a
pessoa que se maquiava falou com a outra. Pela terceira vez, bati e,
gesticulando de tal modo que ficasse entendido que eu precisava de envelope
para depósito, gritei que precisava de envelope para fazer depósito.
A pessoa do celular veio até mim:
— Não está comigo a chave do armário.
Saí da agência. Ao atravessar a rua, fui
interpelado:
— Acorda!
Ser atropelado por um ciclista vindo na
contramão é a última coisa que eu iria querer. Porque as segundas-feiras
carregam o anátema de estragarem a semana da gente, não queria que o meu corpo validasse
a maldição.
Isso de ser abalroado por um infrator
sem que houvesse uma alma para testemunhar que não fui eu que trouxe a má-sorte
para o meu dia seria mesmo o “uó”.
Com isso em mente, berrei:
— Ainda bem que estou acordado!
Cheguei na casa.
Até ser convencido de que o motor de
oxigenação da água operava normalmente, tive paciência. Então, no aquário, pus a
ração.
Tratei de isolar os cães na parte da
frente da propriedade, assim eu pude trocar a água das vasilhas. Adotando como
parâmetro a minha boca, coloquei o suficiente de ração para que os esfomeados
ficassem sem comer até o fim da tarde.
Chegou a vez de cuidar do Iago. E ele,
cadê?
Eu chamei. E chamei. Nada.
Fui chamando, e procurei embaixo da
cama. Chamei, e fui jogando a bola com guizos. Em vão. Nem no guarda-roupa do
quarto de visitas nem ao lado da geladeira.
— Caraca do caramba, Iago. Apareça!
Não fui convincente. E o gato continuou
onde estava. Longe de mim o bastante para seguir sossegado. Talvez dormindo.
Sonhando. Dando cabo de camundongos — na hora do bote, sonho algum faz o predador
perder suas presas.
Sorte minha que o Iago não apareceu. Se
ele tivesse aparecido, eu ficaria ninando o bicho até que ele parasse de
ronronar e fosse dormir na sua almofada que fica na sua poltrona no canto da
sala que é todo seu.
Que sorte a minha. Quando bateu a fome,
fui almoçar.
Tudo certo: lavei o prato; tirei minha
pestana no sofá.
De volta ao batente, tratei de isolar os
cachorros na parte dianteira do imóvel do Luisinho. Daí eu troquei a água das
vasilhas. Então, pude pôr a quantidade de ração que calculei ser o bastante
para os coitados não passarem fome no frio da madrugada.
Jantando a macarronada que sobrou,
imaginei os banhos de mar, uma lagosta alho e óleo e aquelas moças sorridentes
que cobram caro só dos turistas que têm sotaque carregado.
Ainda bem que o meu amigo tirou uma
semana de sol e praia, pois, se tinha uma pessoa que precisava desestressar, ele
era o cara.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 11 de junho de 2026.
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