Três
vezes ao dia
Não basta acreditar que se pode ser
útil, servir-se de instrumento a quem franquia alguma ajuda, é passível do
passo aziago quem se acha a solução universal. Quando o inconsolável da vida manifesta-se,
esse ridículo, que a muitos assedia com sutileza zero, transforma-se em um
chato do caramba.
Sem querer, acorda-se nem um pouco
xarope.
Bem-estar inexplicável é preocupante. Pois
isso de ver as horas no celular sem curiosidade sobre as guerras em andamento, os
hospitais precários, a escalada da inflação, isso é coisa de paspalho
profissional ou aparvalhado mané.
Pra remediar o caso, aplique-se um
incentivo fundamentado.
Toma-se a primeira dose de xaropismo
depois que amanhece, indo pro ponto sabendo que os demônios devoradores de
diesel passarão. Cedo ou tarde, lotadíssimos, passarão; ao deus-dará, os
monstrengos acumuladores de metano têm mesmo que passar.
Equivoca-se quem acelera o passo, porque
a experiência diz que o mau humor que minará a leveza conta com a espera
prolongada pelo próximo ônibus. E a irritação aumentará dando-se confiança a ranzinza
que desce a lenha no transporte coletivo de modo acerbo. O inopinado: já que motoristas não respeitam horários nem oferecem conforto, o povo que leve a culpa.
E xarope que hesita perdoa logo. Sabe
superar os problemas, tocar em frente, é que tem que sair-se melhor que ontem.
Mais que dinheiro no bolso, trabalha-se pelo bem do país. Ainda que mereça a
falta de fé dos superiores, que aumentam a meta de produção como se fosse um
desafio maior que os braços, é preciso querer dar o melhor de si. Nada de
carregar rancor enquanto mantém o foco, pois a meta existe pra ser cumprida.
Como cupim trabalha na muda, o bom xarope não para.
O corpo precisa da reposição de energia,
para-se. Mesmo os heróis mais genuínos são máquinas que operam direito quando
alimentadas a contento. Pra não deixar a peteca cair, almoça-se.
A segunda dose de xaropismo é sólida, concreta,
para ser mordida. Começa pelos olhos, é marmita servida de modo bem ordenado. Com
o feijãozinho coberto pela massa de arroz, o ovo frito ao lado do legume mais
barato. Come-se o que dá pra pagar. E a garfada tem esse preço que sobe de
elevador, e vai subindo. Quanto maior valor, maior o PIB. E produtor pensa no
país enquanto o Cruzeiro brilha na TV.
Não há terapia que abra mão de umas boas
horas de diversão. Sim, a terceira dose é ministrada por comentaristas mais bem
instruídos que consideram futebol-raiz matar-se em campo. E quem ama futebol
ama o próprio povo.
E que mão na roda é o povo. Porque tem
povo que não acaba mais. Tem povo que ora o tempo todo. Tem povo que fuma no
banheiro. Tem povo que chama pra briga. Tem povo que vota na foto. Tem esse povo
brasileiro que vive como povo eleito. Tem povo que acha que dever do povo é ver-se
como o povo que é.
Que o povo faça a sua parte.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de maio de 2022.
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