O
desenlace
Sozinho, é solitário ouvir passos
distantes. A cidade não dorme nem um segundo sequer. E há parapeitos em
passarelas, pontes, viadutos. Encolhido na cama, o coração silva de vez em
quando. E a paixão que rege a fadiga dos ossos estimula à febre. É difícil
lidar com homem que treme ao menor sinal de euforia noturna.
A noite veio calma. Em maré crescente, a
lua varre o céu com a sua luz silente. Recolhido à chama da mansidão, o
namorado quer a flama de quem não se contenta com o futuro.
Querem que pense no que se avizinha. Vem
que vem. Com fôlego que assusta um pouco, e faz duvidar que tenha freio. Que
seja possível fugir quando a colisão apresentar-se inevitável.
Queria dormir, mas outubro é um meteorito
vindo na sua direção. É um tiro disparado do escuro além do horizonte. É o
futuro que vem de bem longe. E futuro come o que pega pela frente.
Ê namorado que não dorme, o escuro do
quarto não o protege. Sem ganas de defender-se, peça o sono dos cansados, queira
sonho menos violento. E o futuro corta o caminho, cruza o amor com a frustração.
A escuridão gela o ar. Respira-se sem
conforto. O sopro do rancor confrange o coração. O amargurado inveja quem
oferece o que tem de melhor. Não que seja o mais caro, muito especial, sem
igual.
Ele vem, e vem pronto pra derrubar quem
esbarra, nocautear quem esmurra, zombar quando estapeia, escarrar em boca
aberta, topar feito pedra, tontear de fome, imbecilizar com historinha, e causar
estragos, tantos, porque é assim, bem assim. E que assim não seja.
O disparate vem de encontro a quem acha
de marcar bobeira bem no caminho. Que calendário tem agendas a cumprir, cumpram-se.
Não quer pensar além da conta. Quer o
sono, que não vem. Porque outubro há de vir, mas que não venha outro tiro no
escuro. Aqueloutro outubro? Não dispare a mentira. Aquele outubro segue
evidente. E não houve segredo sequer surpresa. O que foi dito foi o que se
cumpriu. E foi assim. Está sendo. Pra que não siga sendo, interrompa-se o fluxo.
Agora é junho. Hoje é domingo. Tem o Dia
dos Namorados.
O namorado gostaria de ter comprado um
buquê de rosas, enviou a foto. Queria jantar, bombons e motel, e não pôde. E o
que pode?
O futuro continua o mesmo. Vem alargando
anos, meses, dias. Vem comendo instante a instante. Fazendo cara de que sabe
que isso tudo tem acontecido como imaginado, elaborado, implementado. No
roteiro do previsto, o futuro são mágoas, feridas, fraturas, fissuras, chagas.
O futuro é lágrima que não rola, é o amanhã que não sacia, é a fome da
ampulheta desgovernada.
Outubro, outubro, outro rumo pro futuro.
Outubro, está muito escuro em junho. Outubro, que futuro?
Amanhece, a namorada acorda. Não sonhou
com macarronada ao meio-dia. Ela conta que são duas, são pessoas enamoradas.
Elas que se abracem, se beijem, se desejem.
Com afetuoso pudor, que o amor tenha
praça pra se manifestar.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 12 de junho de 2022.